Os três aventureiros brasileiros Leônidas de Oliveira, Francisco da Cruz e Mário Fava dirigiram, no início, por entre picadas abertas para a construção da ferrovia Noroeste do Brasil. Para seguir viagem, lançaram mão de facão, foices e até mesmo de dinamite, principalmente no quase intransponível relevo andino, muitos quilômetros adiante. O primeiro megaobstáculo enfrentado pelo trio foi a travessia do rio Paraná.
Para ganhar o Estado de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul), eles acamparam 15 dias ao lado da margem, onde construíram uma balsa para acomodar os Ford- T. Animais ferozes (uma onça-pintada atacou o mecânico Fava, que ainda passaria outros apuros, como no episódio em que o carro guiado por ele acabou amparado por uma árvore após despencar em abismo), insetos, tempestades "apocalípticas", doenças e avarias mecânicas acompanhariam os aventureiros por milhares de quilômetros e uma longa década pela frente.
Saga em selva e pântanos
O ramal brasileiro, que termina em Ponta Porã, divisa com o Paraguai, tem diversas nomenclaturas oficiais e é intercalado por vias estaduais e uma federal, a BR-116. Depois de Ponta Porã, última cidade brasileira, a Panamericana adentra o território paraguaio. Rumo ao Norte, a estrada tem dois "marcos zeros": Ushuaia, na Argentina, e Quellon, no Chile, países onde a rota, de fato, tem nome e siglas oficiais. Um ramal transversal que sai de Buenos Aires é o elo entre as vias paralelas, que se tornam caminho único na cidade chilena de Valdivia.
O trecho que sai do Rio de Janeiro e corta os territórios paulista e sul-matrogrossense de ponta a ponta (de Leste para Oeste) não ganha diretamente o eixo principal Norte-Sul. Tanto é que, de acordo com o livro, os três expedicionários, após ganharem o Paraguai, "desceram" o mapa até a capital argentina, margearam a fronteira com o Uruguai e, aí sim, retomaram o Norte novamente, rumo à Bolívia, Peru e Colômbia.
Para romper a muralha dos Andes e cruzar o frio do altiplano na rota que acompanha o costado sul-americano do Pacífico, os três aventureiros, reforça Beto Braga, tiveram que vencer mais que adversidades geográficas ou climáticas. Eles estavam a bordo de uma máquina que, apesar de considerada robusta e versátil para a época, precisava de reparos preventivos e de manutenção.
Aí entra em cena a faceta heróica do mecânico de Bariri, ressalta o autor do livro, fã de automóveis. Habilidoso, Fava sabia improvisar quando preciso. "Na falta de óleo para lubrificação, banha de porco foi utilizada", detalha Beto Braga. "Problemas como não existir posto de gasolina, borracharia ou loja de auto peças eram superados por acidentes geográficos incríveis e clima inóspito", relata Braga. Ele lembra que já naquela época usaram álcool destilado de cereais como incremento ao combustível dos Ford-T.
Desertos, mais selva, rios caudalosos e praticamente intransponíveis, como a pantanosa divisa terrestre entre Colômbia e Panamá, que também marca a fronteira entre as Américas do Sul e Central. Até hoje o local é considerado de difícil trânsito, característica que favorece o narcotráfico na região, principalmente armas e coca. Há oitenta anos, a inospitalidade não freiou Leônidas, Francisco e Mário.
Pelo drama do terreno, pantanoso e capaz de submergir um carro inteiro, os viajantes foram obrigados a dar um breve descanso aos intrépidos Ford-T, que foram desmontados e transportados, peça a peça, no lombo de animais, que fizeram a travessia dessa selva.
Percurso será refeito
Apaixonado por automobilismo, especialmente pelo Ford- Modelo T (guarda um, fabricado em 1927, na garagem), Braga vai refazer, ao lado da família, o caminho dos expedicionários e ainda acrescentar algumas centenas de quilômetros, pois vai distribuir cópias do livro em todos os países envolvidos na pioneira rodovia e também no Chile e Canadá, países fora do roteiro dos viajantes dos anos 1920. "Essa paixão por automobilismo somou-se à esse lado aventureiro. É uma carga genética, penso em dar a volta ao mundo desde criança", empolga-se. Com previsão de saída para 16 de abril, a nova expedição também partirá do Rio de Janeiro e só vai parar no Alaska, com retorno previsto para 2012.
A aventura que, segundo Beto Braga, vai gerar outros livros, programas de TV e documentário tem o objetivo maior de reafirmar a história e comprovar, com documentos, o feito dos brasileiros. O projeto é financiado pelo autor e apoiado pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura, e Ministério das Relações Exteriores. O lançamento do livro tem apoio do Museu da Casa Brasileira, Jornal da Cidade e É+Art. Em Bauru, será lançado em 8 de abril, no É+Art.
Reconhecimento
Beto Braga não esconde o descontentamento com a falta de reconhecimento do Brasil com a façanha do trio de viajantes. Para ele, o País, que está "de frente" para o Atlântico, mas de costas para os países latino-americanos e, por conta disso, ignora os feitos dos legítimos heróis.
Apesar do comandante da expedição, o militar Leônidas, ter sido laureado com cargo diplomático na Bolívia, e da participação da Fava em outras importantes páginas da história, como a abertura do caminho que seria a atual rodovia Belém-Brasília ? há poucas informações sobre o que aconteceu com o engenheiro Francisco, explica o autor.
Mário Fava concedeu entrevista ao memorialista bauruense pouco antes de morrer, e, segundo Beto Braga, mesmo aos 93 anos demonstrava grande vibração ao lembrar da jornada pan-americana, época em que era chamado de "intrépido". O mecânico, detalha o escritor, morreu em janeiro de 2000 e, mesmo dez anos após o sepultamento, nunca recebeu as honras merecidas. Tampouco os veículos usados na viagem, cobiçados até mesmo pelo primeiro empresário a implantar sistema de fabricação em série de automóveis, recebem o devido tratamento. "Um dos Ford T está no museu da CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos), em São Paulo", cita.
O segundo carro, que "sobreviveu" à neve, altitude, água e quilometragem, apodreceu num terreno, de propriedade do Museu do Ipiranga, também na capital paulista.