09 de julho de 2026
Articulistas

Revolução em Mônaco

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

Nunca ouvimos falar sobre o Partido Comunista de Mônaco. Não deve existir, por motivos óbvios. Imagina-se que o povo de Mônaco, se é que as pessoas que moram lá podem ser denominadas assim (povo), não tem muitos motivos para contestar seja lá o que for. Outros locais afortunados como Luxemburgo, Liechtenstein e o sultanato de Brunei são pequenos países onde o ambiente de conto de fadas e as imagens do paraíso emergem a todo momento da realidade.

O Reino do Bahrein, micro Estado insular que bóia sobre um mar de petróleo e pérolas (além de grande produtor de petróleo, é o maior produtor de pérolas), era, até a semana passada, outro desses locais que parecem ter sido tocados por Deus e seu sopro precioso. Mas eis que as trombetas demoníacas do povo e de suas aspirações se fizeram soar no pequeno reino. O mundo soube estarrecido esta semana que existe, sim, um povo no Bahrein.

A revolta das populações árabes, que começou com a deposição do ditador da Tunísia, no início do ano, se espalhou pelo norte da África e Oriente Médio.

Marrocos, Líbia, Egito, Iêmen, Jordânia, Irã, Iraque e até a ultra policiada Síria estão enfrentando problemas com protestos da população por diferentes demandas. Todos esses países são nações com grande população, onde uma porcentagem significativa das massas se encontra nas estatísticas da pobreza e da exclusão social e cultural.

A novidade no Bahrein é que, pela primeira vez nesta onda de protestos, um dos "paraísos" árabes do Golfo Pérsico foi atingido. Devido à extrema riqueza e às ótimas condições de vida de seu povo (será que é povo mesmo?), países como o Bahrein, Kwait, Qatar, União dos Emirados Árabes e Omã não apareciam nas previsões dos analistas que monitoram as recentes revoltas no mundo árabe. Porém, a monarquia sunita do Bahrein, que governa uma população majoritariamente xiita há mais de 200 anos, acabou caindo na esteira dos protestos islâmico.

Os líderes da oposição do Bahrein dizem que não querem a queda da monarquia, mas sim uma maior participação da população xiita no parlamento e nas decisões do Estado. O rei Hamad bin Isa Al Khalifa governa desde 2002, depois da morte de seu pai, e é um "boa praça", muito diferente de outros líderes truculentos do mundo árabe. Quando assumiu, realizou reformas políticas no reino, que incluíram a libertação de todos os prisioneiros políticos, a concessão às mulheres de direito ao voto e a criação de eleições para o parlamento. A pergunta que não quer calar é: por que raios a população do Bahrein quer se revoltar? Não está tudo certo lá? Os cidadãos do reino vivem um perpétuo feriado. Quem trabalha na construção civil, na faxina e servindo os milionários são pessoas que vêm de fora, inclusive jovens europeus, atraídos por salários extremamente tentadores.

A revolta no Bahrein indica que há insatisfação até nos paraísos terrestres. Que se cuidem os príncipes de Liechtenstein e Mônaco e o grão-duque de Luxemburgo. Pois até lá, enfim, deve existir um povo, ou algo que se aproxime do que essa palavra denomina. E mesmo que esses "povos" não tenham reivindicações mundanas como as dos brasileiros, mexicanos, egípcios e afins - reforma agrária, comida, moradia, roupa -, há sempre alguma coisa que pode incomodá-los. Como o preço do caviar em Mônaco, por exemplo.


O autor, Luís Paulo Domingues, é jornalista e professor