08 de julho de 2026
Bairros

Fora da favela, famílias sofrem com chuva

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 5 min

Os antigos moradores da favela do Parque Real, que em fevereiro foram removidos para casas construídas com verba do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) - com contrapartida do município de Bauru -, tiveram pouco tempo para comemorar a mudança. As chuvas dos últimos dias deixaram intransitáveis as ruas de terra.

Além da pavimentação, eles reivindicam também calçada e talude. As casas foram entregues antes do prazo previsto inicialmente e faltando detalhes a concluir por conta de uma onda de vandalismo e furtos. Nem mesmo cães e gatos escaparam do barro que ali se formou. As chuvas deixaram os moradores do Parque Santa Cândida sem socorro médico e ônibus coletivo, que não transitam pelas ruas.

Os semblantes felizes no dia da mudança da favela para o bairro tornaram-se feições de revolta. Regina Lima Oliveira, 33 anos, mostra as poças de água nos fundos de sua casa. O cheiro de esgoto é evidente no local. "Nós estamos ilhados. Os barrancos (taludes) estão descendo. Quando estávamos na favela, tinha chuva, era ruim, mas tinha asfalto. Agora estamos em meio ao barro", criticou. Os sete filhos da moradora Adriana Regina Solano, 35 anos, não estão frequentando a escola. Ela conta que como o ônibus coletivo não consegue passar pela rua, o único jeito de fazer o trajeto é a pé e as crianças chegam sujas na escola. "É uma vergonha elas chegarem sujas na escola", destacou.

Tamires Aparecida Augusto conta que a frente de sua casa está se deteriorando por conta das chuvas. A calçada ainda não foi concluída e o hidrômetro está com os canos totalmente aparentes. "A água do banheiro também não escoa. Estou com medo de que por conta desse alagamento nos arredores, as casas comecem a ficar comprometidas", disse.

Antônia de Fátima Gaspareti, 40 anos, cobra uma resposta imediata do prefeito municipal Rodrigo Agostinho. "Nós não estamos morando aqui de graça. É claro que as casas são boas. Mas se isso continuar assim, nós vamos voltar para a favela. Não tem condições", reivindicou.

"Piscinão"

O alagamento dos fundos da casa de Maria Aline de Souza, 30 anos, já virou motivo de piada entre os vizinhos que intitularam a situação de "piscinão da Aline". "Essa situação está insustentável. Nós estamos com medo de que estes locais alagados virem foco de dengue", pontuou Aline. As situações são as mais diversas. Marcílio Dalto, 62 anos, que tem a mobilidade das pernas reduzida por conta de um acidente, está "ilhado". Ele não consegue sair de casa com a ajuda das muletas, que afundam no solo barrento.

"Esses dias eu tentei sair e caí de joelhos. Fui tentar levantar e caí de novo. Ontem (anteontem) eu caí e bati a cabeça aqui no quintal. A casa está ótima, não tenho o que reclamar. Mas eles precisam terminar a obra", reivindica.

O pintor Osmano Alves Pereira, 42 anos, não consegue tirar o carro de casa há quatro dias. "Eu carrego todas as ferramentas no carro. Não consigo tirar o carro daqui desde sábado. Hoje que o pessoal me deu um pouco de areia grossa e pedra para eu fazer uma base mais forte no solo e ver se consigo tirar o carro daqui", destacou.

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Asfalto: promessa até final do ano

De acordo com o prefeito municipal Rodrigo Agostinho, o asfalto das 34 casas do Programa de Reassentamento da Prefeitura de Bauru, que foram construídas no Parque Santa Cândida em três pavilhões, deve chegar até o fim deste ano. Ele explica que as casas só foram entregues sem o asfalto por conta dos atos de vandalismo e furtos que estavam acontecendo.

"Eu poderia ter entregue as casas só depois que tivesse o asfalto. Só que as casas já estavam sendo depredadas, então preferimos removê-los, até porque estavam em área de risco. Durante o ano o asfalto vai ser feito lá. Eles não são os únicos. Nós temos muita gente que mora em bairros de ruas de terra que estão com o mesmo problema hoje (ontem)", salientou.

No entanto, o prefeito afirmou que assim que as chuvas cessarem, o maquinário da Secretaria de Obras, que continua a trabalhar no bairro, deve amenizar o problema nivelando a rua novamente.

Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que o programa Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) não exige o asfaltamento das áreas e o projeto apresentado pela Prefeitura de Bauru não previa a pavimentação do local. No entanto, Agostinho explica que essa complementação do projeto será feita pela prefeitura. "É verdade. A contrapartida da prefeitura são as guias e o asfalto. A construtora que ganhou a licitação deve fazer a calçada e muro de arrimo. A rua é de responsabilidade nossa. Até o final do ano nós temos que asfaltar esses locais, mas não há uma data certa prevista. Os taludes serão feitos, a construtora continua com a obra", ponderou Agostinho. O Programa de Reassentamento da Prefeitura de Bauru foi custeado pelo FNHIS em um investimento de R$ 779,9 mil, com contrapartida do município de R$ 250,5 mil. No total, foram erguidos 15 imóveis de um dormitório (31 metros quadrados), 12 de dois quartos (41 metros quadrados) e sete de três dormitórios (54 metros quadrados), distribuídos de acordo com a necessidade dos atendidos.

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Tarefa árdua

Nem o carteiro escapou da lama. Passar pela avenida das Bandeiras tomada pelo barro foi extremamente difícil para um funcionário dos Correios que foi ao local ontem à tarde. O jeito foi descer do veículo e o empurrar acelerando. Conseguir controlar a motocicleta em meio a tanta lama sem deixar que ela caísse ou atolasse foi uma tarefa árdua.