09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Jadyr José Gabriele

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Pioneiro na cirurgia vascular em Bauru

Pode-se dizer que a realização profissional e pessoal é o sonho de todos. Mas nem todos alcançam esse objetivo. E com olhar tranquilo de quem conquistou o necessário e o desejado e a voz firme de quem ainda tem muito a realizar, no ano em que completa 50 anos de medicina, Jadyr José Gabriele fala ao Jornal da Cidade sobre suas lembranças e realizações profissionais, entre elas o orgulho de sua história se fundir com a história médica bauruense pelo fato de ter sido pioneiro em cirurgia vascular na cidade e região. "Apesar dos percalços iniciais, tenho muito orgulho por ter contribuído com essa especialidade. Quando cheguei a Bauru, não havia nada e tudo foi sendo construído com muita dificuldade".

Amante dos esportes, Jadyr já praticou natação, futebol, judô, halterofilismo, taekwondo e hoje faz caminhadas e se dedica ao tango, dança que descobriu e se apaixonou quando estudou na Argentina.

Pai coruja de quatro filhos e oito netos, ele também conta suas histórias da juventude peralta dos bons tempos de faculdade e fala sobre o apoio da esposa, a artista plástica Sônia Ayres Gabriele. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade: Algumas profissões, como a medicina, fazem parte dos sonhos de muitos garotos. Esse foi o seu caso?

Jadyr José Gabriele: Desde o grupo escolar a gente ouvia falar muito bem dos médicos e minha família tinha alguns amigos na profissão. Inclusive o meu pediatra falava muito sobre a medicina. Era algo que realmente me fascinava quando criança. Mas fui crescendo e acho até que esqueci um pouco desse sonho, que voltou um tempo depois quando o meu irmão mais velho, Nicola, entrou na faculdade de medicina. Nas férias ele vinha a Bauru e me contava histórias que fizeram com que meu interesse voltasse. Naquela época havia poucas faculdades de medicina e tudo era mais difícil, até para prestar os exames era complicado. Comecei a me preparar e passei no vestibular da Universidade Federal de Curitiba. Ainda em Bauru, sempre ouvi falar muito bem da faculdade e da excelente estrutura oferecida pela cidade aos estudantes.


JC ? Muitas lembranças da época de estudante?

Jadyr ? Bom, da época de estudante você sempre tem boas lembranças. Mas tem aquelas mais pitorescas. Precisávamos arrumar cachorros para operar e, naquela época, não havia biotérios, por isso era preciso pegar o cachorro na rua. E uma certa vez estávamos operando um cão e chegou uma moça querendo saber se o cachorro dela estava ali. E ele estava (risos). Então foi uma correria para esconder aquele cachorro porque se o professor soubesse da travessura, todos tiraríamos zero. Não podíamos fazer isso. O certo era pegar apenas cachorros de rua, sem donos. Mas procurávamos os mais fortes e saudáveis. Com muito custo conseguimos "tapear" a moça. Quando operávamos, era preciso levar o cachorro para casa e cuidar dele. O bicho dormia no quarto com a gente porque ele não podia morrer. Depois de uns dias, o professor fazia uma avaliação e dava notas. Em uma outra ocasião, para comemorar que o cachorro estava bonitinho, o grupo comprou um frango e um colega desatento jogou um osso pela janela e o cachorrinho, coitado, pulou atras dele e se esborrachou. Tivemos que arrumar um cachorro do mesmo porte e cor e fazer um risquinho na barriga dele como se tivesse sido operado. Para você ver como é a vida de estudante (risos).


JC ? Chegou a ser professor?

Jadyr ? O que acontecia com frequência era que pediam para que eu desse um curso, apresentasse um trabalho na minha área...Agora ser professor, não. Estudei um ano na Argentina depois de concorrer e ganhar uma bolsa de estudos. Além de conhecimentos médicos, aprendi a dançar e me apaixonei pelo tango.


JC ? E por que a cirurgia vascular como especialidade médica?

Jadyr- Isso foi uma consequência. Normalmente, todo médico que se forma faz cirurgia geral, mas a minha tendência começou na faculdade com o desejo de mexer com a circulação. Na minha época, não sei se hoje ainda é como antes, operávamos muitos animais, como cachorros e sapos. Já formado fui para São Paulo fazer cirurgia geral e me especializar em vascular no Hospital das Clínicas de São Paulo. Lá, comecei a ver que havia uma carência muito grande de cirurgiões vasculares e com eu já tinha aptidão e vontade, foi a especialidade escolhida. Também durante o curso de cirurgia geral na Argentina, percebi que a vascular andava me perseguindo. Fui a serviço para o Hospital das Clínicas de Córdoba e lá tinha uma pessoa que fazia vascular e comecei a acompanhá-lo mais do que as outras coisas. E quando eu voltei, fui trabalhar em São Paulo no HC e em uma companhia de seguros. Naquela empresa, onde eu fazia avaliação de pessoas acidentadas, como uma perícia, tinha um rapaz assegurado que sofreu um acidente em uma fábrica de pólvora e uma de suas artérias foi lesada. Eu ainda não era vascular e perguntando na Beneficência de São Paulo quem era o vascular que pudesse atendê-lo, indicaram-me um médico e eu disse que gostaria de fazer tal especialidade. Ele me disse que era do Hospital das Clínicas e que eu poderia ir para lá com eles. Fui e nunca mais larguei a especialidade.


JC ? O senhor foi o primeiro cirurgião vascular a atender em Bauru!

Jadyr ? Antes de aqui chegar eu estava em São Paulo no Hospital das Clínicas e no Hospital São Lucas. Na época também prestei um concurso para o Iapfesp, um Instituto dos Ferroviários da Noroeste, onde também estava trabalhando. Aí meu irmão Nicola, que já estava trabalhando em Bauru, convidou-me para atender aqui, já que na região não havia especialistas em cirurgia vascular. Eu vim, mas não imaginava que a coisa seria tão pesada.


JC ? Quais foram as grandes dificuldades iniciais?

Jadyr ? Como não existia a especialidade, o Hospital de Base, antiga Santa Casa, não estava aparelhado, a enfermagem não estava preparada, não havia os equipamentos necessários...Hoje em dia tudo é feito por terceiros. Por exemplo, se eu preciso analisar o seu braço, eu peço para o médico que é especialista em fazer o ultra-som...Eu pego o resultado para analisar. Antigamente, não. Se você tivesse um problema arterial ou venoso, eu que é tinha de fazer o exame e quando eu operava o paciente, não tinha Unidade de Terapia Intensiva (UTI),eu precisava ficar junto do paciente o dia todo. Muitas vezes dormia no quarto com o paciente. Só que ficava a noite toda acordado.


JC ? A esposa não reclamava?

Jadyr ? Por isso é que dou nota dez para a Sônia. Ela foi uma companheira de verdade. Até me incentivava. Ela era meu despertador...Cutucava-me dizendo que estavam me chamando e que era preciso ir. Ela me deu muito apoio. Por ser filha de médico, ela já sabia como era nossa vida. Acredito que ela só não estudou medicina porque ama e tem muito talento para as artes plásticas, profissão a qual se dedica com muito profissionalismo. E apesar dos percalços iniciais, tenho muito orgulho por ter contribuído com a cirurgia vascular. Quando cheguei a Bauru, não havia nada e tudo foi sendo construído com muita dificuldade. Os dirigentes de hospitais apoiavam, mas moderadamente porque os materiais eram importados e muito caros. A primeira pessoa que trouxe material para mim dos Estados Unidos foi o professor Bevilacqua, que era provedor da Santa Casa. Hoje vejo como as coisas estão mais fácies e me sinto muito feliz.


JC ? Lembra-se dos primeiros pacientes atendidos?

Jadyr - Como fiquei muito tempo fora da cidade, eu não era conhecido. O HB sempre foi o lugar onde os casos mais graves batiam à porta. Lembro-me de uma noite chuvosa em que o telefone tocou e mais tarde fiquei sabendo que no hospital disseram que havia um tal de Jadyr, irmão do doutor Nicola, que dizia ser cirurgião vascular. E me chamaram para ver o que eu podia fazer. Um rapaz tinha levado um corte do braço que seccionou nervos, veias...O pior é que quem o atendeu primeiro tentou unir os pedaços, mas quanto mais ele mexia, mais estragava. Felizmente correu tudo bem, o moço não perdeu o braço. Hoje ele está em Belo Horizonte e me procura sempre que vem ver a família. Também sempre encontro o irmão dele e pergunto por ele.


JC ? No fim de 2011 o senhor completa 50 anos de medicina. Imagino que a sua vida pessoal não se separa da profissional.

Jadyr ? Costumo me lembrar das cirurgias trabalhosas que deram certo. A medicina significa tudo, não conheço e nem tenho habilidade para outra coisa (risos). O que fazia bem antigamente era desenhar. Quando estava em São Paulo fiz os desenhos anatômicos para um livro de medicina. Acho que essa habilidade para os desenhos passou para meus filhos.


JC ? Acredita que influenciou os filhos na questão profissional?

Jadyr ? Acho que indiretamente, sim. Tanto o Cláudio, que também é cirurgião vascular, quanto o João Francisco, que é cirurgião plástico. Antigamente a gente tinha o costume de levar os filhos nas visitas aos pacientes. Eles estavam sempre comigo. Outra coisa importante é que sempre valorizei muito a medicina. Nunca disse que ficava desgastado com o trabalho no INPS, Santa Casa ou com os plantões, ao contrário, sempre deixei bem claro que a medicina é uma profissão nobre e muito boa.


JC ? Além do tango que aprendeu a gostar na Argentina, o que costuma fazer nas horas vagas?

Jadyr ? (Risos) Eu tenho um histórico esportivo longo. Desde a juventude pratico várias modalidades. Fazia natação e disputava campeonatos no antigo Esporte Clube Paulista quando adolescente. Já na faculdade, eu nadava pelo curso e jogava futebol. O engraçado é que as equipes eram divididas pela origem dos alunos e isso durante seis anos seguidos. Quando fui morar em São Paulo, aprendi a lutar judô e quando vim para Bauru continuei com a prática por muitos anos. Mais tarde, o judô deu lugar ao halterofilismo, mas passei a ter problemas musculares e parei. Foi quando conheci um rapaz na Beneficência e passei a lutar taekwondo. Hoje eu faço caminhadas e danço tango.


JC ? É um homem realizado?

Jadyr ? Perfeitamente realizado, sobre todos os aspectos. Recebi uma homenagem da Câmara Municipal sobre o meu pioneirismo como cirurgião vascular em Bauru e uma homenagem da revista Atenção pelo mesmo fato. Mas tem uma coisa: ainda quero ir muito longe. Não penso em aposentadoria. Quero melhorar nossa clínica cada vez mais junto de meus filhos. Tenho duas grandes alegrias na vida: a minha grande família, que só me dá orgulho, tenho oito netos, e o fato de meus filhos trabalharem comigo. Temos uma parceria muito boa.