09 de julho de 2026
Geral

Em janeiro, Bauru teve 46 raios por dia

Por Tisa Moraes | Com Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Além de chuva acumulada recorde, as tempestades registradas em Bauru em janeiro deste ano também foram responsáveis por uma marca tão surpreendente quanto assustadora. O número de raios que atingiram a cidade mais do que dobrou em relação ao mesmo mês do ano passado.

Em média, foram 46 descargas elétricas diárias, num total de 1.438 registros em 31 dias. O número é 165% maior do que os 542 raios que incidiram sobre Bauru em janeiro de 2010, segundo dados do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Elat/Inpe).

O coordenador do órgão, Osmar Pinto Júnior, explica que a incidência de raios tem uma relação direta ? mas não perfeita ? com o volume de chuvas. E, de fato, Bauru registrou precipitação acumulada recorde no primeiro mês deste ano.

No período, a quantidade de chuva acumulada, de 493,8 milímetros, bateu o recorde dos últimos 30 anos na cidade, de acordo com dados do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Coincidentemente ou não, o volume também foi maior do que o dobro do ano passado.

"Mas é importante salientar que pode chover 40 milímetros em um dia sem que nenhum raio tenha caído sobre a cidade. Isso ocorre porque essa chuva foi prolongada e fraca. Agora, quando a chuva é intensa e rápida, é quando os raios ocorrem", explica.

Segundo Pinto Júnior, as tempestades aparecem com a formação de nuvens chamadas cumulus nimbus, que se posicionam entre 8 e 16 quilômetros de altura e se tornam carregadas de energia pelo atrito entre partículas de gelo suspensas dentro delas. As demais nuvens, mais frequentes, só possuem capacidade para formar chuvas de média e fraca intensidades.

O coordenador destaca que o Inpe havia previsto, no final do ano passado, o aumento de tempestades para este verão na região Sudeste do País. A tendência de mais chuvas fortes seria uma consequência do aquecimento do Oceano Atlântico, por um lado, e da queda da temperatura do Oceano Pacífico, por outro.

"Essa diferença de temperatura favorece que a circulação do ar seja mais alta, o que facilita a formação de tempestades. Mas não é uma regra, já que houve municípios da região em que as chuvas foram menos intensas do que em anos passados", frisa.


Tendência


Em Bauru, a tendência se confirmou mas, na avaliação do coordenador, o aumento considerável tanto de raios quanto de chuvas ainda não pode ser interpretado como uma mudança definitiva no comportamento climático da cidade. "Estamos falando de um limite de tempo muito limitado. Se em fevereiro e março os índices se mantiverem, teremos mais confiança para analisar se algum fenômeno está provocando esta variação na região", pontua.

Para José Carlos Figueiredo, meteorologista do IPMet e presidente da Sociedade Brasileira de Meteorologia (SBMet), a tendência é de que este ano seja seco, como tem sido nos últimos 11 anos, considerando a média de três décadas de aferição do instituto. "Exceto o ano de 2009, estamos há todo este tempo sem conseguir atingir a média de 1.570 milímetros de chuva ao longo de um ano. E acredito que esta condição não deve ser alterada tão cedo", considera.

Para defender sua tese, Figueiredo lembra que, em 2003, choveu 446 milímetros em janeiro, quase a mesma quantidade do mesmo mês de 2011. E, naquele ano, a média anual de 1.570 milímetros de chuva não foi atingida ao final de dezembro.

"Historicamente, janeiro é o mês que mais chove no ano. Mas não é porque choveu muito além da média em janeiro de 2011 que podemos determinar o comportamento das precipitações no restante do ano. Acredito que já em fevereiro, por exemplo, o volume de chuvas seja menor do que o de fevereiro do ano passado", aponta.

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Há seis meses, raio matou mototaxista


Em agosto do ano passado, um raio tirou a vida do mototaxista Luiz Carlos Almeida dos Santos, 21 anos, que trafegava pela rua José Pícolo, no Parque Roosevelt, com sua Honda CG 125 cilindradas. Ele saiu de casa para fazer uma corrida em meio à tempestade, quando foi atingido pela descarga elétrica.

Moradores das imediações o encontraram caído ao lado da moto e ele chegou a ser encaminhado ao Pronto-Socorro Central, mas chegou à unidade de saúde já sem vida. Horas depois, o Instituto Médico Legal (IML) atestou que Santos morreu de parada cardiorrespiratória fulminante causada pelo raio.

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Tomar precaução não é exagero


Em dias de temporal é prudente afastar-se de postes de iluminação, árvores, cercas de arame farpado e, se estiver na água (praia ou piscina), sair imediatamente ao menor indício de raios ou trovões. A água do mar é altamente condutora de eletricidade e raios que ocorrem no oceano até cinco quilômetros de distância podem provocar choques elétricos nas pessoas. Até mesmo ficar perto do mar é perigoso. Deve-se evitar locais onde você seja o objeto mais alto em relação ao chão.

Evite falar ao telefone, principalmente os fixos com fio, pois o fio transporta a corrente elétrica de um raio. É sempre recomendável utilizar, dentro de casa, o telefone sem fio.

Os aparelhos eletrônicos devem ser desligados da tomada. Com isso, evita-se que queimem e até mesmo provoquem incêndio, em caso de ocorrência de raios muito próximos e muito intensos.

O maior perigo é ficar em local descampado, como os campos de futebol, pastagens, estradas, montanhas e margens de lagos. Procurar abrigo debaixo de árvores é um erro muito comum e pode ser fatal. Se não for possível entrar em uma residência, é melhor ficar agachado no chão, com as mãos na nuca e os pés juntos. Se possível, entrar um automóvel, ônibus ou van, mantendo, se possível, as janelas fechadas.

Caso não seja possível, elas podem ficar parcialmente abertas.

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Todos os raios são letais


Ao contrário do que se imagina, todos os raios provocam a morte se atingirem diretamente suas vítimas. Os sobreviventes deste tipo de fenômeno meteorológico certamente foram atingidos apenas pela corrente elétrica que correu pelo chão, a uma distância de 50 metros ou mais da descarga, conforme explica Osmar Pinto Júnior, coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Elat/Inpe).

"É o que acontece, como já mostrado na televisão, com jogadores de futebol treinando na chuva. O raio cai nas proximidades e todo mundo vai ao chão ao mesmo tempo, mas logo depois recobra a consciência, porque a corrente chegou até eles com menor intensidade", exemplifica.

Porém, conforme lembra Pinto Júnior, até as descargas elétricas mais fracas podem matar. Elas possuem intensidade de corrente de 2 mil ampères, 100 vezes mais forte do que a corrente de um chuveiro elétrico. Já os raios típicos variam de 20 a 30 mil ampères e os fortes estão acima de 200 mil ampères.

Ainda de acordo com o coordenador, a maioria das vítimas ? letais ou não ? são atingidas na zona rural, onde existem descampados e as pessoas estão mais expostas. "Na área urbana, as pessoas estão dentro de carros ou dentro de casa, locais muito mais seguros do que o céu aberto", aponta. Na última década, quatro pessoas morreram em Bauru. Por ano, no Brasil, são registrados cerca de 130 óbitos em decorrência de descargas elétricas.