Sujeira pelos corredores, falta de iluminação, salas trancadas sem utilização, leitos desativados e falta de médicos. Este é o cenário do Pronto-Socorro (PS) Bela Vista. A crítica sobre a precária estrutura de atendimento não é apenas da população, mas dos próprios servidores, que apontam condições inadequadas para trabalhar diante falta de infraestrutura.
A situação, que remete ao acúmulo de má gestões passadas, levou o Sindicato dos Servidores Municipais (Sinserm), junto ao Conselho Gestor do PS Bela Vista, a chamar a atenção dos vereadores da Câmara Municipal.
Eles propuseram que os vereadores visitassem as instalações da unidade para constatar o abandono do local. Outro objetivo da reunião com os membros do Legislativo foi discutir e repudiar uma proposta de terceirização que tramita na Câmara, o projeto de lei nº 25/11, que autoriza o município a repassar recursos públicos municipais para entidade do setor privado.
Com o convênio, seria possível contar com a prestação de serviços médicos na área de urgência e emergência em regime de plantão médico no PS Bela Vista. O valor estimado para essa terceirização é de R$ 1.863.920,00.
Durante o encontro realizado ontem, apesar de todos os vereadores terem sido convidados, apenas cinco deles - Roque Ferreira (PT), Fernando Mantovani (PSDB), Giba (PSDB), Moisés Rossi (PPS) e Chiara Ranieri (DEM) - compareceram ao PS. Eles foram acompanhados pelos próprios funcionários da unidade e levados às alas do prédio.
O grupo se deparou, durante o percurso, com salas abandonadas, inclusive, uma delas tinha cerca de 26 leitos desativados que precisaram ser encaminhados para o PS Central. Sujeira, entulho acumulado, cadeiras quebradas, locais sem iluminação, entre outros problemas também chamaram a atenção dos vereadores, que prometeram levar as críticas ao Poder Executivo.
Falta de médicos
Para os representantes do Sinserm e do Conselho Gestor do PS Bela Vista, mais médicos devem ser contratados para conseguir atender toda a demanda da população. Esse problema afeta diretamente a unidade, que precisa constantemente deslocar sua equipe para o PS Central.
Contudo, o deslocamento acaba deixando a unidade central mais afogada ainda, pois quem procura pelo PS Bela Vista não encontra atendimento e acaba recorrendo ao Central.
"Às vezes, o problema do paciente é uma dor de cabeça, que pode ser resolvida na unidade básica de saúde. Mas, por não encontrar profissionais, o paciente acaba indo para uma unidade de emergência, que é o PS Central, que deveria atender apenas casos de extrema urgência", expõe Inocência Maria Gonçalvez, coordenadora do Conselho Gestor do PS Bela Vista.
Assim, uma saída para o município seria terceirizar o serviço para garantir o atendimento à população. Porém, tal saída não agradou sindicatos nem conselhos.
"Terceirizar é precarizar o serviço. A saúde é um dever do Estado", disse o diretor do Sinserm, Valdecir Rosa. O vereador Roque Ferreira também se declarou contra o projeto de terceirização dos serviços.
"A situação vista aqui no PS Bela Vista é um resultado de mais de 20 anos de má administração. A privatização de serviços para contratar médicos é, no meu ponto de vista, ilegal. A Saúde tem hoje 180 médicos e muitos deles poderiam fazer plantões no PS Bela Vista. Para garantir o atendimento, sou a favor também de os médicos passem a se dedicar de forma exclusiva ao trabalho nas unidades", comentou.
Terceirização de médicos
Na avaliação do Sindicato dos Servidores Municipais (Sinserm) e do Conselho Gestor do PS Bela Vista, o município não deve se preocupar penas com a contratação de médicos.
Para os representantes dessas entidades, são necessários programas específicos que atendam à população. As unidades de saúde precisam não apenas de médicos, mas de outros profissionais, como enfermeira, psicólogas e também melhores condições de trabalho dentro de uma infraestrutura adequada.
O secretário municipal da Saúde, Fernando Monti, justificou a opção pela terceirização. "Estamos recorrendo à contratação de médicos por terceirização por pura necessidade, e não por opção. Não vejo outra saída pela administração pública a não ser terceirizar o serviço. As pessoas dizem que é dever do município contratar médicos, mas a prefeitura tentou fazer essa contratação por concurso e não conseguiu. Então, essa é a saída viável para conseguir atender a população", salientou Monti.
"Não achamos que o convênio com uma entidade privada é um modelo a ser implantando em todas as unidades de saúde. Mas, pelo compromisso que temos com a população, essa é a alternativa viável, centrado no PS Bela Vista somente. Alguém tem outra solução?", questionou.
Apesar das críticas às deficiências e condições de trabalho do PS Bela Vista, o secretário ressaltou que a precariedade é uma herança de administrações passadas e que está investindo em políticas de promoção de saúde.
"Prova disso é a implantação das Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) em Bauru. Essas unidades terão toda estrutura para atender os pacientes, inclusive uma unidade deve começar a funcionar próximo ao PS Bela Vista dentro de aproximadamente 60 dias. O programa Saúde da Família também está sendo expandido", concluiu.