09 de julho de 2026
Bairros

Chuvas levam a novos hábitos diários

Por Ieda Rodrigues | Com Redação
| Tempo de leitura: 4 min

O Brasil, país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, como diz a música "País Tropical", de Jorge Ben Jor e Wilson Simonal, sofre sim com desastres naturais (leia mais nesta página). As chuvas, que têm assolado brasileiros de Norte a Sul e provocado mortes em quantidades semelhantes a grandes catástrofes, como ocorreu na região serrana do Rio de Janeiro, estão mudando o comportamento do bauruense. No trânsito, principalmente entre os motoristas profissionais, já é comum traçar a rota após observar o céu. Se começar a chover, vias como a avenida Nações Unidas, que frequentemente alagam, são evitadas.

"Se estiver chovendo, mesmo que não seja tão forte, evito a Nações Unidas. E também passar pelo viaduto da avenida Rodrigues Alves sobre a Rondon (rodovia Marechal Rondon) porque sei que lá também para muita água", relata o taxista João Roberto Pedroso. Ele teme que o carro acabe inundado ou sofra avaria ao passar em um buraco encoberto pela água e também por sua vida e dos passageiros.

"A gente tem se precaver porque pode acontecer", diz ele, lembrando que em 30 de novembro do ano passado o passageiro de um táxi morreu ao ser levado pela enchente na avenida Nações Unidas quando saía do veículo. O taxista José Roberto Manzato, vai mais longe. "Eu evito trabalhar em períodos de chuva forte. Se começa a chover, vou embora para casa antes mesmo de inundar", conta.

E ele tem motivo: "Se estiver chovendo muito forte, também pego inundação para chegar em casa", diz ele, que mora na Vila Independência. As três opções de acesso da área central a seu bairro - pela Praça Chujiro Otake, pela avenida Comendador José da Silva Martha e pela avenida Daniel Pacífico - têm pontos de alagamento.

Os mototaxistas formam outra categoria muito prejudicada pelas chuvas e que precisa buscar alternativas. Como o movimento no início do ano é fraco, por causa das chuvas e por ser período de férias, muitos aproveitam para descansar. E quem segue trabalhando leva sempre consigo uma roupa de chuva.

"Cai o movimento porque os clientes não querem se molhar", explica o mototaxista Caio Robert, 32 anos. Quanto ao itinerário nas corridas, Robert conta que faz o caminho que o passageiro pede, mas quando chega em alguma rua alagada, desvia.

Ailton Severio, 35 anos, responsável por um mototáxi no Jardim Bela Vista, explica que a categoria perde passageiros nesta época de chuva. "As pessoas estão preferindo usar ônibus. Não saimos quando a chuva está muito forte nem com capa de chuva porque as ruas de Bauru têm muitos buracos e é perigoso para ambos (mototaxista e passageiro)", conta.

Para Élcio Nascimento, 47 anos, mototaxista de outro ponto de Bauru, muitas pessoas têm medo de andar de moto na chuva por causa do risco de acidentes, além de não querer se molhar. "Geralmente depois da chuva recebemos mais ligações para corridas", diz ele, que confirma que, assim como seus colegas, usa capa de chuva e evita lugares que alagam, explicando ao passageiro o risco de atravessar o local.

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, confirma que o bauruense tem evitado a Nações Unidas durante as chuvas. "Está melhorando a percepção de segurança do bauruense, que tem evitado a Nações. Na última chuva forte, quando interditamos a Nações na altura do viaduto da ferrovia, já havia muitos motoristas saindo da avenida, pegando outras vias", relata.

Desastres naturais

No mapa dos desastres naturais da América Latina elaborado pela revista "Diálogo", publicada trimestralmente pelo Comando Sul dos Estados Unidos na forma de fórum internacional para o contigente militar da América Latina, o Brasil aparece com dois problemas: enchentes e incêndios florestais.

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, concorda que chuvas e queimadas são desastres naturais. E Bauru, frisa, sofre com chuvas entre novembro e início de abril, e com queimadas de mato em terreno baldio e de restingas de mata nativa entre julho e setembro.

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Tempestades podem causar traumas

E as chuvas ? e seus efeitos - já influenciam a população psicologicamente. São cada vez mais frequentes relatos de pessoas que afirmam "morrer de medo de chuva", frisa Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru. Seja porque já enfrentou uma situação de risco na enchente ou de desmoronamento ou por saber que as chuvas têm causado mortes em vários locais do Brasil.

Em Bauru, no ano passado, uma pessoa morreu afogada na enchente na Nações Unidas e outra atingida por raio. Em função da nova realidade, o Conselho Federal de Psicologia está incentivando estudos sobre os traumas que a chuva pode provocar.

Eliane Canto Monteiro, 43 anos, que mora no Jardim Bela Vista, tem muito medo de chuva e temporais. "É um trauma de infância", conta. Além de desligar os aparelhos eletrônicos da tomada, ela chega a fechar as janelas da casa para não ver a chuva lá fora.

"Uma vez eu fui embora do serviço e começou a chover muito forte. Fiquei apavorada porque não conseguia passar em lugar nenhum. Então fiquei no estacionamento de um supermercado com os olhos fechados para não ver a chuva", relata.