09 de julho de 2026
Geral

?Morreria cumprindo minha obrigação?

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Com uma saúde capaz de invejar os mais otimistas, o ex-combatente das Forças Expedicionárias Brasileiras (FEB) Antônio Honório de Lima, de 89 anos, consegue surpreender seu médico por não precisar de remédios e pela disposição física em correr na esteira ergométrica em dias de exame de rotina.

Mora em Bauru há três anos, mas foi de Agudos, cidade natal, que em 1944 partiu junto com outros militares da região rumo à Itália. O objetivo era claro: lutar contra as tropas de Mussolini na Segunda Guerra Mundial.

Com andar rápido e com o título de 2º tenente reformado, ele recebeu a equipe de reportagem do JC, prestou continência e saudou com um alegre sorriso. Depois, fez questão de exibir a medalha de honra que ganhou após o término da guerra e que prega junto com outras num paletó verde-oliva, a mesma cor de farda que usou durante a batalha.

De todas as lembrança que o tempo não apagou de sua memória, a que mais lhe marcou foi quando um soldado italiano apareceu no acampamento brasileiro na calada da noite. Assustado, Antônio pensou que fosse uma invasão inimiga, mas logo percebeu que o italiano tinha fugido da base onde estava e procurava se esconder dos companheiros para não ser morto.

Uma navalha de barbear de fabricação alemã foi o presente dado pelo fugitivo em agredecimento ao abrigo naquela noite fria. Até hoje, o ex-combatente utiliza o presente para retocar o fino bigode grisalho que tem desenhado no rosto.

As lembranças também passam pelo dia em que foi convidado para batizar uma criança italiana, filha de um casal que trocava a comida dada pelo Exército brasileiro por um prato de macarronada. Mas as tristes marcas da guerra acompanham o ex-combatente. De acordo com Wilson Lima, filho de Antônio, após a guerra seu pai se assusta facilmente com barulhos e não gosta de muitas luzes acesas pelas casa. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.


Jornal da Cidade - Como foi representar o Brasil na Segunda Guerra Mundial?

Antônio Honório de Lima - O negócio foi duro. Para começar, nós não entendíamos a língua deles, mas tínhamos que tentar falar mesmo assim. E, enquanto isso, a barba só crescia... Era muito duro, pois ficamos mais de um ano longe da família e dos amigos. Até hoje dou graças a Deus por ter saído vivo da batalha, pois muitos amigos que estavam comigo nunca mais viram a família. Nós descemos na Itália e fomos para um lugar muito bonito, parecia uma chácara com cercas brancas. Lá nós montamos nossas barracas e recebíamos as instruções de armamento e estratégia de guerra.

JC - Quais os tipos de instrução?

Honório - Principalmente de armamento. Nós estávamos acostumados a um tipo de fuzil, mas ao chegar lá recebemos um armamento diferente e que ninguém sabia ao certo como eram os mecanismos.

JC - Como eram feitas as refeições?

Honório - Às vezes, comíamos no meio da trincheira. Os soldados que estavam na retaguarda traziam a comida. Outras vezes nos davam uma caixa contendo algumas lata de carne, queijo, cigarros, dez palitos de fósforos, pó de café e quatro balas para adoçar a boca seca.

JC - E se ainda ficasse com fome?

Honório - Não tinha jeito. A comida era só aquela. Conforme nossa tropa ia avançando pelo Monte Castelo, os italianos matavam os animais e envenenavam a carne e a água de alguns rios e minas para que não pudéssemos comer e beber nada. Eu fiquei amigo de uma família italiana que trocava a comida que tínhamos nas caixinhas por comida de verdade, como macarronada. E pela amizade que acabamos construindo, me pediram que batizasse uma criança da casa. Eu aceitei.

JC - A macarronada era boa?

Honório - Era boa, muito boa. Quando estava pronta a comida uma senhora da cozinha gritava: "Viene qua a mangiare una macheronata" (Venha aqui comer a macarronada). Eu levava a minha comida e pedia ?pra? trocar. Era um tempero diferente, a gente enjoava de comer sempre a mesma coisa que o Exército nos dava.

JC - Teve contato com essas pessoas depois da guerra?

Honório - Cheguei a mandar uma carta para a Itália para saber da criança, mas nunca me responderam. Só me lembro do seu nome, era Quinto Valter.

JC - E os soldados mortos?

Honório - Tenho até uma revista que nos foi dada que se chama "Jamais Esqueceremos". Lá tem muitas fotos que me fazem lembrar da guerra. Os mortos eram espalhados pelos dois lados das ruas e estradas das cidades. À noite, os italianos espalhavam dos aviões fotos de pessoas mortas como forma de tentar nos deixar com medo da morte e, assim, nos entregarmos.

JC - O que significa o Brasil para o senhor?

Honório - Por todo o lugar que andei, para mim, o Brasil está em primeiro lugar. Nós fomos muito respeitados lá fora e em nenhum momento pensei em fugir do campo de guerra ou mesmo fugir da convocação aqui no Brasil. Tinha um amigo que chegou a me convidar para fugir. Disse que, se fosse para eu morrer, morreria lá na Itália cumprindo minha obrigação. Graças a Deus, fui e voltei!