Munir, você perguntou: "Você é seu dono?". A minha resposta, para mim, para você e para todas as pessoas que têm família, que têm amigos, que é amada, a resposta é não, graças a Deus. A menos que sejamos como o cachorro vagabundo do samba "eu gosto muito de cachorro vagabundo que anda sozinho no mundo sem coleira e sem patrão, eu gosto de cachorro de sarjeta que quando escuta a corneta sai atrás do batalhão". Mas viu só? Mesmo esse que não tem dono procura "ir atrás do batalhão", para pertencer a alguém, a alguma coisa, para não ser sozinho no mundo. O preço da liberdade total, de ser dono de si mesmo, sem ter contas a prestar e nem obrigações a cumprir é alto. Munir, é muito alto, é a solidão, o abandono, pois somente sendo sozinho e abandonado é que o homem é dono de si mesmo e eu acho que ninguém quer isso para si.
E como você mesmo diz, desde criança, se graças a Deus não somos órfãos nem criança abandonada, já pertencemos aos nossos familiares todos, aos quais temos de respeitar e obedecer, mesmo se for contra a nossa vontade. Como adultos, então, nem se fala, se não somos marginais, temos as leis, os usos e costumes que a convivência nos impõe e até mesmo na prisão, um marginal quando sai e não tem "dono" joga um tijolo numa vitrine para voltar para onde ele tinha dono, mesmo sendo uma prisão, lembra do caso?
Bom, tudo isto ainda sem falar naquela situação em que nos colocamos quando somos como "pertencentes" a alguém que amamos acima de tudo e que transformamos em nossos donos, obedecendo deles até ordens absurdas como aquela da música do Miltinho que diz "se for a seu pedido, eu choro em colorido, meu bem escolhe a cor". Aí então não somos mais nem queremos ser donos de nós mesmos, vamos preferir que aquela pessoa pela qual somos capazes até de chorar em colorido seja o nosso dono ou dona.
E agora, mais particularmente falando em você, Munir, você pertence primeiro à sua amada, depois à sua família e tem mais ainda: a nossa academia, aos seus inúmeros amigos, seus admiradores desconhecidos que lêem seus livros, seus escritos, ouvem suas palestras e por tanto esperarem de você tornam-se também seus donos.
Não, Munir, a resposta especialmente para você é não, você não é seu dono e acho que nem nunca foi. Você pertence a todos aqueles que o amam e admiram.
Isolina Bresolin Vianna - ABLetras cadeira 12