As mãos de Ronaldo mexiam em papéis com anotações, em canetas, em um laptop ou nos filhos. Seu rosto tinha os olhos baixos e cada fala sua era pontuada por pausas e profundos suspiros. Ele sofreu durante a maior parte da entrevista em que anunciou o final de sua carreira, aos 34 anos. Era o epílogo do maior artilheiro em Copas, eleito três vezes melhor do planeta, bicampeão pelo Brasil no Mundial e autor de mais de 450 gols.
"Na quinta-feira, quando eu finalmente decidi [parar], parece que estava na UTI. Foi minha primeira morte", contou o atacante. Sua decisão foi tomada após mais uma lesão, sofrida naquela mesma semana. Foi uma resolução solitária, a família estava em viagem, o médico e o fisioterapeuta que o acompanham também. Conversas com as pessoas mais próximas ocorreram por telefone para explicar sua posição. Porém, de resto, Ronaldo se isolou por três dias em sua casa. Ressurgiu para se despedir dos jogadores corintianos na manhã de ontem, antes de encarar cerca de 200 jornalistas para falar sobre o fim.
Foi ali que explicou como as seguidas contusões e as dores físicas o fizeram parar. "Perdi para o meu corpo", reconheceu. O sofrimento de Ronaldo começou em 1998, na crise nervosa que teve às vésperas da final da Copa, e se agravou quando ele rompeu duas vezes os ligamentos do joelho direito, em 1999 e 2000. E as dores já o incomodavam demais. "Não consigo nem subir a escada de casa", falou Ronaldo.