10 de julho de 2026
Polícia

Polícia não tem suspeita do ?dono? do túnel

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Ainda não há quaisquer indícios que possam levar aos autores do túnel desativado anteontem na avenida Nações Unidas, em Bauru e que tinha como destino a empresa de segurança e transporte de valores Protege. Ontem pela manhã, após o Corpo de Bombeiros verificar o local, o salão aberto exatamente abaixo do prédio foi explorado pela polícia, entretanto, não foram localizados objetos que possam indicar possíveis suspeitos.

A polícia ainda encontrou dois colchões e dois cobertores na galeria utilizada pelos bandidos para chegar bem em frente ao prédio da Protege, de onde começaram as escavações. Porém, o delegado titular da Delegacia Seccional de Bauru, Benedito Antônio Valencise, afirma que não é certo que pertençam aos autores da obra criminosa.

"Ainda não podemos afirmar com certeza que esses objetos eram dos bandidos. Apreendemos os colchões e cobertores e iremos investigar, assim como faremos com os outros objetos encontrados", explica.

Novamente, Valencise ressalta que a obra provavelmente é de responsabilidade do crime organizado. Questionado sobre a possibilidade de haver ligação com o túnel descoberto em 2009 na Penitenciária 1 de Avaré, cuja autoria foi atribuída ao Primeiro Comando da Capital (PCC), o delegado seccional apontou que nenhuma hipótese foi descartada.

"O que posso dizer é que o túnel descoberto em Bauru, apesar de ser bem menor em comprimento, tinha infinitamente mais tecnologia do que o de Avaré. Porém, estamos analisando a obra para tirar um comparativo e auxiliar nas investigações. Ressalto que quem fez isso era profissional e entendia bem de engenharia", complementa.

A hipótese levantada é a de que o túnel já estava pronto e os bandidos aguardavam apenas a hora mais oportuna para agir. Tal momento seria no qual as chuvas cessassem ou quando houvesse um maior montante de dinheiro no prédio da Protege. A polícia pede que a população ajude nas investigações, indicando se viram algo suspeito nas proximidades.


Informações privilegiadas


Apesar de ainda não haver suspeitas de quem cavou o túnel, a polícia trabalha com o setor de inteligência e com base em análises da complexidade da obra.

Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva, o delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), onde o caso está sendo investigado, aponta que, pelo modo de ação bastante planejada dos criminosos, é certeza que possuíam informações privilegiadas.

O delegado ainda afirma que, paralelo às averiguações policiais, o laudo pericial é aguardado para auxiliar nas investigações. O prazo para que o a perícia seja concluída e o resultado divulgado é de 30 dias.

O túnel foi descoberto na tarde de anteontem quando funcionários da prefeitura foram fazer um reparo em um buraco no asfalto. Ao verificar algo estranho, a polícia foi acionada e encontrou um túnel de aproximadamente 30 metros de profundidade que terminava bem abaixo do prédio da Protege. A empresa faz segurança e transporte de valores e lida diariamente com alto montante em dinheiro. No local há ainda armamento pesado.

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Repercussão nacional


Por conta da ousadia e da forma como o plano foi bem arquitetado, o caso do túnel de Bauru ganhou destaque nacional e foi noticiado em vários veículos de comunicação. Além da imprensa local, jornais impressos como Estadão e Folha de S. Paulo repercutiram a ação dos bandidos. Portais como o R7, G1 e UOL também noticiaram o caso. Em todos, além da engenhosidade, foi ressaltado o fato da escavação passar pela Nações Unidas, uma das principais avenidas de Bauru.

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Salão sob empresa de valores
tinha exaustor, pás e lâmpadas


Anteontem, por conta do anoitecer e do desconhecimento das condições do salão aberto pelos criminosos, no final do túnel, bem abaixo do prédio, a polícia optou por não adentrar no buraco. Na manhã de ontem, após uma vistoria do Corpo de Bombeiros, a Polícia Científica esteve presente para completar a perícia em campo e ainda foram localizados vários outros objetos utilizados durante as escavações do túnel.

O delegado seccional Benedito Antônio Valencise aponta que é bastante provável que todas as ações estavam sendo articuladas justamente nesse ponto. "Era uma espécie de sala de coordenação de trabalhos dos criminosos. O local tinha aproximadamente 1,5 metro de altura e lá eles podiam articular melhor o plano", explica.

No salão, de aproximadamente quatro metros quadrados, os policiais encontraram pás, barras de ferro, lâmpadas, parafusos, fiação e até mesmo um exaustor. Porém, não foram achadas anotações, cartões eletrônicos ou quaisquer pistas da identidade ou paradeiros dos bandidos. Também não foram localizadas armas no local.

Ainda na tarde de ontem, funcionários da Protege informaram que o salão seria inteiramente preenchido com cimento. A obra ficaria por conta da própria empresa.

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Acesso mais provável é pelo rio Bauru


Uma das maiores dificuldades na investigação é o fato de o túnel partir de uma galeria pluvial com entradas múltiplas. Em casos semelhantes, o ponto de partida das escavações eram casas alugadas nas proximidades, o que facilita as apurações policiais.

A reportagem esteve ontem em alguns dos possíveis pontos de acesso para a galeria. Em um deles, localizado na quadra 4 da Nações Unidas e aproximadamente 100 metros de distância do túnel, a entrada é em um viaduto e a relativa altura da abertura para a galeria seria um grande obstáculo aos bandidos.

Já o outro ponto de acesso, uma boca-de-lobo que fica exatamente na esquina de onde foi localizado o túnel, também seria difícil pelo grande movimento de veículos e pessoas no local.

Alguns moradores próximos, que preferiram ter a identidade preservada, afirmaram que um homem frequentemente repousa sobre o bueiro. "Sempre achamos que fosse um mendigo. Porém, com o ocorrido, passamos a suspeitar que podia ser alguém que ficava observando para ver se havia risco de algo e comunicava aos bandidos que estavam lá dentro (do túnel)", conta uma moradora.

Entretanto, para a polícia, o acesso mais provável é o do rio Bauru, localizado na avenida Nuno de Assis. No ponto, a entrada é ampla - com dimensões que possibilitariam inclusive a passagem de um automóvel - e pouco visível aos transeuntes.