08 de julho de 2026
Articulistas

Voce é seu dono?

Munir Zalaf
| Tempo de leitura: 3 min

Pergunta maliciosa, perigosa, instigante, provocante e desaforada! Você é seu dono?

Faz o que quer no tempo desejado ou os ponteiros do relógio o condicionam? Diante de ação profissional ou social, a cumpre independente do tempo a governá-lo?

Nas suas compras, grifes o induzem? Ao escolher camisa e gravata para evento importante, sua dona é a dúvida? Se o árbitro marca pênalti contra seu time e o acha injusto, a raiva o controla? A ira é sua dona ou você a domina? Pense seriamente. Eu me perguntei e conclui: não sou meu dono desde o dia em que nasci. Pertenço ao tempo, às pessoas e coisas que me levam a fazer o que gosto e não gosto. Não é insegurança ou personalidade frágil; de jeito nenhum! Apenas sou o que sou diante da realidade imutável na vida das pessoas.

Todos pertencem a alguém ou às coisas. Muitos, a maioria, à ânsia do poder e da fortuna, esquecendo que são apenas passageiros na Terra, e chegará o dia da baldeação sem nenhuma bagagem material para o mistério oculto além da vida.

Neste instante, meu dono é este punhado de palavras onde o tempo me encaixou e me conduz para escrever sobre uma verdade incontestável. Na infância e na adolescência, avós, pais, irmãos mais velhos, tios, sacerdotes e professores, eram meus donos. Determinavam o que devia e não devia fazer. O certo e o errado. O bem e o mal. As veredas para o céu e os escuros caminhos para o inferno. Arre!

No trabalho, o chefe era meu dono a escalar tarefas e tempo para cumpri-las. Quando gerente, comandava os funcionários, e os diretores e acionistas eram os meus donos. Pertencia ao crachá, cartão ou livro do ponto. O relógio me conduzia para o trabalho, ao almoço, ao fim do expediente, e para os meus sonhos noturnos a inventar histórias e a cantar serenatas para as moçoilas escondidas nas minhas fantasias.

A primeira namorada era minha dona. Fazia de mim seu servidor. Até o dia em que resolvi inverter a situação. Aí então ela rompeu o namoro. Tínhamos, eu 13 e ela 11 anos de idade. Jurei nunca mais ser de menina nenhuma. Tolo e ingênuo. O amor cria sonhadores e o enamorado deseja chegar ao céu, colher e oferecer à amada estrelas arrebatadas ao infinito.

Hoje, idoso aposentado, ainda não sou o meu dono. Sou da minha mulher, meus filhos, netos, nora e genro e irmãos. Também de amigos maravilhosos a me fazer alegre ao colorir o crepúsculo da minha existência. Vivo feliz em tê-los como meus adoráveis donos.

Livros e o computador me governam. Do-nos que me ajudam a pensar, criar e escrever. Pertenço ao açougueiro, padeiro, médicos e farmácias, comerciantes, donos do meu dinheiro que também é de outros senhores no eterno rodízio do ganho. Dia desses, me surpreendi, imaginem, sentindo-me dono do mundo! Sai a pisar terras, a navegar águas e a desfrutar toda a generosidade da Natureza.

Dono do mundo! Sem IPTU, IPVA e IR a pagar! Participar das surpresas e dos seus dramas, pantomimas, comédias e mistérios. Chorar, gozar e viver as emoções que proporciona. Pensamento tolo de ser o dono do mundo quando não sou nem meu dono.

Não sou blasfemo, mas, sussurando, capaz de quase afirmar: até "Deus tem dono". Quando o amor por Ele é grande, forte e pleno de fé, a gente pode mesmo pensar que é um pouquinho "dono de Deus". A amizade, solidariedade e ternura ao próximo, nos dão o direito de inventar essa idéia. Afastando as doidices, me escondo num cantinho dos meus descabeçados devaneios. Somos criaturas que ao permitir o egoísmo e a ambição sejam nossos donos aqui na Terra, damos testemunho da nossa fraqueza e imbecilidade.

Aprendemos a filosofia da vida e da morte e, por desejos materiais a ignoramos. Cegos e surdos!


O autor, Munir Zalaf, é membro da Academia Bauruense de Letras, poeta, escritor e palestrante voluntário