08 de julho de 2026
Geral

Depressão pós-férias é convite a mudanças

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Retornar das férias após um mês de tranquilidade em casa, sem ter de se preocupar com horários ou em cumprir metas, pode ser bastante frustrante. A contagem regressiva para a volta ao trabalho pode desencadear uma série de reações físicas e emocionais capaz de deixar uma pessoa em estado depressivo.

Trata-se de uma síndrome chamada de depressão pós-férias. É um mal que afeta 23% dos brasileiros, segundo estudo realizado pela International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), instituição voltada à prevenção e tratamento do estresse.

Caracterizada pela sensação de cansaço, desânimo, insatisfação, angústia, e em alguns casos até dores pelo corpo, a depressão pós-férias é um indicativo de que algo vai realmente muito mal na vida profissional e que está na hora de rever alguns conceitos e começar a pensar em mudanças.

É um sintoma claro de insatisfação com a empresa onde trabalha, com o serviço que executa ou com as duas coisas juntas. "Sem dúvida, a pessoa que passa por isso tem algum problema", afirma Ana Maria Rossi, presidente da Isma-BR.

Segundo ela, a angústia provocada pela depressão pós-férias é mais intensa do que aquela que as pessoas sentem, por exemplo, quando está chegando a segunda-feira. "É um sentimento mais profundo, que faz com que ela não se sinta motivada para o trabalho, sem vontade, agressiva e passiva", lista.

Para Ana Maria, uma das maneiras da pessoa saber se faz parte dos 23% dos brasileiros que sofrem dessa síndrome é prestar atenção no tempo em que demora para se adaptar novamente à rotina. Segundo ela, se esse processo leva até duas semanas, a situação não é tão grave. Mas se demora mais do que isso para encontrar energia e motivação, o profissional pode se considerar dentro do grupo daqueles que têm a síndrome.

De acordo com o psicólogo Thiago Machado, a depressão acomete pessoas que estão insatisfeitas com alguma situação de suas vidas. Neste caso, o emprego. Segundo ele, uma pessoa que faz o que gosta e se sente realizado em sua profissão, dificilmente se enquadraria nessa situação.

"O trabalho é visto como prazer e não obrigatoriedade. Quando fazemos algo que nos é imposto e nos desagrada, a nossa psiquê reage de forma a nos proteger deste desprazer. Ela nos sinaliza por meio do estresse e até somatizando algumas doenças como, nesse caso, podemos citar a cefaleia", explica. Segundo ele, é preciso ficar atento aos sinais.

Ele lembra que, hoje em dia, é muito comum encontrar adultos nas universidades. Para o psicólogo, isso é um reflexo da insatisfação destes com o seu trabalho. "Eles foram à luta, buscaram a felicidade na vida profissional. Muitos trabalharam a vida toda sem satisfação e, quando percebem isso, correm atrás desta satisfação. É preciso repensar a carreira, buscar a felicidade", aponta Thiago.

Atarefadas, as pessoas têm dificuldades de entrar em contato consigo mesma, segundo o psicólogo. "Vivemos muito mais na ação e quase sem tempo para o autoconhecimento." Segundo ele, numa situação desta, de desconforto na volta do trabalho, é importante parar para pensar o motivo que leva a isso.

Quando chega ao estágio da depressão, Thiago diz que é sinal de que muita coisa já passou despercebida. "Podemos pensar que o copo está cheio e a última gota, que é a volta do trabalho, o fez transbordar e desencadear esta depressão", compara.

De acordo com ele, a reflexão deve ser feita sempre, não somente no fim do ano. "Notamos nas pessoas sempre um ?jeitinho? para conviver com o que é ruim, desconfortável, e isso faz com que a simples dor de cabeça após o expediente se torne algo muito mais sério no futuro", avisa.

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Rotina cansativa é maior causa de desgaste


A vendedora Marina Maria Batista não chega a ficar aborrecida com a volta ao trabalho por muito tempo, mas ela confessa sentir-se desconfortável quando sabe que terá de retornar ao batente após o período de férias.

"Eu me sinto muito triste. Ter de acordar cedo e começar tudo de novo acaba comigo", comenta ela, que aproveita os dias de folga para dormir até tarde. Segundo ela, a rotina de vendedor é cansativa e desgastante por vários motivos. Entre os principais, ela cita ter de trabalhar em pé o tempo todo, trabalhar de final de semana e ter de atender clientes chatos. "Acho que deveríamos ter férias a cada seis meses. Uma vez por ano é pouco", sugere.

O desejo é compartilhado pelo operador de máquinas Fernando Henrique Braz. Ele também aponta como pouco férias uma vez por ano. Na semana passada, em plena quarta-feira, 4h da tarde, Fernando aproveitava os últimos momentos das férias bebendo uma cerveja gelada em um bar no Centro da cidade.

Bem à vontade e de óculos escuros, disse à reportagem que já estava entrando na fase do "desespero" ao avistar o fim do sossego tão próximo. "Eu estou na contagem regressiva para voltar ao trabalho e isso me chateia", comenta.

Após cinco anos, Fernando diz estar cansado do que faz. "O ambiente é gostoso, mas o serviço é sempre o mesmo. Isso é cansativo. Quando coloco o pé dentro da empresa, o desânimo é total", reclama.

Ele conta que, em média, demora cerca de um mês para se acostumar novamente com a rotina do serviço. Portanto, ele está dentro do perfil daqueles que sofrem da depressão pós-férias. "Até eu pegar o pique de novo, demora", relata.

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Dedicar tempo a atividades que
dão prazer ameniza sofrimento


Uma das maneiras para amenizar todo o sofrimento causado pela depressão pós-férias é detectar as causas do estresse e neutralizá-las. Para Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), dedicar tempo para a prática de atividades prazerosas é uma forma de amenizar o sofrimento.

Realizar atividades manuais e que exijam a criatividade também pode ajudar a pessoa a se sentir útil e reconhecida pelo seu trabalho. Outra forma de aliviar a pressão e o impacto pelo retorno ao trabalho após um mês de férias é retomar a atividade normal, rotineira, cerca de três dias antes da volta à empresa. Segundo Ana Maria, isso faz com que a transição seja mais tranquila.

Para o psicólogo Thiago Machado, é preciso entender o motivo do sentimento negativo em relação à volta ao trabalho e, a partir daí, fazer com que ele seja o combustível para uma mudança de atitude perante o emprego ou mesmo uma mudança de emprego.

De acordo com ele, as pessoas devem pensar no trabalho como algo prazeroso. "Afinal, ele será um companheiro de longos anos", lembra.