10 de julho de 2026
Internacional

Economia e clima podem ter salvo os bauruenses que vivem no Japão

Por Vitor Oshiro e Luciana La Fortezza | Colaboraram com Bruna Dias
| Tempo de leitura: 8 min

Apesar da proporção da tragédia, até o fechamento desta edição, não havia notícias de bauruenses atingidos pelo terremoto e tsunami. A explicação para o fato pode estar exatamente na economia e no clima do país.

Segundo o conselheiro do Clube Cultural Nipo-Brasileiro de Bauru, Júlio Kosaka, os brasileiros que vão viver no Japão se concentram na área ao sul do território, justamente a menos afetada pelos fenômenos.

"Na parte sul, estão localizadas as fábricas, que é exatamente onde os brasileiros vão trabalhar. São fábricas como de autopeças, por exemplo. Nessa parte, estão as cidades de Hamamatsu e Toyohashi, que é onde está a maior parte dos brasileiros", explica.

Além da questão econômica que divide o país entre esses dois pólos, a questão climática também pode ter influência no fato da maioria dos brasileiros ter escapado da tragédia. "O sul é mais quente e, por isso, é a área na qual os brasileiros preferem ficar. Já o norte é tomado por neve e bastante frio. Isso afasta quem está acostumado com o clima brasileiro", afirma Kosaka, que, na tarde de ontem, ainda esperava informações de uma sobrinha que vive no Japão.

E ele não era o único. Por todo o dia de ontem, ansiedade e pânico foram vividos em lados opostos do Planeta. Enquanto pessoas que residem no Japão lidavam com o caos instalado pela tragédia (leia o relato nessa página), familiares que moram em Bauru galgavam quaisquer notícias que pudessem acalmá-los. A falta de energia elétrica no país oriental não permitia tal comunicação e o desespero continuava.

Foi o caso da estudante Daniele Uehara, 23 anos, que tem tios e duas primas, todos de Bauru, morando no Japão há aproximadamente 10 anos. Todos residem no sul do país, área menos afetada com os tremores. Mesmo assim, a ansiedade foi grande.

"Vi as notícias na televisão por volta das 9h. Tentei falar com eles e não consegui. Só duas horas depois, minha tia (Neusa Tsuneko Uehari) me retornou. Mesmo sabendo que não era a área atingida, fiquei com medo, pois ela mora perto da praia", conta.

Após o contato, a estudante ficou mais calma, entretanto, o temor não desapareceu completamente. "Minha tia disse que o tremor ocorria de tempos em tempos. Não foi algo que deu uma vez e parou. Ficou ocorrendo ao longo do dia".

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Contatos


Por falta de energia em boa parte do dia em praticamente todas as áreas do Japão, algumas pessoas ainda não conseguiram contato com os familiares que moram nas áreas atingidas. Quem está nessa situação pode acionar o Consulado-Geral em Hamamatsu ? cidade onde mora um grande número de brasileiros. O Consulado disponibilizou aos familiares os e-mails info@consbrashamamatsu.jp ou assistencia@consbrashamamatsu.jp . Já o e-mail da Embaixada do Brasil no Japão é comunidade@brasemb.or.jp e o telefone, que deve ser acionado somente em casos de emergência, é o 00/XX/81 3 3404-5211.

O Consulado-Geral de Tóquio também atende no regime de plantão pelos telefones 00/XX/81 90 6949-5328 e 00/XX /81 3 5488-5665. A Embaixada do Japão no Brasil publicou em seu site www.br.emb-japan.go.jp links de operadoras que oferecem serviço de gravação de mensagens telefônicas de residentes no país. O Google também oferece serviço de busca por nome de desaparecidos no www.google.com/crisisresponse/japan quake2011.html .

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Contato ameniza desespero familiar


Ansiedade e temor semelhantes ao de Daniele Uehara foram vividos pelo também bauruense Tálvio Dias Nakao, 28 anos, cuja irmã Verônica Hatsumi Dias Nakao, 18 anos, reside desde dezembro do ano passado na cidade litorânea de Hamamatsu. Entretanto, nesse caso, o contato prévio com a jovem amenizou a situação.

"Minha mãe ligou a televisão e logo viu a notícia de terremoto e tsunami no Japão. Era por volta das 6h30 da manhã. Imediatamente, ela ligou para a minha irmã e conseguiu falar com ela", contou.

Segundo Tálvio, a irmã estava trabalhando em uma fábrica quando o tremor começou. A ordem foi para evacuar o prédio imediatamente. "Ela ficou apavorada porque já tinha sido emitido o alerta para tsunami. Mas, apesar de a cidade em que ela mora ser litorânea e para chegar à praia levar cerca de 20 minutos, o tsunami não afetou nada lá".

Ele ainda possui outra irmã que mora nessa mesma cidade. Venina Harume Dias Nakao, 26 anos, estava internada em um hospital no momento do abalo porque deu à luz a um bebê recentemente e necessitava de cuidados. "Ela também estava bem. O local onde mora fica mais perto da praia. A única orientação que eles tiveram foi para ficar distante do mar e procurar lugares seguros".

A jornalista Marisa Naomi Sei, 23 anos, é outra que trabalha em Bauru e ficou o dia todo de olho no outro lado do mundo. "Meu pai mora lá. Além dele, há um tio e primas. Eles moram perto de Tóquio. Fiquei sabendo que meu pai está bem, mas, ainda não consegui falar com ele. A região que ele mora está toda sem energia elétrica, telefones e água", completa, ansiosa.

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Agonia da espera


Quando o terremoto atingiu o Japão, o bauruense Kazuo Yanaba, que há oito anos vive em Hamamatsu (ao Sul), nem percebeu o tremor. Operava uma máquina na indústria de papelão onde trabalha. Seus colegas de outras seções, no entanto, sentiram o chão tremer, levemente.

Ainda assim, por conta da proximidade da fábrica com o mar, os funcionários foram dispensados do trabalho.

Além dele e da esposa, foram para o Japão mais duas filhas, que moram nas imediações de Hamamatsu. Todas estavam bem. Na manhã de ontem, uma outra filha do casal que ficou no Brasil (São Paulo) já havia ligado para ter notícias da família. "Estamos bem, mas muito preocupados com uns amigos da Seicho-No-Ie (que vivem na região mais atingida)", explicou o bauruense.

De acordo com ele, a apreensão fez com que conhecidos que habitam mais ao sul do Japão, em regiões menos atingidas, procurassem uns aos outros em busca de notícias daqueles que moram onde o terremoto provocou mais destruição (norte e nordeste). "Mas estamos sem comunicação, não conseguimos falar com ninguém. Teremos de esperar para ter notícias", falou.

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Professor relata detalhes do tremor em Tahakama


Vivendo no Japão há pouco mais de seis anos, poucas vezes tinha sentido um terremoto de tamanha magnitude, aliás, poucas vezes se viu um tremor tão forte. Vivíamos mais um dia comum de trabalho no arquipélago. Eu estava em um ótimo dia, pois comemorei 33 anos e ganhei vários presentes da minha família nesta data que acabou sendo tão trágica. Vivo em Takahama, uma pequena cidade da província de Aichi, região da grande Nagoia. Trabalho em uma escola localizada na cidade de Toyota, a Detroit japonesa. Fazia um belo dia.

Na escola, o turno da manhã transcorreu sem problemas. No período da tarde, voltei para meus afazeres e os alunos abriam os livros. Sentei-me para continuar o meu texto, e algumas palavras depois, algo estranho me ocorria.

Em determinado momento, senti um tremor, meu corpo ia para frente e para trás. Dei-me conta que o mesmo acontecia com os computadores. Nesse momento, sai correndo e, pelas janelas, via os alunos e professores assustados. Gritei para eles entrarem debaixo das carteiras, fiz isso em todas as salas. Orientei, com os demais professores, para que os alunos colocassem os capacetes de proteção e evacuamos o prédio. Levamos todos para a quadra esportiva.

Conduzimos os alunos para as salas de aula em segurança. Por precaução, mantivemos todos com os capacetes colocados. No Japão as escolas dispõem de capacetes em sala de aula para serem usados apenas em caso de tremores. Até este momento, não tínhamos noção da magnitude da tragédia.

Com os alunos recolocados nas salas de aula, voltei a trabalhar em meu texto. Busquei contato com minha esposa. Ela não atendia ao telefone e eu estava ficando preocupado, pois ela está grávida de 3 meses. Logo ela me ligou e contou do desespero que tinha acabado de passar. Tínhamos preocupação também em saber de nossa filha. Falei com minha sogra, que vive conosco, e estava tudo bem com ela. Enquanto conversávamos, algo em torno de 10 a 15 minutos após retornarmos às salas de aula, pouco depois das 15h, o chão tremeu mais uma vez.

Percebi o tremor logo no início e gritava para minha esposa que estava tremendo tudo outra vez. Despedi-me dela para que pudéssemos agir rapidamente. Ajudei a evacuar a escola novamente, chegamos na quadra. Desta vez, os alunos estavam mais apreensivos, e as crianças muito mais assustadas do que antes. O chão tremeu mais uma vez, mas bem de leve. Desta vez, ficamos por mais de uma hora na quadra. Ali recebíamos as terríveis informações do que estava acontecendo. Pela TV dos celulares ficamos assustados ao ver que o país fora atingido de norte a sul, principalmente o norte, onde as imagens do tsunami varrendo carros, pessoas e barcos fez os mais sensíveis chorarem copiosamente. Aguardamos até as 16h20, e mais uma vez, após os tremores terem cessado, ao que tudo indicava, retornamos com os alunos para as salas de aula.

Às 17h, a escola encerrou o expediente e as crianças desceram, ainda com os capacetes. Eu temia que os trens estivessem parados, mas em nossa região os estragos foram mínimos, e pude retornar para casa sem grandes problemas. Não conseguia falar com os amigos em Tóquio, uma professora que tem um filho que mora na região atingida, em Ibaraki, não conseguiu estabelecer contato.

Em plena madrugada, as pessoas voltam a pé para casa, o trânsito está parado e o fornecimento de gás está cortado. Pela TV acompanho as últimas notícias. Autoridades pediram para que a população não utilize o gás encanado por todo o país por precaução. As usinas nucleares estão possivelmente danificadas e um alerta foi emitido.

Escrevo este texto na madrugada do dia 12 no Japão, 11 no Brasil. Estou de vigília, em caso de algum novo tremor. Mochilas com alimentos e recursos já estão posicionadas na porta, minha família descansa, porém apreensiva. Sempre senti muitas saudades de Bauru. E hoje sinto muito, mas muito mais.

O bauruense Daniel Gimenes é professor e jornalista