10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Repasse de preços a serviços traz temor e faz mudar hábitos

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

No restaurante gerenciado por Thiago Vieira Francisco, o prato feito acompanhado de filé mignon subiu de R$ 14,00 para R$ 18,00 em janeiro. No final do ano passado, a manicure Vanessa dos Santos aumentou o preço do seu serviço de R$ 18,00 para R$ 25,00. Assim como eles, diaristas, marceneiros, pintores, pedreiros, entre outros, estão reajustando o valor de seus serviços por conta do encarecimento de produtos como carne, óleo de soja, açúcar, feijão e trigo ao longo do ano passado.

O fenômeno em cadeia que atingiu todos os setores da economia ? considerado por muitos especialistas como um processo clássico da inflação ? trouxe de volta o temor dos consumidores em relação a uma possível disparada dos preços em 2011. O resultado é que muitos consumidores bauruense já começam a mudar seus hábitos, pesquisando melhor e deixando supérfluos de lado . Conforme explicam economistas, mais do que a elevação de preços das matérias-primas utilizadas pelos prestadores de serviços, o encarecimento deste tipo de mão de obra é explicado pelo aumento do custo de vida como um todo. "Essas pessoas podem até pagar mais caro pelos produtos que utilizam para trabalhar, mas também vão gastar mais para comer ou se locomover, por exemplo. Então esse aumento será repassado para o serviço que elas prestam ao consumidor. Essa dispersão nos aumentos é um processo clássico da inflação", detalha o economista sênior do Espírito Santo Investment Bank, Flávio Serrano.

No caso do restaurante de Francisco, o reajuste do prato feito foi inevitável, visto que a carne foi um dos itens da cesta básica que mais variaram de preço no ano passado. "Estávamos pagando R$ 20,00 pelo quilo do filé mignon e, no final do ano, esse valor chegou a R$ 50,00. O aumento do prato feito não foi só nosso, mas algo generalizado e só por isso não sentimos tanto o impacto da redução da demanda", analisa.

Já Vanessa atribui a majoração do preço de seu serviço à alta de preço de esmaltes e outros acessórios usados por manicures. No entanto, reconhece que também aplicou reajuste de quase 40% em razão do aumento dos gastos no orçamento familiar.

"Tenho dois filhos, de 7 e 8 anos, e tudo ficou mais caro, principalmente a alimentação. O custo de vida ficou mais alto e, para manter o mesmo patamar de vida, temos também que valorizar o nosso trabalho", aponta.


Proveito


De acordo com o economista Reinaldo Cafeo, a composição dos preços no setor de serviços não conta com uma metodologia científica própria e isso abre margem para que cada profissional estabeleça o quanto quer cobrar para desempenhar o seu trabalho. Com isso, em alguns casos, há aqueles que acabam tirando proveito do momento de majoração geral de preços para encarecer sua mão de obra a um patamar acima da média.

"Se o boato de alta é grande, mesmo que esse profissional não a sinta com tanta intensidade, acaba aumentando o valor do seu serviço também. Se ele aplica um reajuste além da realidade e o consumidor continuar pagando, obviamente que não irá recuar depois", observa.

Cafeo lembra que em determinados segmentos, pela falta de mão de obra capacitada, o valor dos serviços também podem alcançar patamares bastante elevados. É o caso, por exemplo, das diaristas, que em Bauru aumentaram seus preços entre 20% e 25% em 2010, conforme publicado pelo JC no final do ano passado. "Os funcionários da construção civil também vivem esta realidade. Neste caso, não há muito o que fazer. Ou o contratante paga o custo, ou fica sem a mão de obra", pontua o economista.

Ainda como reflexo do ?boom? imobiliário na cidade ? e que também contribuiu para a inflação ? está o aumento dos aluguéis de imóveis, cujos contratos em janeiro estão sendo reajustados em 11,32%, conforme correção do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M). "Por conta da especulação imobiliária, o setor de locação ainda penaliza o bolso do bauruense", aponta Cafeo.

Para se ter ideia do impacto do aumento de preços de imóveis em Bauru e no resto do País, Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) decidiu, ontem, elevar o preço máximo dos imóveis novos e usados financiados por meio do Programa "Minha Casa, Minha Vida".

Para municípios com população a partir de 250 mil habitantes, como Bauru, o teto passou de R$ 80 mil para R$ 130 mil. A justificativa é proporcionar equivalência aos valores praticados pelo mercado imobiliário como um todo.

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O que fazer


Mesmo com as medidas tomadas pelo governo federal, o consumidor deve fazer sua parte para evitar a disparada da inflação. Com o aumento de preços de produtos e serviços, o ideal é que as pessoas evitem gastos com supérfluos e estabeleçam uma lista de prioridades para onde o orçamento doméstico será destinado.

Conforme explica o economista Reinaldo Cafeo, em época de preços nas alturas, medidas básicas podem ser adotadas com pequenos sacrifícios que não prejudiquem o bem-estar básico do consumidor e sua família. O recomendado é que o ele pesquise bastante os preços de produtos e serviços antes de se decidir pela compra e, sempre que possível, reduza a frequência de consumo desses bens.

"Se a pessoa ia todos os finais de semana ao restaurante, ele pode começar a ir a cada 15 dias. Com a diminuição da demanda, a tendência é que esses estabelecimentos reduzam os preços. Além disso, essa mudança de comportamento salvaguarda o orçamento familiar para gastos que são essenciais, como habitação, educação e saúde", salienta.

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Expectativa é de redução no índice


Com a elevação de produtos da cesta básica ? cujos preços ainda permanecem altos e são sentidos diretamente no bolso do consumidor, a inflação fechou o ano passado oficialmente em 5,91%, o maior índice desde 2004. Por conta do índice que ficou acima da meta estabelecida pelo Banco Central, no final de janeiro o Comitê de Política Monetária (Copom) aumentou em meio ponto percentual a taxa básica de juros (Selic), para 11,25% ao ano.

Com a medida, a intenção é reduzir o acesso ao crédito e, por consequência, inibir o consumo no mercado interno. Ao diminuir a demanda, o objetivo é manter a oferta estável e, assim, controlar os níveis de preço dos bens finais, sejam eles produtos ou serviços. Com isso, a expectativa dos especialistas é de que inflação acumulada até dezembro não ultrapasse a casa dos 5%, valor acima da meta estabelecida pelo Banco Central - de 4,5% -, mas ainda dentro do intervalo de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

"O cenário atual é preocupante, mas não desesperador. O governo já tomou as medidas necessárias e os consumidores irão consumir menos, as empresas vão crescer menos e a inflação será controlada", analisa o economista Reinaldo Cafeo.

Conforme ele explica, a inflação chegou ao índice de 5,91% em 2010 devido, justamente, ao aumento da renda e dos níveis de emprego, que proporcionaram um consumo elevado ao longo de todo o ano.