09 de julho de 2026
Geral

Experiência familiar leva à adoção de 17

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

"O que falta para a sociedade é ser mais despojada no sentido do compartilhamento." A frase é da médica Elenice Deffune, mãe de 17 filhos ?do coração?. Aos 55 anos, tem clareza que a decisão de constituir sua grande família partiu de suas próprias origens familiares. Seus pais, oriundos do Interior do Paraná, tiveram dez filhos biológicos e cinco adotivos. Aos 35 anos, com carreira consolidada na França, onde concluiu mestrado e doutorado, Elenice decidiu que era hora de ter seus filhos, mesmo sem um companheiro.

"Refleti muito, procurei um psicanalista para ver se não era fuga e constatei que não. Foi uma decisão calcada em princípios familiares, em retribuição natural das chances e oportunidades que tive. Meus pais eram pessoas simples, mas extremamente elevados culturalmente", comenta.

Elenice decidiu, então, voltar ao Brasil. Escolheu uma cidade pequena, onde pudesse criar as crianças e ainda assim dar continuidade às pesquisas na área médica. Se instalou em Botucatu (100 quilômetros de Bauru). Tinha 37 anos.

Para ela, é no seio familiar que se consolidam as noções de cidadania. "É absolutamente possível construir uma família dentro de suas expectativas, com indivíduos completamente diferentes fisicamente de você e com comportamentos absolutamente similares aos seus", diz. Mas, nem de longe, a tarefa é simples. Os 17, com idade entre 7 e 22 anos, estudam em escolas públicas, de onde ela própria partiu.

"O indivíduo que tem princípios de moralidade, abertura para cultura e oportunidades, se constitui um cidadão e consegue alcançar seus objetivos mesmo numa escola pública", garante. Além disso, avalia, as instituições públicas são as mais adequadas e saudáveis para recuperar crianças com históricos tristes, como as que ela acolheu.

"O núcleo familiar é conflituoso, sempre foi, com raríssimas exceções. Em alguns momentos percebo que não dou conta", admite Elenice.

Neste caso, ela recorre a acompanhamento psicológico, terapia ocupacional e até aos irmãos, que a ajudam. Foi assim que, com o tempo, Elenice aprendeu a lidar com a disputa de atenção promovida pelos filhos. Alguns, inclusive, têm dificuldade em receber carinho por conta dos traumas já sofridos.

"Sou muito bagunceira. Se não for na brincadeira, não consigo acessá-los. Fazemos as refeições juntos e sou disciplinadora até demais", afirma.

Dá castigo, mas não palmada. Também quer dar amor a um eventual companheiro. Garante não ter desistido do amor romântico. "Mesmo que eu tenha 100 anos. Beijar é bom, amar também. Não sou fechada. Mas nenhum louco vai se arvorar comigo", avalia.


Só eles

O jornalista Luciano Guimarães do Carmo é solteiro e há dois anos assumiu sozinho a responsabilidade pela educação do filho Felipe, 13 anos. Para garantir segurança ao garoto, mudou-se para um condomínio e tenta criá-lo para que possa ser independente. "Até porque eu trabalho de dez a 12 horas por dia", explica.

Felipe acorda sozinho, toma café da manhã, vai para a escola que é em frente e, quando as aulas terminam, volta para casa, onde o pai já prepara a refeição ? no intervalo que tem para o almoço. Quando o garoto decide jogar bola, não almoçam juntos.

"Nunca me imaginei criando um filho sozinho. Agora consigo porque ele é mais velho. Dou responsabilidades. Mesmo com faxineira, ele tem de arrumar o próprio quarto e, às vezes, arrumar a cozinha", comenta Luciano.

Na casa dele, diálogo é fundamental. Tem também castigo. "Mas ele também tem muito contato com mãe. Ela mora em São José do Rio Preto. Conversam diariamente", comenta Luciano, que nunca contou com uma família do tipo ?tradicional?. Seus pais são separados.


Amor incondicional é mito

Ainda é fácil encontrar quem enxergue na família uma possibilidade de amor incondicional. Pena a ideia não passar de mito. "A família está longe de ser esse símbolo. Pelo contrário. É foco de vários ódios. Existem crimes horrorosos", afirma a psicanalista Junia de Vilhena.

Professora associada do programa de pós-graduação em psicologia clínica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, ela acredita que aquela família patriarcal arraigada às bases de tradições antigas sucumbiu especialmente nos grandes centros.

Com o tempo, esse padrão familiar tornou-se incompatível com a sociedade contemporânea, que é individualista. No entanto, ainda resiste em regiões do País como Interior do Pará e áreas rurais, são as famílias patriarcais, marcadas também pela submissão feminina.

Simultaneamente, multiplicam-se aquelas famílias contempladas por outras formas de parentalidade. Seja como for, a figura de pai e mãe nunca são desprovidas de importância.

"É a origem. Não se pode negar a importância da onde se veio", comenta. Na opinião de Vilhena e de outros especialistas consultados pela reportagem, a família não reproduz a sociedade porque a relação entre elas é dinâmica e dialética. "A família forja novos valores na sociedade e também absorve os valores da sociedade. Ela espelha uma cultura e, ao mesmo tempo, também transforma essa cultura", afirma Vilhena.


União e filhos

Aloísio Júnior tem 26 anos. Seu companheiro, Alexandre Pardin tem 24 anos. Juntos querem constituir uma família e, em aproximadamente dois anos, adotar uma criança.

"Todo mundo cresce a partir de uma comunidade. A família é a primeira delas. É o princípio do desenvolvimento individual. Para mim, família é fundamental", diz Júnior.


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Netas são criadas pela avó

Depois de criar seus cinco filhos, agora Dirce Rodrigues Dameceno educa três netas. Para tanto, conta com o auxílio do segundo marido João Antonio Cardoso. "Ele faz mais do que se fosse do próprio sangue dele. Meus filhos o chamam de pai", conta ela.

Mesmo com o companheiro, a missão atual parece mais difícil que a anterior. "Como existe mais liberdade hoje, está mais difícil. Criei meus cinco como minha mãe me criou. Para mim, a família vem em primeiro lugar. Meus filhos e netos (ela tem 13 no total) sempre estão em casa e todos se respeitam. É quase família à moda antiga", diz.

Mas se tem um conselho que ela dá às três filhas é para não aceitem nunca, em qualquer situação, agressão de companheiro. Para os dois homens, que nunca batam: mesmo se concluírem que a mulher não presta.

"Manda de volta para a casa da mãe. Quando me separei do primeiro marido, minha mãe ficou seis meses sem falar comigo. Depois reatamos", conclui.