08 de julho de 2026
Geral

?Boom? do celular muda perfil do taxista

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 9 min

"Alô! O senhor pode vir me buscar aqui em casa?". A mobilidade adquirida com o advento do aparelho celular tornou mais do que comum tal chamado aos taxistas. A popularização do equipamento chegou a um patamar tão elevado que modificou até mesmo o perfil dos profissionais do ramo. Com isso, o ponto, antes a principal possibilidade de angariar clientes, está cada vez mais sendo marginalizado em prol das chamadas telefônicas.

Segundo dados da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) de Bauru, há 199 taxistas cadastrados na cidade. Esses profissionais estão divididos em 42 pontos, que devem ter espaço para, no mínimo, dois veículos. Entretanto, essas "bases" deixaram já há algum tempo de ser o grande filão dos taxistas.

É o caso de Vanderlei Dionísio, 58 anos. Ele garante que a maior parte de seus clientes o aciona pelo telefone celular e, por conta disso, mantém dois aparelhos ligados o dia todo. "Tenho um ponto, porém, evito pegar pessoas na rua. Os meus clientes são pessoas que já conheço e que me ligam".

O taxista exerce a profissão há 16 anos e afirma que realmente houve uma mudança no perfil do profissional. Alteração que ele considera positiva. "Antes, fazíamos uma corrida e precisávamos voltar ao ponto para pegar outro cliente. Hoje, saímos para uma e, com ligações, acabamos fazendo quatro ou cinco viagens", exclama o profissional, que diz receber uma média de mais de 15 ligações diárias.

Dados divulgados em dezembro do ano passado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) confirmam que o "boom" dos aparelhos celulares é uma realidade. Na ocasião, a área de código 14 ? que abrange 100 municípios ? chegou à proporção de um aparelho para cada habitante.

Dionísio aponta que a questão da segurança também mudou. Ele explica que, antigamente, todos os clientes atendidos eram nas ruas, sendo que, hoje, as chamadas telefônicas possibilitam avaliar melhor os riscos de cada corrida.

"Geralmente, levamos pessoas de confiança. Isso foi algo que o celular mudou também: essa relação com o cliente. Agora, a pessoa pode ter o próprio taxista. A relação ficou mais fiel e, quando não conhecemos, podemos perguntar para outra pessoa se conhece esse cliente ou avaliar o local onde vamos pegá-lo", complementa.

Exatamente por ter um irmão também taxista que já foi assaltado, Dionísio opta pelos clientes via celular. Por causa disso retirou a luminária com a indicação de "táxi" de seu automóvel para evitar muitas corridas com desconhecidos.


Fim do ponto?


Porém, mesmo com essa nova tendência na profissão, a recomendação da Emdurb é que os taxistas não abandonem os respectivos pontos. O gerente de Transportes Especiais Luiz Felipe Castro explica que tal conselho é justamente para a comodidade da população.

"De acordo com a legislação, o taxista precisa ter um ponto fixo e estar registrado. A nossa recomendação é para que ele fique nessa base para facilitar o acesso da população aos serviços".

O presidente do Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bauru e Região, Vitor Moreira Tallão, afirma que, por lei, é obrigatória a presença dos profissionais nos pontos. "Eles precisam comparecer ao ponto diariamente. O certo é que façam uma corrida e voltem. O que acontece é que estão abandonando o ponto justamente pela precariedade da estrutura desses locais, que foram feitos no fim da década de 60. Nunca houve qualquer modernização. Apesar de ser proibido deixarem o ponto, isso ocorre por que a fiscalização é ineficiente", reclama.

O gerente de Transportes Especiais explica que a fiscalização é um trabalho difícil. "Sempre que alguém reclama, mandamos um fiscal naquele ponto para fiscalizar. Quando não encontramos ninguém, eles dizem que estavam em corrida e fica difícil fazer alguma coisa", argumenta.

Luiz Castro, contudo, afirma que a Emdurb não recebe muitas reclamações de que taxistas que não ficam em seus pontos em Bauru.

Questionado sobre o fato de alguns motoristas estarem retirando as luminárias indicativas de táxi de seus veículos, o gerente expõe que não é algo proibido, porém, alerta ser necessário algum tipo de identificação. "Além da placa vermelha, é preciso outro tipo de identificação de que aquele veículo explora tal atividade, como um adesivo", conclui.

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24 Horas


A lei não indica ser necessário que o taxista permaneça no ponto em tempo integral da atividade. O gerente de Transportes Especiais da Emdurb, Luiz Felipe Castro, conta que há aqueles que atendem 24 horas por celular em toda a cidade, porém, confirma que o Terminal Rodoviário é um dos únicos pontos em que os taxistas ficam presentes por esse período.

"Lá (no Terminal Rodoviário), existe movimento o tempo todo e, assim, os profissionais estão mais seguros. Não adianta determinar que eles fiquem o dia todo no ponto com esse problema na segurança", explica.

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Para clientes, mudança é tida como positiva e facilitadora do dia a dia


Por considerar o carro e sua manutenção cara ou simplesmente pela falta de interesse em tirar habilitação para guiar um veículo, muitas pessoas optam pelo táxi como meio de transporte. Mesmo com o preço "salgado" (leia mais nessa página) no fim do mês, todas dizem ter encontrado a melhor alternativa de locomoção. E com esse novo sistema "delivery" dos taxistas a opção ganha ainda mais força.

É o caso da jornalista Claudia Pinto, 52 anos, que afirma pegar o táxi em uma média semanal de sete vezes. "Eu uso tanto os serviços que somente pago no fim do mês. Tenho uma espécie de conta com ele".

Ela ressalta que, apesar de sempre ter utilizado táxi, o "boom" do celular realmente mudou o perfil do serviço. "Antes, eu tinha que ligar para o telefone fixo, que ficava no ponto. Teve vezes que liguei quatro ou cinco vezes e não encontrei o taxista. Agora, com o celular, acabou isso", explica a jornalista.

Angelina Fogaça, 83 anos, também é outra que nunca dirigiu um veículo. Entrevistada no começo de uma tarde, ela confessou que, naquele dia, já tinha andado de táxi duas vezes. "Gasto um bom dinheiro, mas acho que compensa. É só ligar que ele me pega. Onde está, ele me atende".

Porém, do mesmo modo que dona Angelina, o público de idade mais avançada é a maior fatia no perfil da clientela dos taxistas. Maria Aparecida Lopes de Almeira, 78 anos, conta que usa os serviços para várias atividades, como ir ao médico, mercado e até mesmo em visitas a amigos.

"Hoje é muito difícil andar na rua. Como já tenho mais idade, tenho medo de acontecer alguma coisa. Escolho o táxi justamente por que posso cair em um ônibus ou mesmo ser assaltada. Com o taxista não. Já conheço ele e é só ligar", explica a senhora, que afirma ter "herdado" o desinteresse pela habilitação de motorista do pai, que também não possuía a permissão.

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Marketing ?boca a boca?


Antes da popularização do celular ou mesmo dos próprios telefones fixos nos pontos, o taxista ficava à espera do cliente. Era mais uma questão de necessidade e localidade do que necessariamente de ter uma clientela fixa.

Hoje, isso mudou. O taxista Rodrigo Marcelo Leme Alves, 30 anos, confirma o fato. Com dois celulares à disposição, ele aponta que a totalidade dos seus clientes o aciona por meio dos telefones móveis e que, desse modo, tornou-se possível fidelizar a clientela.

"Além de ser uma questão de segurança, existem aquelas pessoas que sempre nos procuram. Isso é possível somente por meio do aparelho celular", explica.

E justamente por isso, o marketing pessoal se tornou necessário. Publicidade feita por meio de cartões e, principalmente, pelo famoso "boca a boca". "Entregamos o cartão e contamos com o cliente. Se ele fica satisfeito, ele passa nosso contato. O boca a boca é nossa melhor propaganda", afirma Rodrigo Alves.

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Quantidade está acima da média


Se, mesmo disposto a pagar o preço da corrida, você procurou em um ou mais pontos e não encontrou táxi à disposição, provavelmente esse é um dos reflexos negativos desse novo perfil tracejado pela "explosão" dos aparelhos celulares. Por falta de táxis em Bauru é que esse problema não ocorre.

Pelo menos é o que afirma o gerente de Transportes Especiais da Emdurb, Luiz Felipe Castro. Segundo ele, a quantidade desse tipo de transporte está acima da média na cidade. "Foi baixada uma lei que obriga haver um táxi a cada 2.500 pessoas. Quando essa lei foi aprovada, Bauru já tinha 199 veículos cadastrados. Nós não podíamos retirá-los, então, mantivemos esse número", explica.

Se for levado em conta o número oficial de 344 mil habitantes em Bauru do último e polêmico recenseamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade poderia ter apenas 138 táxis, ou seja, está atualmente com 61 veículos a mais.

Desse modo, aqueles que querem explorar a atividade precisam esperar. "Não há uma lista de espera. Porém, vez ou outra vem alguém (na Emdurb) querendo saber o que é preciso para virar taxista e entrar nessa atividade. Temos que dizer a eles que, no momento, não é possível".

Segundo Luiz Castro, aqueles que possuem um ponto de táxi e não querem mais exercer a profissão devem ir até a Emdurb e dar "baixa" na vaga. "Antes, as pessoas podiam transferir a concessão para outro interessado. Hoje, essa prática está proibida. Está sendo discutido um projeto de lei que determinará a questão. Porém, por enquanto, a pessoa não pode ?vender? seu ponto", completa.

A relativa procura pela exploração da atividade pode ser explicada pelo custo do serviço em Bauru. Segundo o site www.tarifadetaxi.com , o município está entre as cidades com tarifas mais caras do Brasil. Com bandeirada fixa em R$ 4,00, o quilômetro rodado sai por R$ 2,35 (bandeira 1) e R$ 3,52 (bandeira 2).

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Para ?resistente?, uso do celular deixou a profissão mais injusta


Apesar de todas as vantagens apontadas, existem aqueles que resistem ao uso do celular na profissão. É o caso do taxista Osvaldo Carvalho, 63 anos.

Ele somente pegou um aparelho há um ano e meio e afirma que passa seu número raras vezes aos clientes. Segundo o taxista, a justificativa para tal resistência é a de que o aparelho facilita injustiças no setor.

"Todo mundo fala que fidelizou o cliente. Pode até ser, mas isso deixou mais injusto também", diz Carvalho. "No meu ponto, por exemplo, são cinco táxis. Tem a ordem que levamos o cliente que chega pessoalmente ou liga no telefone fixo do ponto. Com o celular, o taxista pode levar um cliente e dar seu cartão a ele. Ele passa a ser seu freguês individual. Acaba tirando a coletividade", emenda ressaltando não sentir prejuízos em seu lucro final pela pouca utilização do aparelho celular.