11 de julho de 2026
Articulistas

?O filme que o Oscar não viu?

Fabrício Aro
| Tempo de leitura: 2 min

Baixada a poeira de mais uma previsível entrega de prêmios, o Oscar deveria deitar no divã e olhar melhor ao seu redor. A relação dos premiados não reflete o que se faz de melhor no cinema da atualidade. E é justamente por isso que festivais sérios como Cannes, Berlim e Veneza dão de ombros a essa pseudo-realidade e apresentam um panorama cinematográfico que muitas vezes fica invisível a olho nu.

É necessária hoje uma busca apurada para apreender o que diretores e produtores andam fazendo de melhor. Vincere ("Vencer", em italiano), de Marco Bellochio, co-produção de Itália e França rodado em 2009, é um desses achados. Apresentado no festival de cinema de Cannes do ano passado, foi aplaudido por público e crítica ao unir um roteiro (dito) tradicional a uma personalidade estética apurada e dando novos significados a uma figura histórica. Os fatos descritos são inspirados do livro do jornalista italiano Marco Zeni, que revelou detalhes sórdidos que a biografia do Duce tentou apagar.

Vemos o Benito Mussolini, que trocou sua identidade socialista para uma extrema direita que ajudou a assombrar a Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Em paralelo, Benito Mussolini, filho bastardo do ditador com Ida Dasler (interpretado pela atriz Giovanna Mezzogiorno), que sofre as conseqüências tanto da busca de sua mãe por uma legitimidade, como pelo próprio regime político que vê seu pai impor em sua existência. Benito e Benito (interpretados pelo mesmo ator, Fillipo Timi). Ao assumir duas figuras: a real e "fictícia" para o mesmo personagem, o diretor achou uma brecha para um estudo profundo da psique humana. E com Ida, entrelaça a figura de mulher e mãe de Benito. Aquela que odeia o pai que não reconhece seu filho e a que ama incondicionalmente um filho carente de uma paternidade.

Vincere não chegou nem a ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro desse ano. Isso chega a ser um alívio, pois impediu a obra de entrar no modus-operandi da Hollywood atual. O filme de Bellochio já está na lista dos melhores do século XXI para muitos, por sua corajosa narrativa, uma fotografia que beira à obra-prima, obscura e bela ou pela onírica trilha sonora minimalista.

A quem embarcar na viagem, uma dica que vem do mestre Nelson Rodrigues: "A unanimidade é burra". E é por isso que será muito mais fácil ter acesso ao Discurso do Rei (grande vencedor do Oscar 2011) do que a Vincere. Sejamos persistentes, que sempre busquemos o novo ao invés de uma monótona escolha automática. Hoje em dia, no cinema contemporâneo, são as entrelinhas que importam. O Discurso pronto já ganhou estatuetas. Hoje, daquilo que não se fala é o que realmente interessa!


O autor, Fabrício Aro, é graduado em arquitetura e urbanismo e pós-graduando em comunicação pela Unesp-Bauru