Todo o ano, nos meses de março e fevereiro, é assim. Nos cruzamentos mais movimentados de Bauru, uma legião de calouros com caras pintadas e cabelos raspados aborda os motoristas e, com muito bom humor (ou espírito esportivo), implora por míseros trocados para conseguir fazer a alegria dos veteranos e, principalmente, do dono do bar para onde toda a turma vai após o trote.
Essa é apenas uma fase que marca o ritual de chegada dos calouros que, também para a alegria das imobiliárias, lojas de móveis novos ou usados, empresários do entretenimento, entre outros setores de prestação de serviço, injetam mais do que a habitual animação estudantil na cidade, com população universitária estimada em, aproximadamente, 20 mil pessoas, de acordo com levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Bauru, divulgado pela assessoria de imprensa da prefeitura.
No entanto, independentemente de fatores econômicos, a chegada de novos moradores, mesmo que não seja para ficar, dá uma nova cara à cidade, que, nem sempre, está de braços abertos a toda e qualquer manifestação da "empolgação" juvenil.
"Ao mesmo tempo em que muda a rotina da cidade, que fica com maior movimento, também existe um certo desconforto. O trânsito é maior, assim como as filas, principalmente no supermercado", observa o jornalista recém-formado Aelton Aquino, de 22 anos.
Conhecedor dos dois lados da moeda, ele não reprova a aglomeração de estudantes, já que, ele próprio, há quatro anos, chegou de São José dos Campos com mala e cuia para estudar e se estabelecer em Bauru, cidade onde ainda busca um lugar ao sol na profissão que escolheu.
"Hoje vejo por outro lado, mas antes eu não me importava com barulho junto à vizinhança. Quando começamos a tomar outro rumo na vida, a gente começa a ter outras preocupações", conscientiza-se o rapaz, que é casado e trabalha como agente de recuperação de crédito.
Alheia independentemente à acolhida ou bronca em eventuais excessos, a moçada vem de todos os lados e, de forma geral, aprova a nova morada, mesmo que sazonal. Com 18 anos e há duas semanas longe do conforto e acolhimento da casa dos pais em Lins, a estudante de direito Estela Virgínia Ferreira Bertoni aproveita o fato da cidade de origem estar apenas a cerca de uma hora de Bauru.
Por isso, aos finais de semana, Estela corre para reencontrar o aconchego da "família", sem contar o inigualável sabor da comida feita no fogão da mãe.
Essa proximidade e o fato do pai, advogado, trabalhar em Bauru, para onde viaja três vezes por semana, serviram de incentivo extra para que ela desembarcasse na "Sem Limites". "Vim principalmente porque a faculdade aqui é referência. É a melhor do Interior", orgulha-se a jovem aluna do Centro Universitário Bauru, mantido pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), focada em seguir os caminhos da magistratura.
No entanto, apesar de todos esses atenuantes, a solidão bate, ainda mais numa mudança tão brusca assim na vida. Para não estar só, ela optou por morar num pensionato destinado exclusivamente para moças, na região do Jardim Brasil. "Preferi (o pensionato) porque não gosto de ficar sozinha. Aqui a gente sempre tem auxílio no que precisa", diferencia. "Minha colega de quarto, Giovana, e o meu amigo Vinícius, que está no terceiro ano, me ajudam demais", valoriza Estela.
E é essa irmandade criada tanto entre os "bichos" quanto envolvendo veteranos é que também supre, em parte, a lacuna deixada pelos amigos e parentes, agora mais restritos aos feriados ou períodos de férias.
O sentimento de união também extrapola o meio estudantil e ganha até ares de "família substituta". "Aqui no pensionato também temos nossa ?mãezona?, que faz tudo por nós", diz Estela, referindo se à dona Juraci.
Funcionária da proprietária do pensionato, é ela quem segura as broncas das meninas, que encontram na doméstica, um porto seguro na ausência do amparo caseiro.
"Procuramos conversar bastante e me mostro sempre à disposição. Muitas delas vem de longe e, mesmo sendo de cidade grande, se assustam um pouco", observa a experiente zeladora, de 59 anos, mãe de cinco e avó de seis.
Sobre a cidade, ao mesmo tempo em que ela encanta os mais jovens, ainda mais aqueles que vieram de localidades menores, que se dizem maravilhados com opções de lazer (embora questionadas por alguns "nativos" da mesma faixa etária), Estela diz não se importar com as longas distâncias e curtos horários e contraria a máxima radical de que estudante só quer festa. "Acordo às 5 da manhã para pegar o ônibus na Duque de Caxias. Estudo o dia inteiro e, logo no começo das aulas, já estou cheia de livros. Mas isso é obrigação, porque quero seguir firme e me tornar juíza", vislumbra.