Em situação limite, a saída é analisar o que é menos prejudicial ao bolso. Devido aos preços recordes dos combustíveis em Bauru, a gasolina virou a alternativa mais vantajosa - ou menos desvantajosa - aos motoristas que possuem os chamados carros flex. E os consumidores já tiveram essa percepção, visto que, enquanto a procura pelo etanol despencou nas últimas semanas, o consumo da gasolina triplicou.
Os motoristas já perceberam isso. De acordo com estimativas do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo (Sincopetro), atualmente a relação de consumo em Bauru de gasolina e etanol fica em 80% e 20% respectivamente.
No começo de fevereiro, a proporção era bastante diferente. Nos postos da cidade, a média registrada era de 70% do uso do álcool e apenas 30% de gasolina. Ou seja, com o problema dos preços históricos, o consumo de gasolina aumentou em quase três vezes.
Para se chegar a conclusão de qual combustível compensa mais, é preciso fazer uma conta aritmética. O consumidor deve dividir o preço do litro do álcool pelo valor da gasolina. Se o resultado for maior que 0,7, deve optar pelo segundo combustível. Se for inferior, é melhor ficar com o álcool.
Considerado o preço atual do álcool a R$ 2,25 e da gasolina a R$ 2,69 registrados na maioria dos postos, o valor deste cálculo é 0,83, o que significa que quem quiser fazer economia deve encher o tanque com gasolina.
Segundo o presidente do Sincopetro, José Antônio Reghine, os 20% de consumidores que ainda abastecem o veículo com etanol são aqueles que não têm a opção de utilizar a gasolina. E de acordo com ele, a grande procura pela gasolina está obrigando os proprietários de postos de combustíveis a diminuir o preço do álcool para tentar equilibrar as vendas.
"Estamos vendo que alguns postos estão reduzindo os preços do álcool. Já há vários que vendem o litro a R$ 2,19 ou R$ 2,14. Mas isso não significa que o quadro está melhorando. Ainda estamos comprando o produto dos distribuidores a preços altíssimos. O dono de posto está diminuindo o valor nas bombas para que o produto não deixe de ser vendido", explica.
Conforme o JC noticiou há algumas semanas, os preços dos combustíveis alcançaram marcas históricas em Bauru. Especialistas apontam que a alta é devido à preferência dos usineiros em utilizar a cana-de-açúcar para a produção de açúcar - motivada pelos altos preços do produto no mercado internacional - e também ao período de entressafra.
Safra atrasada
O quadro é mais preocupante porque, segundo a Associação dos Plantadores de Cana (Associcana), a safra, que deveria começar no início de abril e poderia amenizar o problema, irá atrasar até a metade do mesmo mês.
O presidente do Sincopetro afirma que "o preço de custo (aquele que o proprietário do posto paga aos distribuidores) do etanol não diminuiu. A média aqui em Bauru desse preço é de R$ 2,05. O proprietário precisa acrescentar cerca de R$ 0,30 para que a venda nas bombas valha a pena. Se esse valor for colocado em prática, a situação piora e o álcool ficará ainda mais parado nas bombas", completa.
Além desse ponto, Reghine explica que os proprietários de postos de combustíveis passaram a enfrentar outro grande problema com o consumo desequilibrado da gasolina: os altos investimentos.
Ele explica que "a gasolina é um produto mais caro. Então, como está sendo mais procurado, os proprietários precisaram investir um capital de giro muito maior. Eles necessitaram fazer esse investimento para continuar trabalhando".
Gasolina deve chegar a R$ 2,80 hoje
Segundo o empresário do ramo Edivaldo Tuschi, o preço de custo da gasolina também fará com que o combustível tenha um novo aumento nas bombas da cidade. E, de acordo com ele, essa elevação ocorrerá ainda hoje.
"Nos meus postos, a orientação que passei é de vender a gasolina a R$ 2,80. O preço de custo do produto está em R$ 2,50. E acreditamos que a gasolina vai subir ainda mais", prevê.
Para contornar tal panorama que, segundo o empresário é prejudicial tanto aos proprietários quanto aos consumidores, ele cobra intervenções do governo. "Falta regulamentação. Todo esse problema ocorre porque falta a atuação do governo regulando o setor. Um dos maiores problemas que estamos enfrentando é que os usineiros estão produzindo açúcar e não etanol. Precisariam de algumas regras que equilibrassem esse fato".
Pouca gente sabe, porém, a gasolina tem 25% de álcool anidro em sua composição. Edivaldo Tuschi, entretanto, explica que não é só esse fato que influencia na alta dos preços da gasolina. "O governo não tem interesse em diminuir esse valor, pois se tivesse, poderia fazer algo. Existe um imposto denominado Cide (Contribuição de Intervenção de Domínio Econômico) que é sobre a importação e comercialização dos combustíveis, e não está sendo usado como deveria pelo governo".
O empresário explica que esse imposto foi criado justamente para equilibrar o preço da gasolina em períodos sazonais de variações como o do contexto atual.
"Além desse imposto, há a questão do diesel, que seria uma alternativa. Eu estive na Alemanha na semana passada e a frota europeia é composta 80% de carros a diesel. Mas, no Brasil, carros com esse tipo de combustível são proibidos. Ou seja, o governo não toma atitudes para melhorar esse quadro", conclui.
Falta de gasolina?
O presidente do Sincopetro em Bauru, José Antônio Reghine, não acredita que a gasolina falte em Bauru e em outras localidades do Brasil mesmo com a alta procura dos motoristas. Segundo ele, diante do quadro desequilibrado, algumas medidas começaram a ser tomadas.
Reghine explica que, para tentar amenizar tanto o problema dos preços quanto uma possível falta dos combustíveis, o governo está importando álcool e gasolina dos Estados Unidos.
"O governo resolveu fazer alguma coisa. Porém, é um absurdo um País como o Brasil, com o tanto de produção de cana-de-açúcar, ter que importar dos Estados Unidos. É uma situação extremamente absurda o que está acontecendo", desabafa.