08 de julho de 2026
Regional

Diálogo busca a prevenção contra droga

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 4 min

A grande inovação do programa em Agudos é buscar primeiramente o diálogo com o jovem para depois desencadear as ações preventivas. A campanha não vem com respostas prontas e nem aterroriza os jovens com a desculpa de informá-los sobre os perigos das drogas.

A coordenadora Ana Maria Duarte, da Escola Estadual Professor Farid Fayad de Agudos, conta que a abordagem do tema sobre droga começou com "roda de conversa". Nesse estabelecimento de ensino participaram alunos do ensino fundamental de 11 a 15 anos e do ensino médio de 15 a 18.

A princípio os organizadores deixavam como opção ao aluno participar ou não da campanha, mas aos poucos de 10 estudantes ampliou-se a toda escola. "Iniciamos com poucos alunos, mas na roda de conversa constatamos que os estudantes sabem muito sobre droga mais do que imaginamos. Especificamente, eles revelaram que o contato inicial para entrar no mundo das drogas começa em casa com a bebida alcoólica. Isso é preocupante, é nos churrascos familiares que se incetiva o consumo de bebida alcoólica". Estudos mostram que mais de 90% dos usuários adolescentes conhecem os efeitos e os riscos das drogas.

A professora Graziela Gonçalves Ferreira conta que os próprios pais incentivam os filhos a experimentar bebida alcoólica.

Nas conversas os alunos relatavam onde são os pontos e como acontecem o consumo de droga ilícita na cidade. "Como educadora não imaginava. O que eles relatam é a facilidade de ter acesso à droga. O que me assustou como é barato comprar droga: com R$ 2,00 R$ 3,00 e R$ 5,00 compram-se pedras de crack", relata. Uma pesquisa feita em 2009 pela Secretaria de Saúde de São Paulo indicou um crescimento anual de quase 140% no consumo entre pessoas com renda superior a 20 salários mínimos, mas levantamento da Universidade do Rio Grande do Sul indica que 72,5% da população em situação de rua de Porto Alegre usa o crack, segundo artigo "O flagelo do crack" assinado pelo deputado federal Gabriel Chalita (PSB).

Em Agudos, segundo Ana Duarte, a partir das "rodas de conversa" iniciou-se a instalação de painéis nas escolas de acordo com o interesse dos alunos desenvolvendo os temas. "Isso funcionou bastante", contou.

O que causou mais impacto foi o teatro. A coordenadora diz que o teatro é bastante real e possibilita dar continuidade na "roda de conversa" para discutir o assunto com os alunos. Na abordagem notou que nas famílias dos alunos há casos de dependentes químicos.

"Não enfrentamos resistência contra o projeto de abordagem das drogas. Até despertou interesse, afinal os alunos ensaiaram peça de teatro fora do horário de aula para abordar a temática, o que demonstra o interesse deles".


Cartas com relatos

A coordenadora Claudenice Sodré, da Escola Estadual Nilza Maria Santarém Paschoal, calcula que 70% dos 760 alunos se engajaram na discussão sobre droga.

Ela recebeu muitas cartas com relatos da experiência negativa do mundo das drogas. O estudante envolvido diretamente com droga não gosta de falar nas reuniões, mas usa a correspondência como forma mais íntima para confidência. "Na carta havia relato que o irmão usava droga e o estudante acabava presenciando", conta.

A "roda de conversa" é o ponto inicial para entender o problema. "Através dessa roda de conversa percebemos como tão grave é o problema das drogas. Havia aluno que eu não tinha ideia que ele tinha contato com droga. Ele contava que isso ocorria tanto na porta da escola como próximo de sua casa. Isso me assustou porque temos uma ideia do aluno e, de repente, é bem diferente. A droga está disseminada lamentavelmente", afirma a coordenadora.

Na visão da educadora, o projeto trabalha com toda a sociedade, não é uma ação exclusiva professor-aluno. Segundo ela, o dependente químico tem que ser visto diferente e não mais estigmatizado como "maconheiro" e isolado da sociedade. Segundo ela, essa visão vem sendo mudada. "A sociedade como um todo está interessada em combater as drogas, para tirar o jovem desse vício ", afirma.

Os alunos demonstram que todos estão preocupados no combate a droga. A "roda de conversa" é feita durante qualquer aula seja de Língua Portuguesa, Matemática, Ciência ou História. O tema é colocado e discutido, diz Claudenice Sodré. Na aula de Matemática, por exemplo, os cálculos servem para a tabulação das enquetes sobre levantamento do problema das drogas.

A professora também aprendeu nesse contato com os alunos. Integrante do Conselho Tutelar do município, Claudenice admite que foi conhecer sobre o crack há pouco tempo, mas admite que os alunos já tinham conhecimento de drogas.