Se o mau tempo notado durante toda a semana que antecedeu ao Carnaval não tivesse sido tão rigoroso, certamente o Sambódromo municipal, com capacidade total para aglomerar 20 mil espectadores, teria suas dependências totalmente tomadas. A observação é do capitão Fabiano Serpa, comandante da 4ª Companhia da Polícia Militar em Bauru.
De acordo com estimativas da PM, que possui fórmula específica para calcular quantidade de pessoas presentes em eventos, a primeira noite do desfile das escolas de samba e blocos carnavalescos da cidade reuniu aproximadamente 13 mil pessoas na arquibancada.
O contingente de público, observa o oficial, é referente ao auge atingido pouco antes das chuvas mais fortes começarem a cair no sambódromo. Conforme as condições do tempo pioraram, parte dos foliões começou a dispersar, entretanto, a maioria dos presentes ignorou a água que caía e continuou a prestigiar a festa. Ainda conforme a polícia, até metade do desfile de ontem, não havia o registro de ocorrências sérias no evento.
Independentemente às condições climáticas, a reciprocidade do público quanto às performances deu o tom tanto na arquibancada quanto nos camarotes. "Essa chuvinha não vai atrapalhar e certamente o pessoal vai continuar a prestigiar", previa a "rainha do Carnaval em Bauru", Francina Manson do Nascimento. Receptividade também foi o que não faltou às diferenças, com aplausos também à "rainha da diversidade", Laetra. "O público está muito receptivo. Isso mostra o quanto a mente das pessoas se abre. A recepção é muito boa em todos os eventos em que participo", empolga-se.
Atento aos passos da escola de samba Tradição da Zona Leste, o soldador Alcides da Silva, de 63 anos, não tirava os olhos da passarela do samba bauruense. Empolgado com o desfile, mesmo debaixo do guarda-chuva e ao lado da netinha Ashley, de 7 anos, e da esposa Isabel Dirce Rodrigues da Silva, de 64, ele nem pensava em arredar o pé do Sambódromo. "Trouxe a netinha para entrar no clima. Não saio daqui nem com chuva. Quero ver o ?Cartolão?", vislumbra.
E os anseios do torcedor foram atendidos. Quinta agremiação a desfilar, logo após os Unidos do Samba, que, no domingo ? por força maior ? entoaram o enredo "Porque Hoje é Sábado", os Acadêmicos da Cartola também levantaram público, e respectivos guarda-chuvas, com o tema "Mulher, fonte de amor e vida", justamente, a dois dias da comemoração ao Dia Internacional da Mulher, celebrado amanhã.
Assim, nada melhor do que uma avaliação feminina: "maravilhoso o desfile, só não foi 100% por causa da chuva mesmo", chancela Helena Aparecida da Silva, moradora do Jardim Vitória, que soltou a voz acompanhando os intérpretes Nilo, Nelson e Marcinho. O bloco especial Beija Flor/Periferia Legal/Bauru pela Diversidade antecedeu a escola Coroa Imperial da Grande Cidade, que fechou a primeira noite de desfiles com o enredo "SOS Natureza".
Comerciantes satisfeitos
A chuva não deu trégua, mas não foi apenas o samba que ignorou o mau tempo. Os vendedores ambulantes que montaram suas barracas no entorno do sambódromo também não tiveram do que se queixar durante o primeiro desfile de escolas e blocos da cidade. "Não mudou quase nada. Ainda bem, seria terrível voltar para casa com esse monte de coisa", alivia-se a vendedora de cervejas e refrigerantes Helena da Silva.
Quem também estava contente com a "evolução" da freguesia era Adilson Pires, que, com uma mão girava o espeto e com a outra erguia o guarda-chuvas para proteger a chama que assava o churrasquinho. "Está vendendo bem. Acho que o friozinho deixa o povo com mais fome", diverte-se.
Para prefeito, poder público acerta em investir nos desfiles das escolas
O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) acompanhou o primeiro dia do desfile no Sambódromo, ontem à noite. Para ele, o bom público presente mostra que o poder público acerta ao investir no Carnaval. "Mesmo com chuva, o pessoal veio acompanhar. Amanhã (hoje) vamos torcer para que o tempo melhore e o desfile não tenha chuva", pontua. "O Carnaval tem um grande público. É uma grande festa popular e o poder público tem que ajudar", afirma.
Ele também destacou a dedicação das escolas e blocos que se empenharam em fazer o Carnaval no Sambódromo. "Fizeram um grande esforço, um bom investimento e trouxeram a festa para o Sambódromo", diz.
"Água, vamos preservar para não faltar"
Não bastasse a garoa que ainda se transformaria em chuva de vento, o "É Isso Memo", segundo bloco a desfilar na noite de domingo soltou o enredo "Água, vamos preservar para não faltar". E, certamente, o que não faltou, ao menos durante a primeira noite de performances no sambódromo, foi o líquido vital. A chuva engrossou a tal ponto nessas alturas que as tintas que cobriam o rosto de alguns integrantes escorreu, sem, no entanto, borrar o entusiasmo de quem desfilou ou cantou junto da arquibancada ou camarotes. "Fiquei meio sem saber, achava que teria que fazer alguma coisa (para recuperar a maquiagem que se desmanchava pelo rosto). Mas só pensei em fazer um bom desfile, alegra-se a passista Juliete Fernanda de Araújo, de 20 anos, que terminou a performance de cara limpa, após quase toda a tinta azul que cobria seu rosto se desmanchar.
Clareando sob o mau tempo, a escola de samba Tradição da Zona Leste apresentou seu enredo "No encanto das cores, a magia do arco-íris. Os 400 componentes, divididos em nove alas e dois carros alegóricos, levantaram o público, a essa altura ofuscado por guarda-chuvas nos mais variados tamanhos e cores que tomavam a arquibancada, mesmo com o vento e fria chuva, numa performance pontual.