09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana:Roberto Silva Navarro

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min


Atualmente não é difícil vermos um goleiro fazer gol, principalmente no caso de pênaltis. Mas goleiro balançar a rede adversária após chutar de dentro da sua pequena área, ainda é raridade. Dono da façanha que entrou para a história do Noroeste em 1961, e que poucas vezes foi repetida pelo mundo afora, Roberto Silva Navarro tem um bom humor incontestável e revela uma memória cheia de divertidas histórias, como as partidas que jogou contra Pelé e o seu convívio com o r
ei.
Em 1956, com 14 anos de idade, Navarro vestia sua primeira camisa como goleiro do Noroeste, time pelo qual encerrou sua carreira em 1971 e colecionou muitas histórias. "A inesquecível viagem de minha vida foi com o Norusca para o Mato Grosso. A gente saía na segunda-feira para jogar no domingo em Corumbá e só chegava no sábado, todos queimados pelo fogo da locomotiva
", conta.
Ao aposentar as chuteiras e as luvas, Navarro dedicou sua vida à educação física na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) e ao trabalho com crianças portadoras de deficiências do Centrinho e do Lar Escola Rafael Maurício. " Foi um trabalho muito bonito com atletas paraolímpicos. É só visitar o Rafael Maurício para ver a quantidade de medalhas e troféus. No Brasil, a equipe foi invencível. Tanto foi que no início da década de 90, quatro atletas do Lar Rafael Maurício disputaram pela Seleção Brasileira Paraolímpica na Espanha", recorda.

Viagens, histórias da infância e outros feitos no futebol também fazem parte da entrevista de Roberto Silva Navarro ao Jornal da Cidade. Leia os principais trechos.


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Jornal da Cidade - Como começou a história do goleiro Navarro?

Roberto Silva Navarro - Tudo começou quando eu era bem criança e nem havia campos de gramado como os de hoje. Nós mesmos é que carpíamos quintais para fazer os campos e jogávamos descalços. Nossos pés viviam machucados porque não sabíamos carpir direito e o quintal era cheio daquela guanxuma e os toquinhos desse mato furava nossos pés. Não tinha jeito, sempre chegávamos em casa com os pés sangrando. Só mais tarde é que vieram as chuteiras e as bolas.

JC - Seus contos de infância se misturam com as histórias de futebol?

Navarro - Isso porque era o que eu mais gostava de fazer. Era tudo tão difícil e mesmo assim era gostoso. Bola, a gente nem tinha direito. Havia uma bola de couro, que era costurada. Ela tinha um bico para fora por onde a enchíamos, dobrávamos e amarrávamos com um barbante para depois colocar aquele bico para dentro da bola. Era um couro comprido, que era trançado. A gente estava jogando e a bola encharcava. Outras vezes o couro escapava e a gente levava cada lambada. Era difícil jogar futebol naquela época.

JC - E como o menino se transformou em goleiro profissional?

Navarro - Eu devia ter uns 14 anos quando trabalhava em um escritório e o Noroeste tinha o Julião e o Caju como goleiros. O Caju estava machucado e o Julião viajou para o Rio de Janeiro por causa de uns documentos que precisava para se casar. Então, um rapaz que trabalhava comigo, sugeriu que eu fosse treinar no time. Mas eu era apenas um menino e não acreditei nisso. Mas fui e fiquei sentado na arquibancada. Havia um outro jogador que me indicou. Colocaram-me no gol e eu não saí mais. Nem alcançava a trave (risos).

JC - Foi goleiro do Noroeste por quanto tempo?

Navarro - Acredito que de 1956 até 1964, data em que fui para o Ferroviária de Araraquara. Depois joguei no Linense e, em seguida, no Ferroviária de Assis. Voltei a Bauru e encerrei minha carreira no Noroeste, em 1971. Ainda jogava bem, mas naquela época os jogadores de futebol paravam mais cedo mesmo. Você chegava aos 30 anos e já era considerado velho.

JC - Você entrou para a história do futebol com um feito raro!

Navarro - Isso aconteceu em 1961 contra o Taubaté no campo da Vila Pacífico. Chutei a bola do meu gol e ela entrou no gol do adversário. O pessoal ainda brincava dizendo que estava uma ventania e por isso a bola percorreu todo o campo, mas não estava, não! Eu atravessa o campo fácil. Tinha muita força na perna. O que não me faltava era força na perna e não era para correr da polícia não (risos). A torcida chegou a ficar em silêncio e demorei para acreditar no que havia feito. Mas o gol foi confirmado e entrou para a história.

JC - Uma vida cheia de histórias.

Navarro - É, sim. Há certas passagens que são engraçadas. Certa vez, jogando em Santos pelo Noroeste, e por incrível que pareça, ganhando, o time do Santos marcou um gol e a torcida começou a soltar foguetes em cima de mim. A fumaça ficou em cima do gol e não saía. Corri para o juiz e disse que o jogo havia acabado porque arrancaram a trave. Ele ficou muito bravo e disse que iria me expulsar, mas olhou e não viu mesmo a trave. Parou o jogo e mandou a polícia ficar perto de mim. Mas ele roubou muito e o Santos acabou virando o placar. Perdemos de 4 a 3. Acho que o Norusca nunca teve tanta torcida como naquele jogo. O Corinthians dependia da nossa vitória e o Palmeiras, também. Ainda nesse jogo, minhas pernas tremeram tanto que achei que fosse me dar uma coisa. Quando vi que a polícia estava perto, comecei a insultar a torcida dizendo para que jogassem coisas em mim. Deu a saída e o jogador do meu time atrasou a bola para mim, eu de costas para o campo e a bola indo em direção ao gol. Quando me virei, a metade do time estava no chão desesperada. Pulei e consegui pegar a bola com um palmo de distância do gol. Nossa, tremia tanto que nem conseguia chutar a bola. A torcida do Corinthians do meu lado, imagina se deixo aquela bola entrar. Quase morri de susto.

JC - Contou essas e outras histórias para o Jô Soares?

Navarro - Participei do Programa do Jô em outubro de 2010. Ele viu um documentário sobre o centenário do Noroeste e me chamou para conversar com ele. Falei mais sobre minha vida com o Pelé e a história do time de Bauru.

JC - Muitas histórias com o rei do futebol?

Navarro - Sempre joguei contra ele (risos), desde moleque. Ele jogava no Baquinho e eu, no Internacional, Gerson França, União e Turino...A gente se encontrava muito. Uma vez ele me convidou para jogar futebol de salão no time dele, mas na época eu não tinha dinheiro para pegar ônibus e fui a pé. Quando cheguei, o jogo já estava no finalzinho e nunca joguei no mesmo time de Pelé. Ah, quando cheguei ele é quem estava no gol. Então era assim. Éramos crianças e naquele tempo só pensávamos em coisas boas, em brincar...Ninguém pensava no futuro. Logicamente que sonhávamos com o futebol, mas eu não pensava que seria o goleiro do Noroeste e do Ferroviária. Nem o Pelé que seria o rei do futebol.

JC - Ele fez muitos gols contra você?

Navarro -Ah, nem posso te falar quantos. Perdi a conta (risos).

JC - Vida de aposentado é sinônimo de viagem (risos)?

Navarro - Já estou descansando há dois anos e faço questão de viajar ao menos uma vez por ano. Conheço quase todo o Brasil. É um país de beleza incrível. Um lugar que não me esqueço é do Mato Grosso e das viagens com o Noroeste. A gente saía na segunda-feira para jogar no domingo em Corumbá. Chegávamos no sábado, todos queimados pelo fogo da máquina. A janela não podia ir aberta por causa das faíscas, parecia tiros de espingarda. Era um calor...Hoje viajamos de avião e ainda reclamamos da turbulência (risos). Época de grandes lembranças aquela.

JC - Qual foi o primeiro passo ao pendurar as luvas?

Navarro - No finalzinho da carreira como goleiro resolvi estudar. Fiz faculdade de educação física na ITE e fui para Fartura, onde lecionei e fui assistente de direção. Depois prestei concurso no Estado, passei e vim para Bauru trabalhar na FOB. Naquela época os alunos de graduação eram obrigados a ter educação física. Depois o governo tirou essa obrigação da faculdade, mas continuei dando aulas para professores e para os alunos interessados. Também desenvolvi um trabalho no Centrinho e no Lar Escola Rafael Maurício.

JC - Qual era o intuito desse trabalho?

Navarro - Era um trabalho muito bonito com atletas paraolímpicos. Fiquei um tempo no Centrinho e depois fui para o Rafael Maurício, onde montei uma equipe de atletismo que, no Brasil, foi invencível. É só visitar o Rafael Maurício para ver a quantidade de medalhas e troféus. Tanto foi que no início da década de 90, quatro atletas do Rafael Maurício disputaram pela Seleção Brasileira Paraolímpica na Espanha. As modalidades foram corrida de 100, 200, 400, 1500 e 3000 metros, além de arremesso de dardo, de disco e de peso.

JC - Imagino sua emoção com a vitória desses atletas.

Navarro - É extremamente gratificante. O nosso atleta é excepcional em tudo. Ele é mais vivo do que qualquer outro. O pessoal chegava e queria "embrulhá-los", mas no fim eles é que saíam embrulhados. Eu ficava bobo em ver a comunicação deles com os chineses e outros atletas. Isso para o Brasil é uma coisa gratificante. O brasileiro é malandro por natureza. E digo isso no bom sentido.

JC - Trabalhou com esses meninos até quando?

Navarro - Aposentei-me como professor do Estado há dois anos e tive de parar. Esse trabalho foi muito difícil para mim e para os dirigentes do Lar Escola Rafael Maurício. O Nilson Costa deu muita força para a gente. Não tínhamos nada. Para ir para a Espanha, recebi ajuda de um amigo meu chamado Santo, que era gerente de banco. O Expresso de Prata dava o transporte. Do contrário, não poderíamos competir. O treinamento era feito na Praça Portugal. Havia um tanque de areia onde eles treinavam os saltos. A corrida era feita na subidona de lá. Acho que por isso ficaram tão preparados (risos). Na época das competições, eu levava os garotos para a FOB, onde eles conheciam uma pista e corriam. Imagino que se esses meninos caíssem nas mãos de treinadores de São Paulo tinham se destacado ainda mais. Mas como fazer isso se moravam no Lar Escola e aos 18 anos precisavam sair dali? Isso era a coisa mais triste para a gente. Eles chegavam aos 5 ou 6 anos, a gente os criava e quando completavam a maior idade, precisavam deixar o lugar. O governo devia dar uma sequência a esse trabalho. Chega aos 18 anos para onde vai essa criança?

JC - É como interromper o trabalho...

Navarro - Tudo é interrompido. Alguns não conseguem mesmo nem ler, mas outros aprendem de tudo e conseguem até emprego. O Brasil ainda é muito fraco nesse tipo de projeto. Para você ver, lá na Espanha, ficamos hospedados em uma instituição, também para crianças excepcionais. Lá era uma fábrica. Eles faziam peças de bicicleta. Então, a criança saía de lá com profissão ou, às vezes, nem precisava ir embora. Como que o Lar Escola vai ensinar uma profissão sem recursos? O País precisa evoluir muito.