08 de julho de 2026
Geral

Má alimentação aumenta peso da população

Vinícius Lousada
| Tempo de leitura: 8 min

Pesquisa divulgada pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) mostra que a fome e a desnutrição deixaram de ser grandes problemas para o brasileiro, que agora se preocupa com o excesso de peso.

Dados de 2006 mostram que 6,6% das crianças menores de 5 anos estão acima do peso ideal, enquanto apenas 2% apresentam déficit de peso em relação à altura. Em 1989, esse índice era de 7,8%.

Segundo o Ministério da Saúde, essa redução mostra que o Brasil atingiu as metas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o milênio: erradicar a fome e a pobreza extrema.

Entre adolescentes e adultos, o excesso de peso tornou-se uma preocupação ainda maior. Na faixa de idade entre 10 e 19 anos, 29% dos pesquisados estão acima do peso e 2,3% são obesos. Em indivíduos com mais de 20 anos, o excesso de peso atinge 41,1% da população e os obesos somam 8,9%. Por outro lado, apenas 2,8% estão abaixo do peso ideal.

Alguns dos fatores apontados como responsáveis pelas mudanças nesse cenário são a estabilidade econômica e os programas sociais voltados à população de baixa renda, como o Bolsa-Família. Essas medidas garantem que praticamente toda a população tenha acesso ao mínimo para que não passe fome. No entanto, será que essa população que agora tem poder de consumo está se alimentando bem?

Secretária do Bem-Estar Social em Bauru, Darlene Têndolo afirma que a erradicação da miséria é um fato consolidado na cidade e que ações conjuntas dos setores de Educação, Saúde e Assistência Social garantem que famílias em situação de vulnerabilidade se alimentem bem. "Todos os alimentos fornecidos para os serviços de emergência estão adequados às exigências do Conselho Municipal de Segurança Alimentar e todas as instituições vinculadas à Sebes possuem um cardápio submetido à avaliação de nutricionistas", alega.

Darlene explica que mesmo as famílias que recebem do governo auxílio em dinheiro são orientadas a priorizar a qualidade na alimentação e discernir os alimentos que fazem bem do que fazem mal à saúde. "Realizamos seminários e trabalhamos em parcerias com instituições como o Sesc, que tem o Programa Mesa Brasil, e o Sesi, que tem o Alimente-se Bem. As pessoas aprendem que podem se alimentar de forma saudável, gastando pouco", afirma.

Para a secretária, uma grande inimiga da alimentação saudável é a atuação intensa da publicidade de alimentos industrializados na mídia. "Quem não quer aquele chocolate, aquele salgadinho ou aquele refrigerante da televisão? Esses alimentos têm um poder de atração incrível pelo sabor, pela aparência e até pelas embalagens. Não temos como privar as crianças desses prazeres, mas é preciso moderação", pondera Darlene.

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Baixos preços sobrepõem-se à qualidade dos alimentos

Terezinha Maria de Fátima Pacheco, 45 anos, faz suas compras em um mercado do Parque Jaraguá, onde reside. Ela e seu filho de 17 anos vivem apenas com um salário mínimo por mês, fruto do trabalho do rapaz. "Estou desempregada. Nós recebíamos o bolsa-família, mas foi cancelado porque ele começou a trabalhar, apesar de continuar estudando", explica, com uma pequena lista de compras na mão.

Arroz e feijão não faltam na mesa de Terezinha. No entanto, ela reclama da alta do preço da carne. "Infelizmente, é difícil conseguir mistura todos os dias, mas a gente escolhe algumas opções mais baratas, como a salsicha, a linguiça e o hambúrguer", relata.

Sal, óleo e açúcar também estão na lista da dona de casa, que sofre de hipertensão e tem o colesterol alto. "A gente come muita coisa frita no óleo. Eu não poderia por causa do colesterol, mas é muito difícil de se acostumar", explica.

Terezinha afirma que não é comum ter refrigerantes, doces e outras guloseimas em casa porque falta dinheiro para comprá-las. No entanto, suco não pode faltar: "Eu compro daquele de pó e a gente mistura com água e açúcar". Questionada se esse tipo de bebida já não é vendida adoçada, ela responde que seu filho não gosta se não colocar açúcar.

Geralda Vieira da Silva Romano, 50 anos, também mora no Parque Jaraguá e vive com o marido, a mãe e dois filhos adultos. Segundo ela, 40% da renda familiar ficam no supermercado. "A gente procura aproveitar as promoções. No sacolão, a gente gasta pouco e consegue levar legumes para a semana inteira. Como a carne está cara, a gente se adapta substituindo o bife por uma carne de panela ou uma carne moída", explica.

Segundo ela, o cardápio na sua casa é composto todos os dias da semana, no almoço e no jantar, por feijão, arroz, algum tipo de carne e legumes, normalmente batata, cenoura ou tomate. "No fim de semana, a gente procura variar com uma macarronada", conta Geralda.

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Pessoas estão acima do peso e desnutridas, diz nutricionista

A nutricionista Mariana Inri de Carvalho constata em seus atendimentos uma realidade que parece contraditória: a cada dia, as pessoas estão mais acima do peso e mais desnutridas. Segundo ela, isso acontece por conta do excesso de gordura e baixo índice de vitaminas e sais minerais na alimentação dos brasileiros.

As frituras, carnes gordas, refrigerantes, doces, pães, massas, alimentos embutidos e muito condimentados, como linguiça, salsicha, presunto, mortadela e salame, favorecem o acúmulo de gordura no organismo. Por outro lado, a ingestão de fibras, frutas, legumes e verduras pode contribuir para a saúde do corpo.

A correria do dia a dia também faz com que as pessoas deixem de lado alguns hábitos saudáveis, como comer pouco a cada três horas e praticar atividades físicas. "Com a falta de tempo, acabamos optando pelos restaurantes fast-food e consomem alimentos com muita gordura e quantidade excessiva de sal", afirma.

Mariana explica que é muito importante o acompanhamento de um profissional nutricionista para as pessoas que estão acima do peso: "É preciso entender que a situação não é apenas estética, mas envolve saúde. Nós trabalhamos com a reeducação alimentar".

Segundo Mariana, o preço dos alimentos não deve ser justificativa para uma má alimentação. "As pessoas têm a falsa ideia de que custa caro comprar alimentos saudáveis, mas sempre há as frutas e os legumes de época. Também associam muito o peixe à boa alimentação, mas existem carnes vermelhas magras recomendadas", aponta.

Ela conta que esses profissionais analisam caso a caso a quantidade ideal do consumo diário de calorias. "Os rótulos dos produtos usam como base 2.000 kcal diárias, mas varia muito de indivíduo a indivíduo porque devem ser consideradas possíveis patologias e os hábitos de cada pessoa", explicou.

Segundo a nutricionista, o verão é um período propício para ganhar peso, pois o metabolismo fica mais lento. "No inverno, nosso organismo gasta mais calorias para aquecer nosso corpo. Por isso, no calor, é fundamental priorizar alimentos leves e ingerir muito líquido, especialmente água mineral, sucos naturais, chás e água de coco", afirma.

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Mudanças refletem-se nas vendas

Maria das Graças Leite Marcuzzo é proprietária há 17 anos do mercado em que Terezinha e Geralda fazem suas compras, no Jardim Jaraguá. Segundo ela, o poder de consumo da população do bairro aumentou consideravelmente e, consequentemente, cresceu também o volume de vendas em seu estabelecimento.

"O perfil do consumo também mudou muito. Cresceram muito as vendas de refrigerantes, especialmente os de marca menos conhecida, de preço mais baixo", afirma. Ela aponta também o aumento na comercialização de leite longa vida, alimentos prontos, congelados e industrializados. "O que nós vendemos muito são salgadinhos. É um tipo de produto que atrai muito as crianças e custa pouco. Algumas marcas saem por 50 centavos", contou a comerciante.

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Brasileiros comem menos arroz e feijão

A Pesquisa de Orçamentos Familiares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que tem diminuído cada vez mais o consumo de arroz e feijão entre os brasileiros. Entre 2003 e 2009, a aquisição média anual per capita (quanto de um produto a família adquire em um ano, dividido pelo número de pessoas da família) caiu 40,5% para o arroz e 26,4% para o feijão.

Segundo dados divulgados, o consumo de açúcar refinado caiu 48,3%, mas ainda está acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. No entanto, a ingestão de frutas e hortaliças é quatro vezes menor que o indicado (400 gramas diários).

Entre os produtos que apresentaram aumento no consumo per capita médias, destacam-se o refrigerante de cola (39,3%), a água mineral (27,5%) e a cerveja (23,2%).

Alimentos industrializados e congelados também ocupam cada vez mais espaço na alimentação dos brasileiros. Entre as famílias de maior rendimento, foi constatado crescimento na ingestão de gordura e diminuição na de carboidratos.

A pesquisa indica ainda que a população tem comido mais fora de casa. Os gastos com alimentação fora do domicílio, que correspondiam a 24,1% do total de gastos com alimentação em 2003, se elevaram para 31,1% em 2009.


Mortes por obesidade poderiam ser evitadas

De acordo com levantamento do Ministério da Saúde, a obesidade já provoca reflexos na mortalidade dos brasileiros. Doenças cardiovasculares, cérebro-vasculares, diabetes e alguns tipos de câncer podem ser ocasionados ou acentuados pelo excesso de peso.

Dados de 2004 mostram que, dos 447.329 óbitos decorrentes de doenças crônicas relacionadas a hábitos alimentares, até 259.143 deles poderiam ser evitados. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão afirmou que vai apresentar nos próximos dias um Plano de Enfrentamento da Obesidade à presidente eleita, Dilma Rousseff, propondo ações preventivas e integradas.