08 de julho de 2026
Geral

Jovens da classe C superam o nível de escolaridade dos pais

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

O perfil dos jovens, principalmente na classe C, mudou. Antes relegada a trabalhos mais tradicionais, e menos rentáveis - pois exigiam menor grau de qualificação -, a juventude brasileira já tem um nível de formação maior que o dos pais, também superados na hierarquia do mercado de trabalho e, consequentemente, faixa de renda.

A constatação é de um recente estudo conduzido pelo instituto Data Popular, especializado em pesquisas de mercado envolvendo as camadas sociais compreendidas pelas classes da chamada "base da pirâmide econômica".

Conforme o levantamento, apenas 26% da atual geração de pais integrantes da classe C concluíram o ensino fundamental, enquanto que 65% dos filhos, na mesma faixa econômica, possuem, no mínimo, o diploma secundário.

Na classe A, em termos comparativos, o índice de pais com ensino médio concluído é de 71% contra uma diferença de três pontos percentuais a mais de filhos com essa graduação.

Para o diretor do instituto, Renato Meirelles, os índices comprovam redução na das desigualdades, com melhor distribuição de renda. Ainda de acordo com o estudo, divulgado semana retrasada, 76% dos jovens oriundos da classe C trabalham.

Porém, o crescimento no nível de escolaridade não significa, necessariamente, maior qualidade no ensino brasileiro. A mudança de perfil, na opinião de especialistas, é uma tendência natural em virtude ao próprio crescimento do País e migração de grande contingente da classe C para um degrau a mais da chamada pirâmide social.

Entretanto, maior nível de qualificação, ressalva o antropólogo Cláudio Badaró, ex-professor da Universidade Sagrado Coração (USC), atualmente na Universidade de Cuiabá (MT), não significa necessariamente melhor qualidade.

"Quantos jovens em nível universitário falam mais de um idioma?", indaga o acadêmico. "É necessário incentivo governamental para termos mais qualidade também. Mas isso somente acontecerá a longo prazo", acredita Badaró, que também entra na lista de filhos com maior qualificação. "Meu pai era caminhoneiro, estudou apenas até a quarta série e foi trabalhar na roça. Mas sempre acreditou que o maior bem que deixaria para os filhos estava na educação", valoriza o terceiro de quatro irmãos, três com diploma universitário.

Para ele, essa grande diferença no grau de escolaridade entre pais e filhos é fruto também de uma mudança de cenário econômico, com a guinada de 25 milhões de brasileiros para a classe intermediária.

O grande contingente dessa população emergente, observa, se junta à atual demanda de conhecimento gerada pelo crescimento. "Até os anos 70 a visão cultural era a de uma formação técnica", compara. "A exigência hoje também está muito maior", considera.

A redução na desigualdade, para o professor de geografia e realidade socioeconômica e política brasileira Sebastião Clementino da Silva, o "Macalé", também é um dos propulsores desse cenário. "Isso facilitou o aumento no número de faculdades. Estamos na era do conhecimento. A fuga do homem do campo amplificou essa luta por capacitação", opina o estudioso, enumerando que 84% da população brasileira mora nas cidades.

Mais do que conhecimento, entretanto, Macalé, que é o professor da USC, afirma que os jovens que ganham o mercado de trabalho com melhores postos que os pais são movidos a outro incentivo: "O jovem que hoje estuda e trabalha é movido a sonhos", especifica. "As universidades terão que se abrir, cada vez mais, para essa população. Estamos carentes de mão de obra. Não adianta estar entre as oito maiores economias e não ter capital humano", observa.


Virada feminina

Além da maior escolaridade dos filhos em comparação aos pais, outro fator que promete sair da casa de tendência para realidade nos próximos anos é a massificação de mulheres em cargos de chefia, observa o professor de geografia Sebastião Clementino da Silva, da Universidade Sagrado Coração (USC), em Bauru.

"As mulheres vivem cinco anos a mais em média e têm a mesma quantidade de tempo em maior grau de escolaridade", argumenta. "Até 2020 as mulheres superarão os homens em cargos executivos", acentua. Atualmente, acrescenta o professor, existem 4 milhões de mulheres a mais do que homens no Brasil.

Oportunidade

Oportunidade. Foi tudo o que a empregada doméstica Sebastiana Damião, de 50 anos, não teve durante a infância. Mas também foi o principal instrumento que ela usou para realizar o sonho de ver o único filho diplomado.

Mãe do professor de educação física e instrutor de artes marciais Everton Aparecido Damião do Nascimento, de 24 anos, ela não esconde a "corujice" e orgulha-se de ter incentivado o garoto a participar de todas as cerimônias de formatura, desde o jardim da infância até a colação de grau universitária, algo que, para a moradora do Núcleo Nova Bauru, não é o último degrau. "Quero que ele faça pós", almeja.

Tiana, como é chamada carinhosamente, estudou apenas até a quarta série do primário. Após crescer num orfanato (fora abandonada pelos pais junto à irmã mais velha), ela conta que colocou na cabeça a ideia fixa de que no dia em que fosse mãe jamais privaria o filho de uma boa formação.

"Ele teve importantes ajuda para se formar, mas também me orgulho de ter conseguido. As pessoas devem sempre acreditar", ensina a doméstica, que não desistiu do sonho de reencontrar os pais: José e Maria Claudino Damião. "Tento há anos e continuo esperançosa", diz.

Quem também teve todo o suporte dos pais, apesar deles não terem escolaridade avançada, é o advogado Marcos Alves de Souza, de 40 anos. Especializado em antropologia, ele conta que os pais sempre focaram os esforços na casa comercial de secos e molhados, em Dois Córregos.

"Não me sentia vocacionado a seguir com os negócios da família. Acho que antigamente a maior preocupação era com essa questão do sustento. Para fazer faculdade, também era muito mais difícil. Direito, por exemplo, só havia no Largo São Francisco. Era muito mais difícil. Hoje o mercado está aberto", analisa Marcos, co-autor do livro "Antropologia, uma Reflexão sobre o Homem".


Independência

A pesquisa do Instituto Data Popular foi alicerçada em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o levantamento, 76% dos filhos na classe C também trabalham, com apenas 16% deles recebendo algum tipo de auxílio financeiro mensal dos pais. Já 25% dos filhos das classes A e B precisam de mesada.