08 de julho de 2026
Nacional

Variações no DNA de parte da população pode explicar enigma da ?Terra dos Gêmeos?

Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Porto Alegre - Parece estar se dissipando o mistério que cercava a pequena Cândido Godói e seus cerca de 7 mil habitantes. A "Terra dos Gêmeos", situada no noroeste gaúcho, deve sua fama a ínfimas variações no DNA de parte da população, diz uma nova pesquisa.

Para o trio de cientistas responsável pela análise, trocas de uma só "letra" química do genoma, chamadas de SNPs (pronuncia-se "snips") favoreceriam a viabilidade das gestações de certas mulheres do município. E isso explicaria a incidência de gêmeos fora do comum.

"Na verdade, no município de Cândido Godói como um todo, essa incidência é de 1,5%, o que não está significativamente acima da média mundial de 1%", explica Ursula Matte, bióloga do Hospital de Clínicas de Porto Alegre que integra a equipe.

No entanto, quando se olha uma localidade da cidade, a chamada Linha São Pedro, a proporção sobe para 7%. É o que mostram cerca de 6 mil registros de batismo (excelentes indicadores de nascimentos num município quase totalmente católico) que vão de 1959 a 2008.

Desde 1927, calcula-se que 144 nascimentos de gêmeos tenham ocorrido ali, conta Vanuza Dresch, funcionária da secretaria de Educação e Cultura de Cândido Godói. "Desse total, três foram gestações de trigêmeos", diz Dresch, que não teve companheiros na barriga da mãe. "E nenhum dos meus quatro filhos é gêmeo", afirma ela.

Ursula Matte e suas colegas Lavínia Schüler Faccini e Patricia Prolla, ambas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ainda não revelam a família de genes nos quais há a ocorrência dos SNPs típicos dos gêmeos da região. Os dados serão detalhados em artigos já submetidos para publicação em revistas científicas internacionais.

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Experimentos de Mengele


Porto Alegre - A análise cuidadosa dos registros de batismo de Cândido Godói (RS) também deve sepultar um dos mitos mais ridículos sobre os gêmeos da cidade: o de que haveria ali o dedinho do médico nazista Josef Mengele (1911-1979).

Sim, o responsável pelos horrendos experimentos com humanos no campo de concentração de Auschwitz tinha uma tara macabra por gêmeos. E sim, ele passou a maior parte de seus anos pós-guerra na América do Sul.

"Mas, quando a gente olha a proporção de gêmeos na cidade entre 1927 e 1959, fica claro que ela era mais ou menos a mesma antes e depois da vinda de Mengele", explica Ursula Matte, coordenadora da nova pesquisa. "Foi bom para encerrar de vez esse assunto", diz Vanuza Dresch, da Prefeitura de Cândido Godói.

Mesmo sem esses indícios, era esperado que Mengele fosse incapaz de produzir a colheita de gêmeos. É que, além de canalha, a "ciência" nazista era um bocado burra. Os testes de Mengele com gêmeos (que envolviam costurar dois deles para "criar" um gêmeo siamês) eram mal projetados, provavelmente mera desculpa para seu sadismo. E ele ignorava o funcionamento do DNA - como, aliás, os cientistas decentes dos anos 1940.