"Vamos entender!" Confesso que quando li a fala da professora voluntária em questão, senti-me feliz pela preocupação, dedicação e principalmente espírito solidário com relação às crianças e adultos residentes no Lar Escola Rafael Maurício. Porém, os três ou dois últimos parágrafos foram um primor, como esta fala: "Acho que ainda que os funcionários que lá trabalham e convivem com as dificuldades e obstáculos dos jovens deficientes, deveriam, por gratidão e desprendimento, dedicar um mês de seu salário ao LE RM"( Opinião - JC de 21/02/2011)
Gostaria de informar que esta atitude nobre já foi tomada, não que tenha sido de modo espontâneo por parte dos funcionários, mas quero ater-me sucintamente a outras questões. É doloroso e óbvio que aqueles dos quais carinhosamente são denominados por "internos" sofram realmente com mais uma perda caso a instituição deixe de existir, pois grande parte perdeu suas famílias de origem e perderiam então a segunda, pois há um vínculo forte entre eles, mas caso isto aconteça, minha cara professora, o município e os órgãos competentes possuem por obrigação encaminhá-los para algum lugar com condições no mínimo dignas de sobrevivência, isto é constitucional, direito deles e dever do Estado.
Com relação à fala que destaquei, solicito à autora e àqueles que compartilham da mesma premissa, uma visão mais holística, política e articulada sobre a questão, pois mesmo sendo leigo quanto às questões jurídicas ou previdenciárias, não sei ao certo qual seriam, mas a questão é que todo trabalhador tem por direito receber os honorários trabalhados. Sua proposta é anticonstitucional e incoerente, pois você disse conhecer a história do Lar, mas no entanto se esqueceu de conhecer os funcionários, pois lá trabalharam, e penso que ainda trabalham, pessoas dignas que se sentem envergonhadas por não poderem cumprir com suas obrigações financeiras. Assumiram dívidas, não porque não quiseram pagar, mas porque não tinham aquilo que todo trabalhador deveria ter.
Aconselho então aos que concordam com a premissa de doação de salários por um mês a conhecerem, por meio de sociólogos, cientistas políticos, assistentes sociais a conhecerem quem são os trabalhadores brasileiros, antes de buscarem resgatar um espírito romântico como este. "A distinção entre o ideal romântico e o a possibilidade real devem ser sempre averiguados". Providências devem ser tomadas, sim, porém, não que prejudiquem quem já está prejudicado pelas circunstâncias, mas gostei muito do termo "missivista". Parabéns pela linguagem utilizada, não conhecia o termo, porém, mais emotiva que adaptável à realidade, soou-me um discurso.
Gabriel Justino, funcionário do Lar Escola Rafael Maurício e graduando de psicologia USC-Bauru