09 de julho de 2026
Polícia

Tráfico gera média de uma prisão ao dia

Por Vitor Oshiro | Com Mariana Cerigatto
| Tempo de leitura: 9 min

Atacado, varejo, lucros e ciclo econômico. Essas são apenas algumas das palavras utilizadas nesta reportagem que, ao contrário do que parece, não trata de economia. Na verdade, são expressões citadas pelas autoridades policiais e que denotam como a comercialização de entorpecentes assumiu caráter de "negócio empresarial" e que, pelas estratégias utilizadas pelos traficantes para "minimizar os prejuízos", acaba gerando, conforme levantamento extraoficial feito pelo JC, a média de uma prisão por dia em Bauru.

Hoje completam exatamente 83 dias do ano. Analisando todas as reportagens que envolvem o tráfico de drogas publicadas no JC desde 1 de janeiro de 2011 até o fechamento desta edição, este foi o mesmo número de pessoas presas por comercialização de entorpecentes na cidade.

Entre essas abordagens, não há faixa etária que se sobressaia - haja vista a participação de menores em inúmeras ocorrências -, e o que mais se percebe é a atuação da polícia sobre as famosas "bocas" de comercialização das drogas.

Segundo os policiais, tanto civis quanto militares, o número de prisões e apreensões em relação ao tráfico realmente cresceu. Entretanto, a proporção quantitativa do que é apreendido não é tão grande. Eles apontam que isso ocorre justamente pelo sistema utilizado pelos traficantes para, em eventual localização policial, não ter grandes prejuízos.


Pulverização


O titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) da Polícia Civil de Bauru, Silberto Sevilha Martins, explica que "o tráfico migrou para a pulverização. Nas ?bocas? mais conhecidas, o traficante acaba deixando a droga em um local próximo e fica vendendo em pequenas quantidades. Quando o produto que está com ele acaba, ele vai até lá e pega mais drogas para vender".

O delegado exemplifica o sistema exatamente com uma prisão feita na semana passada. Na ocasião, foi constatado que o traficante separava as 78 porções de cocaína em seis sacos plásticos e deixava em um terreno nas proximidades de onde ele comercializava as drogas.

"Eles fazem isso para não serem pegos com grandes quantidades e também não perder o produto. Geralmente, quem vende pegou a droga de alguém. Se ele perde isso, o prejuízo é ainda maior do que somente ser preso. Ele precisará pagar o produto perdido, mesmo que esteja dentro da cadeia", aponta o delegado Silberto Martins, referindo-se aos autores como "microtraficantes", em alusão metafórica aos microempresários.


?Formigas?


O tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4º. Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º. BPM-I), também concorda com o caráter comercial assumido pelo tráfico de drogas. "E é um negócio de faturamento muito alto que precisa ser coibido. Como movimenta altas cifras, ele ?escraviza? essas pessoas que acabam sendo presas nas ?bocas?, que são as chamadas ?formiguinhas? do tráfico".

Ainda na semana passada, outra ocorrência mostra como o caráter do tráfico assumiu a vertente de negócios. Na ocasião, Cristiano Neves da Silva, 20 anos, foi detido após se desvencilhar de um frasco com 22 porções de maconha, duas de cocaína e quadro pedras de crack. Além da droga, foram localizados com Cristiano R$ 221,00 que ele teria conseguido em apenas três horas de "trabalho".

Também na última semana, outra ocorrência mostrou a lucratividade do tráfico. Em um bar, onde policiais da Força Tática da PM identificaram ser um ponto de venda de drogas, foram localizados entorpecentes e cerca de R$ 10 mil em dinheiro.

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Atacado e varejo


A maioria das operações da polícia para coibir a ação de microtraficantes nas "bocas" incidem no varejo, que são locais onde a droga é vendida aos usuários. "Nossa ação se intensificou no varejo. Estamos atuando em ?bocas? mais conhecidas e onde o tráfico é mais pesado. Por isso, percebe-se que o número de prisões aumentou. Como o tráfico pulverizou e envolve mais gente hoje, mais pessoas são presas", aponta o titular da Dise, Silberto Sevilha Martins.

Ele, entretanto, afirma que o atacado - as apreensões de grandes cargas de drogas - também é alvo das ações policiais. "Fazemos investigações de forma profissionalizada e com a inteligência do nosso setor no atacado. Ainda há prisões em grande quantidade, porém, demoram mais. É algo mais a médio e longo prazos".

Neste mês, o quadro foi exceção. Duas operações desfalcaram o atacado do crime. Uma delas, realizada pela Dise, resultou na apreensão de 12 quilos de cocaína pura no Parque Jaraguá. Já na outra, policiais do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR) da PM localizaram em um ônibus que passava por Bauru e tinha como destino Jaú mais seis quilos de maconha.

O tenente-coronel PM Nelson Garcia Filho explica que é necessário agir exatamente sobre o atacado. "É preciso coibir o tráfico de qualquer maneira. Agir sobre o varejo é uma forma de atacar os traficantes, porém, quando um é preso, ele logo é substituído por outro. É necessário agir sobre os ?administradores? do tráfico e quebrar o ciclo econômico da droga", complementa.

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?Traficantes querem facilidade e desarticulação?, diz tenente Mandaliti


Como qualquer empreendimento comercial em expansão, galga-se espalhar os produtos e os pontos de venda em maior área possível. O mesmo ocorre com o tráfico de drogas. Segundo o tenente Bruno Mandaliti Scarp, comandante interino da Companhia de Força Tática da PM, "o traficante quer que o usuário encontre o produto em qualquer lugar da cidade. Por isso, ele espalha os pontos de venda".

O tenente explica que, ao mesmo tempo, essa ramificação dificulta o trabalho dos policiais. "Com o aumento do número de pontos de venda, fica mais difícil patrulhar todas as áreas. Eles querem justamente desarticular o trabalho da polícia. Porém, estamos empenhados nisso e prendendo bastante".

Outra constatação feita pelo tenente Mandaliti é a utilização de adolescentes nas "bocas". Além de apontar que o motivo desse quadro é de assumirem o produto em eventuais abordagens policiais e, assim, livrar o adulto, ele explica que há ainda o objetivo de enganar a fiscalização.

"Às vezes, encontramos crianças traficando. Eles sabem que uma criança chama bem menos atenção do que um adulto. Os policiais são treinados para verificar se está ocorrendo algo ilegal, porém, dificulta o trabalho. Muitas vezes, a denúncia não chega porque a população não consegue imaginar que aquele menino de 10 anos está vendendo drogas", conclui o comandante interino da Força Tática, Bruno Mandaliti Scarp.

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Polícia Civil: 200 flagrantes em 2010


Segundo o delegado seccional da Polícia Civil de Bauru, Benedito Antônio Valencise, no ano passado os números do tráfico na cidade já foram grandes. De acordo com ele, foram cerca de 200 flagrantes, o que significa em média mais de um caso a cada dois dias.

"Isso aumenta muito se for levado em conta o número de pessoas presas. Há flagrantes em que são presos muitos indivíduos. Apesar do problema, vejo o número como positivo, que mostra estarmos atuando bastante", explica.

Valencise aponta também que o tráfico de drogas realmente virou comércio. "É difícil dizer isso, porém, é a verdade. O tráfico existe em todo lugar e já virou um negócio. Não adianta falar com meias palavras. É uma realidade", completa.

Para o delegado seccional, a polícia trabalha bastante, entretanto, é preciso que a lei seja mais coercitiva. "A lei aumentou o benefício do traficante. Hoje, em alguns casos, ele pode cumprir um sexto da pena e sair. A despenalização do usuário também é algo que impulsiona esses números". Até mesmo o jurista Damásio de Jesus afirma que, no estágio atual da criminalidade, é favorável à penalização do usuário, conforme matéria publicada ontem no JC.

Outro apontamento na legislação feito por Valencise é exatamente a condenação do suspeito ser guiada pela quantidade de drogas com ele, o que incide exatamente na propagação dos microtraficantes. "É um absurdo o pequeno traficante ter uma pena menor. Todos deviam ser tratados de forma igual. Qual é o traficante mais perigoso: aquele que vende grandes quantidades ou aquele que está na sua casa vendendo para seu filho?", questiona o delegado seccional Benedito Valencise.

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Sistêmico, tráfico se espalha por cidades menores, afirma Garcia


Para o comandante do 4º. BPM-I, Nelson Garcia Filho, a pulverização estratégica na venda de drogas realmente contribui para o maior número de envolvidos no tráfico e, consequentemente, nas prisões, porém, aponta que outro fator também deve ser analisado: o crack. "A epidemia dessa droga também colabora para o aumento desses números".

Com esses fatores, Garcia revela que a criminalidade está se instalando e crescendo em cidades de portes menores que, antes, eram tranquilas. "Municípios como Borebi, Pongaí, Uru e outros da região estão com bastantes pontos de tráfico. Justamente por ser sistêmico, é algo que se torna cada vez mais crescente e que estamos trabalhando para coibir de forma ostensiva?, completa.

O tenente-coronel associa ainda o tráfico a todos os outros tipos de crime e, especificamente em Bauru, afirma que o problema incide sobre a crescente estatística de roubos de veículos.

"Verificamos muitos bandidos que estão roubando veículos e abandonando duas ou três quadras a frente. Eles subtraem os objetos internos e, provavelmente, usam como moeda de troca no tráfico", conclui o comandante Nelson Garcia Filho.

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Escolas voltam a ser alvos dos ?agentes de venda? de entorpecentes em Bauru


Outra preocupação é em relação à proximidade do tráfico com as escolas. Segundo o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4.º BPM-I, por um período essa prática entrou em relativo desuso, mas parece ter voltado à tona.

"É uma preocupação que está crescendo e estamos verificando que realmente essa prática voltou. Fizemos reuniões nas escolas municipais e estaduais para intensificar esse controle. Também acreditamos que o tráfico perto das escolas possa contribuir para os crescentes números de agressões e evasões constatados ultimamente", explica.

Um caso registrado ontem reafirma a preocupação das autoridades. Após 30 dias de investigações e com mandado de busca em mãos, a Polícia Civil deteve Elton Jhones Leite Cardoso, de apenas 18 anos. Após revistar a residência do acusado, que fica na quadra 2 da rua Angelo Svizzero, no Bauru 2000, policiais da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) recolheram 20 gramas de cocaína, 5 porções pequenas e uma porção maior de maconha que pesaram 50 gramas. Além disso, um pé de maconha de aproximadamente 1,20m também foi achado no fundo do quintal do jovem, em meio a uma horta.

De acordo com informações do delegado Carlos Alberto Gomes da Rocha Silva, as porções de cocaína e maconha estavam escondidas sobre uma pilastra da cozinha da residência. Segundo o delegado, Elton assumiu a propriedade dos entorpecentes e alegou que fazia a revenda deles. "As investigações apontaram, ainda, que Elton faria a revenda das substâncias em uma escola nas imediações do bairro em que morava", revelou Carlos Alberto.

O acusado foi autuado por tráfico de entorpecentes e encaminhado para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru.

No último dia 2, um jovem de 16 anos foi abordado com cocaína no Núcleo Nova Esperança, nas proximidades do Centro de Atendimento Integral à Criança (Caic), escola municipal de educação infantil. Conforme a estratégia já citada, em um terreno próximo, foram localizadas outras porções de maconha e crack escondidas.