11 de julho de 2026
Articulistas

Ainda há quem afirme: o mundo deve continuar masculino. Será?

Anísia Cunto Motta
| Tempo de leitura: 4 min

Às  vésperas do  Dia Internacional da Mulher,  nos deparamos com as insólitas  afirmações de um juiz (Jornal Nacional de 24/02/11) criticando a lei Maria da Penha como ridícula... inconstitucional... e ainda acrescentando: "o mundo é masculino e deve continuar masculino". Prefiro não considerar acintosas as suas palavras, mas tomá-las como motivação para reflexão. São incontáveis as conquistas da mulher, mas em que direção ? Estamos, nós, mulheres, em busca da humanização do ser humano? Nossas funções, atribuídas pela cultura (divisão do trabalho para organização da vida, resultando num reino de possibilidades), como afetam a luta da mulher? Mãe, es-posa, dona de casa, cidadã, profissional... são papeis sociais que constroem a consciência da condição pessoal na sua trajetória de busca de ser mulher.

A humanidade aparece na face da terra na condição sexual de macho e fêmea para se construir pessoa humana ? no processo histórico. Profundas pesquisas, através do estudo da arte na Pré-História , sobretudo no neolítico (7000 a 2500 AC) nos mostram a existência de culturas, em regiões da Europa e Oriente Pró-ximo, de comunidades pacíficas de parceria que cultuavam a natureza, a admiração e o respeito diante da beleza e mistério da vida. A arte rupestre da época não mostra a imagem da força, da crueldade e do poder baseado na violência. Sociedades posteriores é que se dei-xaram marcadas pela dominação masculina cheias de atrocidades.

E, fruto dos modernos recursos da arqueologia, hoje podemos entrar em contato com um passado cultural diferente do que nos foi transmitido nos bancos escolares. Mostraram-nos uma evolução cultural, segundo o modelo tradicional de visão dominadora do mundo, a partir de uma progressão linear do "homem primitivo" até o chamado "homem civilizado", que apesar de suas muitas diferenças tem o mesmo interesse em conquistar, matar e dominar. A arte neolítica mostra singular ausência de imagens do tipo dominador-dominado e senhor-súdito, características de sociedades dominadoras.

Nas culturas neolíticas de referência, natureza e humanidade aparecem intrinsicamente  associadas, numa unidade de todas as coisas. A representação da mulher grávida, divinizada no Neolítico, aparece identificada com a Mãe-Terra, que se regenera ciclicamente através das estações. É a mulher que gera, dá à luz, nutre a vida e na morte recebe seus filhos de volta em seu ventre cósmico. Evidentemente, sem as revelações que a biologia nos trouxe, na pré-história viu-se a vida a partir do ventre feminino gerador ? uma vulva como um grande cálice sagrado que contém o milagre do nascimento e o poder de transformar a morte em vida como na natureza. Conclui a arqueologia moderna: esta era a realidade destas so-ciedades agrícolas antigas. Mas se não foram patriarcais, perguntaram os estudiosos, devem ter sido matriarcais tais sociedades? A-pesar de nessas sociedades a descendência ser traçada pela linha materna, as sacerdotisas e chefes de clãs desempenharem papeis de liderança em todos aspectos da vida, não há indicação de desigualdade marcante entre homens e mulheres, não há mostras de que as mulheres subjugassem ou oprimissem os homens. É a partir da invasão da Europa e Oriente Próximo por pastores nômades (guerreiros em busca da conquista de novas pastagens, assolados por grandes secas na Ásia) que essas culturas agrícolas, sociedades de parceria que celebravam a vida, vêem o equilíbrio das relações homem/mulher, sexualidade/espiritualidade rompido. O sexo, até então sagrado, torna-se elemento de dominação do homem sobre a mulher. A figura do guerreiro que enfrenta a morte nas conquistas passa a ser valorizada em detrimento da mulher que representava a vida.

Para  Riane Eisler (O Cálice e a Espada ? Palas Atena e O  Prazer Sagrado ? Ed. Rocco), estamos no limite do caos, mas nova ordem poderá ser estabelecida para que possamos conviver de forma mais saudável e respeitosa de nós mesmos e de nosso planeta a partir de valores de parceria, cuidado amoroso, inclusão, sustentabilidade.

Nessa direção, o questionamento fica para nós, mulheres: quanto estamos buscando descobrir para assumir nossa humanização?

Ou será que levadas pela competição li-beramos o masculino que há em nós para nos igualarmos aos homens, fazendo tudo como eles fazem, em detrimento de nosso jeito particular de ser pessoa, do qual o mundo tanto carece?! (A autora, Anísia Cunto Motta,é educadora ativa na coordenação da Escola de Pais do Brasil da Seccional de Bauru)