07 de julho de 2026
Articulistas

Março e a mulher

Rossana Teresa Curioni Mergulhão
| Tempo de leitura: 4 min

Todo mês de março, nos diversos setores da sociedade, há manifestações lembrando o dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. Alguns, como estratégia de marketing, outros enaltecem a data, muitas vezes nem mesmo sabendo a razão da institucionalização desse dia.

Todas as manifestações são bem-vindas, porém, não é assim que conseguiremos extirpar a discriminação contra a mulher. O fim da discriminação reclama novas posturas, novas formas de agir. A luta é de todo dia, de cada dia e começa por admitirmos que ela existe, muitas vezes camuflada, mas seus tentáculos aí estão.

No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte- americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como: redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas diárias de trabalho), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

No ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o dia 8 de março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem às mulheres que morreram na fábrica em 1857 e somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU - Organização das Nações Unidas.

Passaram-se 154 anos e a situação ainda é muito atual. Mesmo com todos os avan-ços, as mulheres ainda sofrem, em muitos locais, com salários baixos, violência masculina, jornada excessiva de trabalho e desvantagens na carreira profissional. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado nesta história.

Tais fatos revelam a discriminação e alguma forma de violência, nesse tratamento desigual. Aliás, a violência é tema que tem chamado a atenção de estudiosos, no campo envolvendo as questões de gênero. Pesquisa divulgada pela Fundação Perseu Abramo revela que a cada dois minutos cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil, sendo que há 10 anos atrás eram oito mulheres agredidas a cada dois minutos. A pequena diminuição ocorrida entre 2001 e 2010, segundo a pesquisa, seria atribuída, em parte, à Lei Maria da Penha. Entre os pesquisados, 80% aprovam a nova legislação. Mesmo entre os 11% que são críticos, ressalvam que a lei é insuficiente.

A pesquisa divulga dados sobre o que os homens pensam sobre a violência contra mulheres. Dentre outros dados, dois por cento (2%) declaram que "tem mulher que só aprende apanhando bastante", 8% assumem praticar violência, 14% acreditam ter agido bem e 15% declaram que bateriam de novo. A pesquisa indica, lamentavelmente, um padrão de comportamento e não uma exceção.

Diante dessa situação, embora tenhamos caminhado, não temos muito a comemorar, mas muito por fazer e por conquistar.

É preciso que a mulher se descubra como sujeito de direitos e os exercite. A partir daí, passará a se respeitar e exigir que a respeite.

Temos marcos importantes, na vida civil, como a Lei Maria da Penha, em relação aos direitos políticos, o dia 24 de fevereiro de 1932, um marco na história da mulher brasileira, pois nesta data foi instituído o voto feminino. As mulheres conquistavam, depois de muitos anos de reivindicações e discussões, o direito de votar e serem eleitas para cargos no executivo e legislativo, mas poucas ainda chegam esses postos.

Neste espaço, presto as minhas homenagens a todas às mulheres, de todos os continentes. Mulheres intelectuais, Mulheres donas de casas, Mulheres trabalhadoras nos mais diversos setores (garis, cortadoras de cana, cozinheiras, lavadeiras etc), Mulheres mães.

A exemplo da minha mãe (in memoriam), que da sua simplicidade me legou à sabedoria para lidar com as adversidades e a fé em dias melhores, espero que em tem-pos não muito distantes, todos os dias sejam Dia da Mulher, porque Ela é Mulher, todos os dias!


A autora, Rossana Teresa Curioni Mergulhão, é juíza de direito em Bauru, mestre em direito, pós-graduada em antropologia e docente