Os "analistas" dos mercados financeiros sempre demonstraram aversão ao presidente Lula, às políticas do seu governo e uma indisfarçável frustração pelos altos índices de aceitação popular que ele mereceu ao final de oito anos na chefia da Nação. O carisma de Lula foi fator decisivo para a eleição da nova presidente, Dilma Rousseff, tecnocrata moderna, sofisticada, pragmática e com sensibilidade social.
Ela tem que lidar: 1º) com as naturais dificuldades políticas que existem em todo estado de direito republicano e democrático e 2º) com os condicionantes físicos e humanos que limitam a continuação de um projeto de longo prazo que parece muito conveniente para o Brasil.
Desde a Constituição de 1988 quando ? gostem ou não alguns fundamentalistas ? a sociedade brasileira revelou suas preferências sobre a forma em que desejava organizar-se, o Brasil tem feito imenso progresso civilizatório. Este não se deve apenas a eventuais virtudes pessoais de seus governantes mas, também, de forma decisiva, ao aperfeiçoamento de nossas instituições. Para avaliar objetivamente a realidade brasileira atual é preciso aceitar, de uma vez por todas, que Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva já se foram. São apenas parte do passado! Cada um deles procurou cumprir o seu papel, dentro dos limites políticos, físicos e humanos em que operaram.
Um bom começo é aceitar um fato simples. Não importa qual seja nossa orientação ideológica ou nossa pretensão científica sobre a melhor receita para a boa govenança econômica, é impossível deixar de reconhecer que quase 90% de aprovação popular (num regime de plena liberdade de expressão, mídia alerta e, felizmente, inquisidora) tem pouca probabilidade de ser um acidente. O Brasil livrou-se rapidamente da crise mundial de 2007/2009 e terminou 2010 em condições econômicas e financeiras razoáveis, com progressos sociais visíveis dentre os quais o "sentimento" de que aumentou a igualdade de oportunidades para todos.
Depois das patifarias financeiras do mundo desenvolvido é difícil deixar de reconhecer, também, que a despeito de alguns discutíveis pecados veniais, nossa situação fiscal não tem a dramaticidade que querem atribuir-lhe analistas engajados. Temos obviamente problemas que precisam ser enfrentados: a desestabilização das expectativas inflacionárias, resultado de pressões internas e das altas dos preços internacionais das commodities; a teratológica taxa de juro real, resultado dos antigos equívocos no financiamento da dívida interna; a super-valorização do Real, consequência da própria desvalorização do dólar (que estimula a especulação nos mercados de commodities) e do imenso diferencial entre a taxa de juro real interna e externa. Isso sem falar no longo prazo (infra-estrutura, previdência, gestão, acabar com a "praga" da indexação legal, etc). O ponto importante e para o qual a Presidente tem chamado a atenção, é que a melhor contribuição que o Governo pode dar para ajudar a resolver essas questões é uma redução imediata das despesas de custeio e melhorar a qualidade da gestão pública.O programa proposto em nome do governo pelos ministros Guido Mantega e Miriam Belchior persegue aqueles objetivos. Todos já o conhecem. Trata-se de um bom começo.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento