O engenheiro elétrico André Luiz Andreoli terá pela frente agenda cheia neste ano. Passados 60 dias na função, o novo presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE) se prepara para apresentar aos bauruenses o valor de uma conta que não foi ele quem produziu e conduziu. Mas o fato é que o projeto executivo da futura Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), no Distrito Industrial, está pronto, contratado ainda pelo seu antecessor, Rafael Ribeiro. O problema, além da definição em torno dos detalhes no projeto, que ainda é desconhecido da população, é o valor. A ETE que já chegou a ser, há alguns anos, anunciada por R$ 60 milhões, agora tem o dobro do valor estimado.
O projeto executivo apresenta R$ 117 milhões, já próximo de 20% acima dos R$ 100 milhões informados pelo prefeito e ambientalista Rodrigo Agostinho (PMDB) há apenas dois meses. Estratégia ou não, o fato é que o chefe do Executivo vem se destacando em lançar valores cada vez maiores para o projeto de seus sonhos: entregar a estação de tratamento. E, anotem: o valor anunciado como estimado da obra vai superar também os R$ 117 milhões.
Técnico, Andreoli prefere avaliar os desafios no DAE e pontuar a carência por reaparelhamento dos setores operacionais de água, por exemplo. Mas no Palácio das Cerejeiras, Agostinho parece perseguir a preparação para convencer a cidade pelo financiamento do programa de esgoto, caso que ainda rende cobrança contra ele em Brasília (DF). Rodrigo pediu para colocar Bauru na lista dos municípios que fariam o financiamento, antes mesmo de amarrar 11 votos necessários no Legislativo. Agora, fala em construir a ETE por partes (forma modular), mas, ainda neste quesito, não assume posição a respeito. Seria apenas para despistar o projeto e o faturamento mais cobiçados dentro e fora do governo?
De sua parte, André Andreoli, que chegou agora no DAE, tenta digerir os contornos políticos do espinhoso tema, a maior fatura e obra da cidade das últimas décadas, um projeto tocado em silêncio excessivo para seu porte e consequência. Leia a entrevista de Andreoli ao JC:
Jornal da Cidade ? Tendo vindo da Unesp e iniciativa privada, qual sua avaliação do DAE?
André Luiz Andreoli ? A estrutura do DAE está envelhecida. Não digo sucateada porque é envelhecimento natural. Favoreceu-se despesas em determinadas áreas em detrimento a outras e isso acabou gerando certo sucateamento. Não é algo feito de forma proposital, mas aconteceu. Tem máquinas paradas, tem outras em vias de retornar em serviço. Mas a gente percebe que o pessoal tem vontade de trabalhar, não há dificuldade em encontrar o pessoal para atuar em chuvas, em condições inóspitas. E isso não acontece. Têm exceções, mas no âmbito geral o pessoal veste a camisa. Falta gente. Há pagamento de hora extra porque a cidade cresceu e o quadro operacional é o mesmo de 20 anos. Tem de repor mão de obra em áreas operacionais. Temos de criar alternativas de abastecimento em vários pontos da cidade. Parou o poço do Rasi, por exemplo, e não tem outro de onde tirar água. E tem de ter alternativa.
JC ? Por você ser engenheiro, qual sua visão sobre as ações de operação, manutenção, reposição, funcionamento dos sistemas?
Andreoli ? De poços, você tem vários que foram feitos com perfil original de duas décadas e existiu o rebaixamento natural do aquífero. Então vários poços vão ficar inutilizados, alguns são de três décadas. Existe esta deficiência e será preciso repensar os poços (são 29). Em manutenção, não vejo exatamente deficiência, mas necessidade de ampliar para atender com mais folga. Falta telemetria (monitoramento eletrônico dos poços). Isso é fundamental. Hoje sabemos que o poço parou quando o problema já bateu no 0800 e ai não dá mais tempo de intervir sem evitar falta de água, porque a reservação já foi utilizada. Tem de investir urgente em rastreamento de perdas pela cidade. É prioridade a aquisição de geofone para atuar com isso, mas não é só o equipamento, tem de ter sistema. O que o DAE produz de água hoje atende, mas as perdas superam e então temos problemas. O geofone é para identificar pontos de perda. Hoje você tem vazamentos que vão para a galeria e não aparecem. Com o geofone, podemos ter equipes trabalhando à noite para não sufocar o trânsito. Não ter esta ferramenta preventiva é uma falha urgente a ser reparada.
JC ? Mas também há ajustes no funcionamento entre os departamentos. Alguns não se conversam entre si e do vazamento à compra de peças há problemas na engrenagem de funcionamento?
Andreoli ? Nós temos demora no procedimento de compra, mas há necessidade de cumprir regras para compra com o dinheiro público. Tem a equipe que avalia o local, o pedido, o orçamento, o levantamento, a compra, a entrega, o pagamento. Todos andam nesta engrenagem. Tem de ser sanado de alguma forma essa demora entre tempo e resposta para o problema. O DAE tem de ter o elenco de fornecedores para o que é mais comum e estoque onde for preciso.
JC ? Você falou em capacidade de produção de água subterrânea. Há saturação ou não?
Andreoli ? Por enquanto não, a cidade não tem com o que se preocupar. Não é como Rio Preto por exemplo em que o aquífero baixou 150 metros nos últimos 30 anos. Têm poços lá que desapareceram. Lá tem de ser refurado e tem lugar que secou. Aqui o aquífero está no rebaixamento natural e não há sinal de exploração excessiva.
JC ? O DAE terá de fazer o plano de cargos e o projeto de reestruturação. Vai mexer no vespeiro em situações específicas, como o famoso 2.0 (produtividade)?
Andreoli ? Tem de fazer ainda neste ano, para ver se a Câmara aprova neste ano ainda. Vamos ver como vai ficar formulado o PCCS. Não acredito que vá ficar loteado como é hoje a produtividade, mas como um mecanismo de carreira. Nós pegamos a situação pronta e não sei como o servidor atingiu essa situação na carreira.
JC ? O prefeito disse ainda em dezembro de 2010 que a dívida da Prefeitura com o DAE não vai ter precatório de dezenas de milhões para engordar honorário. Já passou 30 dias e não há consenso. Você vai ou não enfrentar isso?
Andreoli ? Está com o Jurídico fazendo cálculo e o prefeito está com sua equipe buscando o encontro de contas. Na conversa que tive com o secretário Paulo Ferrari ele já disse que é prioridade e o prefeito colocou ele para tomar conta disso. É prioridade minha e dele e eu vou zerar isso. Acaba criando certo desconforto com o pessoal do Jurídico, que fica defendendo o lado deles. Mas eu quero que faça o encontro de contas e até no modo como você mesmo tem mostrado (JC), eliminando juros e sem gerar honorário, com acordo. (O DAE atualizou a dívida até 2010 em R$ 78 milhões, incluindo juros e correção).
JC ? Mas presidente não sai o acordo exatamente porque tem honorário na história. Isso representa pelo menos R$ 8 milhões na conta do DAE. E isso está sem solução há mais de dois anos. Você vai fazer?
Andreoli ? Vou, o prefeito quer e a força de vontade é grande, mesmo enfrentando resistência. Tem honorário de um processo anterior que tem perto de R$ 500 mil depositado em juízo e ainda não tem definição. Mas agora vai sair o encontro de contas para evitar isso.
JC ? O DAE decidiu fazer o outro lote de interceptores da Nuno com receio do custo do serviço?
Andreoli ? O trecho que não é o contratado com a empresa Passareli será feito pelo DAE, com pessoal próprio. Vamos contratar só a passagem sob os trilhos. A turma disse que o DAE tem experiência com isso e vai executar, não vai licitar mais.
JC ? O que aconteceu com a ETE do Gasparini e o que mudou no projeto contratado?
Andreoli ? A empresa Sanevix fez uma manobra para tirar o esgoto do córrego, mas não completou. A alteração que eles mostraram é no formato do reator, o que foi tranquilo. Em técnica construtiva isso melhora o desempenho do reator. E a empresa não fez mais modificação em relação ao que foi contratado.
JC ? O que vai mudar no projeto executivo da Estação de Tratamento principal e qual o valor hoje?
Andreoli ? Montamos uma comissão, que já encerrou os trabalhos de recebimento do projeto. Tem sugestões para adequações que agora serão submetidas à contratada. Na parte elétrica, por exemplo, eles sugeriram algumas tensões de alimentação dos motores e nós achamos que são melhores outras, para redução de custo. A alimentação da subestação, nós pedimos mudança na distribuição, para a demanda em energia cair em quilowatt. É para verificar esses dados. O custo final apresentado do jeito que está é R$ 117 milhões.
JC ? O prefeito havia me dito que era em torno de R$ 100 milhões e eu disse que tinha pelo menos mais 10%?
Andreoli ? Na planilha está R$ 117 milhões, mas têm ações que não estão orçadas então a tendência é aumentar um pouco. A planilha não tem uma pesquisa de preço minuciosa, é uma identificação de valores de engenharia. É um ponto de referência.
JC ? A ETE principal pode ser construída por módulo. Por que não licita então?
Andreoli ? Porque depende de como vai pegar o dinheiro. Se conseguir o dinheiro total, como o prefeito está tentando, não precisa ser modular. A fundo perdido eu acho que não tem dinheiro. O financiamento acho que até já liberou. Tem de tentar aprovar na Câmara Municipal.
JC ? Este é o ponto. É endividamento, precisa de 11 votos e vendeu-se em 2005 que o fundo de esgoto financiaria sozinho o custo do tratamento em alguns anos? A população está pagando ao fundo todo mês.
Andreoli ? Sim, tem de convencer a opinião pública e os vereadores. Tem a opção de construir com prazo mais longo, onde não precisa de empréstimo. Mas tem de conversar com o promotor sobre o prazo, tem o TAC (termo de ajustamento de conduta).
JC ? Qual a sua posição?
Andreoli ? Olha, se não existisse oposição em relação à PPP (parceria público privada), esta seria uma saída viável. Mas tem de discutir. Em relação ao financiamento, ele ainda é barato diante do ônus gerado para o meio ambiente. A opção modular, embora seja relativa, se você entregar o primeiro módulo também é uma saída. Mas tem de entregar a infraestrutura total junto com o primeiro módulo.
JC ? Sua gestão vai continuar usando equipamento do fundo do esgoto para serviços de água?
Andreoli ? A solução melhor é recomprar estas máquinas, ou seja, o DAE repõe ao fundo pelos equipamentos e ai pode utilizar nas emergências sem problemas. É despatrimonializar. É patrimônio do DAE e hoje não posso usar o caminhão do fundo de esgoto para serviço de água e nem a retro. A forma de resolver é o DAE pagar o fundo por esses investimentos. Se o fundo precisar para serviços do tratamento, não tem problema, o DAE realiza o serviço e lança o valor da hora máquina para o fundo. Do jeito que está engessa o DAE. Tem máquina novinha e precisa do equipamento e não pode usar porque é do fundo. Já fiz isso duas vezes e não quero fazer de novo. Vou apresentar isso para o Conselho de Fiscalização do Fundo de Tratamento, vou fazer a depreciação do bem e restituir o fundo.
JC ? Por que o DAE não cobra seus grandes devedores e não resolve as contas de quem produz água, como de quem tem poço próprio?
Andreoli ? A discussão é que o DAE cobra tarifa de esgoto e os contribuintes reclamam que o que retorna ao meio ambiente, pela rede, não é tudo o que foi registrado e saiu do hidrômetro. Está no Jurídico. Eu tenho um fabricante de gelo que tem poço e acha que não tem de pagar 100% da água como tarifa de esgoto. A solução é instalar hidrômetro e cobrar efetivamente o que se consome. Quem tem poço é obrigado a ter hidrômetro e a fornecer análise da água do poço. A discussão é da água que não retorna para a rede. Este é o ponto a ser resolvido.