Cafelândia ? A Polícia Civil de Cafelândia (83 quilômetros de Bauru) concluiu o inquérito instaurado para apurar a morte, em novembro do ano passado, da estudante Larissa Rafaela Kondo de Lima, 15 anos. Segundo o delegado Adílson Carlos Vicentini Batanero, provas testemunhais e documentais reunidas durante as investigações, inclusive bilhetes encontrados na casa da adolescente, apontam que ela morreu após ingerir um raticida conhecido como "Mão branca". Na ocasião, como a garota apanhou dos pais por estar namorando escondido, também foi aventada a hipótese dela ter morrido em razão da surra.
A conclusão do delegado, que descartou a morte por espancamento, se baseia no exame necroscópico do Instituto Médico Legal (IML) de Bauru, que apontou um edema pulmonar como a causa da morte, e em depoimentos prestados pelos pais da estudante, colegas suas de escola, enfermeiras e médica que estavam de plantão na ocasião em que ela foi levada pelo pai ao Hospital de Cafelândia e, até mesmo, o garoto com quem a jovem estava namorando em uma praça momentos antes das agressões.
Conforme noticiado pelo Jornal da Cidade no final do ano passado, o exame toxicológico a cargo do Núcleo de Toxicologia Forense da Polícia Científica ? que poderia comprovar, de fato, a presença do raticida "Mão branca" no organismo de Larissa - não pôde ser feito porque, segundo Batanero, o material colhido do corpo da adolescente foi insuficiente para a realização do exame complementar. A suspeita de envenenamento surgiu quando o advogado da família da vítima entregou à Polícia Civil um frasco do veneno alegando que ele havia sido localizado do lado de fora da casa.
Apesar da ausência de provas documentais comprovando o envenenamento, o delegado diz não ter dúvidas de que a garota se matou. "Tudo leva a essa conclusão porque se ela tivesse levado um chute na cabeça, teria uma marca pelo menos, um hematoma, um sangramento ou algum edema. E não tinha nada", conta. "Eu ouvi todas as enfermeiras, a médica que atendeu ela no Hospital de Cafelândia, e todas relatam que ela não tinha nenhum sinal de espancamento. Só tinha marcas no braço, que eram das cintadas que a mãe deu e ela tentou se defender. A caixa craniana estava intacta".
Batanero ressalta ainda que bilhetes encontrados na residência da estudante ajudam a sustentar a tese de suicídio. "Ela escreveu os bilhetes se despedindo da mãe e pedindo perdão. Depois ela se arrepende e diz que é tarde. Ela tomou (o veneno) por impulso e depois se arrependeu quando começou a doer o estômago dela", explica. "Quando ingerido, a absorção desse veneno é muito rápida para o organismo porque ele entra na corrente sanguínea, é absorvido pelo estômago e dificilmente é detectado. De quando ela chegou ao hospital, até a hora em que morreu, ela só convulsionou e não reagiu à medicação".
Segundo o delegado, o inquérito policial será remetido ao Ministério Público (MP) ainda hoje. A promotora responsável pelo caso, Vivien Félix Bueno de Góis, pode arquivar o processo ou oferecer denúncia contra os pais, ou apenas um deles, se entender que houve algum crime. "Pode ser que a promotora entenda que houve maus tratos por parte do pai e da mãe que causaram abalo psicológica na filha levando ela a praticar o suicídio", diz.
Outra possibilidade, segundo o delegado, é a concessão do chamado perdão judicial, por parte do juiz, a eventuais responsáveis pela morte de Larissa, o que extinguiria qualquer tipo de punição. Esse dispositivo é permitido em alguns casos e leva em conta o sofrimento dos pais com a perda da filha.
O advogado de José Carlos de Lima, pai de Larissa, Luiz Poli Neto, informou ontem à tarde que não teve acesso ao relatório do inquérito."Ele (José Carlos) foi indiciado por lesão corporal culposa seguida de morte. Se ficou comprovado que foi suicídio, que culpa ele tem? Não tem nada. Vai ser absolvido sumariamente".
Contudo, o advogado não descarta que o MP possa ter um entendimento diferente a respeito do caso e afirma que vai recorrer de qualquer condenação envolvendo seu cliente. "O fato do delegado ter relatado que não houve a lesão corporal seguida de morte, e sim o suicídio, não significa que a promotora vai aceitar essa decisão", finalizou.
Repercussão
A morte da estudante Larissa Rafaela Kondo de Lima, ocorrida no dia 24 de novembro, por volta das 6h30, no Hospital Estadual de Bauru (HE), ganhou repercussão nacional e deixou a sociedade consternada. No dia anterior, ela apanhou dos pais, que não concordavam com o fato dela estar namorando.
As agressões teriam começado na tarde do dia 23, por volta das 18h30, quando a adolescente chegou em sua residência, na rua Camargo Antônio de Andrade, no bairro Pena, após passear com uma amiga.
Ao descobrir que ela havia beijado um garoto de sua escola na praça Santa Isabel, centro da cidade, a mãe de Larissa, Márcia Kondo de Lima, 42 anos, descrita como uma mulher evangélica e bastante rígida, teria lhe dado uma surra de cinta.
A estudante teria sido agredida novamente por volta das 20h, desta vez com mais intensidade, pelo pai, o motorista José Carlos de Lima, 38 anos. Por volta da 1h, os pais acordaram com a filha tomando banho, atordoada e passando mal.
A Polícia Militar (PM) e o socorro foram acionados e Larissa foi conduzida à Santa Casa de Cafelândia, onde deu entrada com convulsões e inconsciente. Em seguida, ela foi transferida para o HE de Bauru, onde morreu por volta das 6h30.
Na ocasião, a mãe da jovem contou à Polícia Civil que seu marido tinha agredido a filha com vários chutes, inclusive na cabeça. Ele foi autuado em flagrante por lesão corporal dolosa seguida de morte e chegou a ficar preso na Cadeia de Promissão, mas foi solto na tarde do mesmo dia.
A promotora de Justiça de Cafelândia, Vivien Félix Bueno de Góis, enviou uma manifestação ao juiz com seu entendimento de que, no caso em questão, houve homicídio doloso, e não lesão corporal seguida de morte. Na mesma manifestação, ela também alegou que a mãe da adolescente teria a mesma responsabilidade do pai no ocorrido.