Cairo - O futuro presidente do Egito só terá permissão para permanecer no cargo por oito anos, de acordo com emendas constitucionais que darão lugar à competição pela posição tomada durante três décadas pelo ex-líder Hosni Mubarak. As emendas propostas foram preparadas por um comitê judiciário nomeado pelo conselho militar que está dirigindo o Egito.
Elas serão submetidas a um referendo antes das eleições parlamentares e presidenciais que devolverão o poder a um governo ditado pelos civis. Mubarak governava seu quinto mandato consecutivo de seis anos, quando foi derrubado no dia 11 de fevereiro pelo povo egípcio. Os manifestantes exigiram reformas que dessem fim ao governo de um só homem, que definiu os rumos do Egito por décadas.
A constituição pré-existente, suspendida pelo conselho militar ao qual Mubarak entregou o poder, tornava quase impossível para um candidato de oposição desafiar o governo do presidente no Partido Democrata Nacional.
A conclusão das emendas é um marco no caminho do Egito para as eleições, que o conselho militar egípcio espera dar início dentro de seis meses. Os egípcios esperam que elas representem o começo de uma era de democracia. Sob as emendas propostas, as eleições seriam submetidas à supervisão judicial, afirmou o juiz aposentado Tariq al-Bishri, chefe do comitê. Ele ressaltou que os novos termos para a candidatura são menos exigentes que os atuais.
Candidatos para a presidência irão precisar do apoio de 30 parlamentares, aliviando a exigência anterior de 250 membros de uma série de assembleias eleitas. Além disso, candidatos também precisarão do apoio de 30 mil votantes elegíveis de 15 municipalidades.
Como alternativa, é possível concorrer como representantes dos partidos políticos registrados que tenham pelo menos um membro eleito para o alto ou baixo parlamento. As emendas propostas também irão deixar mais difícil que um presidente sustente o estado de emergência - em vigência há décadas - que ativistas da oposição desejavam suspender como parte de suas demandas por reformas mais amplas.
Pressão no Exército
Soldados egípcios usaram força ontem para reprimir um protesto exigindo mais transformações políticas no Egito, no incidente mais grave até agora contra os manifestantes, que acusaram o governo militar do país de "trair o povo". Os manifestantes disseram que soldados dispararam para o alto e agrediram manifestantes com paus depois da meia-noite para dispersar um protesto que exigia de militares a aprovação de reformas, incluindo uma revisão completa do gabinete.
O Conselho Supremo das Forças Armadas, que governa o Egito desde que o presidente Hosni Mubarak deixou o cargo, pediu desculpas e afirmou não ter havido nenhuma ordem para atacar os manifestantes e que o incidente não foi intencional. Os manifestantes detidos durante a noite seriam liberados. O governo afirma que "infiltrados" jogaram garrafas e pedras contra os soldados. "O que aconteceu ontem à noite foi... o resultado não-intencional de uma altercação entre a polícia e os filhos da revolução", afirmou o conselho em uma página no Facebook.
Os militares querem que os egípcios voltem ao trabalho para revitalizar a economia, drenada por semanas de turbulência com a revolta popular que derrubou Mubarak, em 11 de fevereiro. Um taxista discutiu com um manifestante, dizendo: "As pessoas não conseguem encontrar comida". A opinião dele ecoa os sentimentos de muitos egípcios de que a manutenção dos protestos apenas obstrui o retorno à normalidade.
Arábia Saudita
Houve relatos não confirmados de protestos na Arábia Saudita, foco de preocupação internacional por se tratar de um potência petrolífera. O local é próximo ao Bahrein, onde há cerca de duas semanas a maioria xiita pede reformas à monarquia sunita que controla o país do golfo.
Iêmen
Mais cinco pessoas morreram durante a madrugada de ontem, depois de serem baleadas em protestos antigoverno na cidade iemenita de Áden, no Sul do país, informaram fontes médicas. O fato eleva para sete o número de mortos em confrontos com forças de segurança em Áden, anteontem. Cerca de 50 pessoas ficaram feridas. Vinte e quatro pessoas já morreram desde o início dos protestos, em 17 de fevereiro, contra o dirigente Ali Abdullah Saleh, há 32 anos no poder.