11 de julho de 2026
Geral

Polícia Civil investiga morte por leishmaniose

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 4 min

A Polícia Civil de Bauru instaurou inquérito policial para apurar as reais condições que levaram a garota Letícia dos Santos Lima, 7 anos, a falecer em decorrência de leishmaniose no último dia 4, conforme divulgado pelo JC. As investigações seguem pela Delegacia Policial (DP) de Crimes Ambientais de Bauru, localizada no 1º DP, que além de tratar das investigações de crimes relacionados a animais, também tem o propósito de apurar ocorrências ambientais e que envolvam a saúde pública.

Letícia faleceu no dia 4 de março, após ter sido internada em 21 de fevereiro no Hospital Estadual (HE) de Bauru. A garota chegou a passar pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por conta das complicações da doença.

A família mora no Parque Jaraguá e, segundo a mãe de Letícia, Tatiane Maria dos Santos, declarou em depoimento no inquérito, a falta de cuidados no bairro com o lixo exposto e uma quantidade exorbitante de cães e gatos soltos pelas ruas deixam os moradores muito preocupados. Na ocasião, a equipe de reportagem do Jornal da Cidade esteve no local e constatou o fato.

O delegado titular do 1º DP, Dinair José da Silva, esclarece que o inquérito foi instaurado porque a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) considera a leishmaniose uma doença de comunicação compulsória, e a autoridade policial tem como dever apurar o caso.

"Nós não estamos acusando ninguém e é importante deixar bem claro que não foi a mãe da garota que veio fazer a denúncia. É nossa obrigação apurar o caso porque a leishmaniose é uma doença de comunicação compulsória e que envolve animais também. Precisamos saber qual é a real situação da cidade. Se o problema é da população, do município ou das duas partes", explicou.

As investigações tiveram início com o depoimento da mãe de Letícia. O próximo passo a ser dado pela Polícia Civil é o de oficiar a Secretaria Municipal de Saúde para saber se está havendo uma endemia da doença em bairros da cidade. Em seguida, o órgão municipal será questionado sobre as efetivas medidas para evitar que a doença acontecesse preventivamente e, posteriormente, para evitar que se propague.


Animais abandonados


Outro viés do inquérito é a atual situação de cães e gatos abandonados pelas ruas sem nenhum cuidado. A reprodução desenfreada entre eles também é sinônimo de descaso com a saúde da população. "Algumas ONGs sugerem a castração para evitar que esses animais abandonados e mal cuidados sejam, cada vez mais, transmissores de doenças. Uma castração poderia evitar a reprodução? Quanto isso vai custar? E a vacinação para esses animais? O que o Centro de Controle de Zoonoses pode fazer para ajudar?", questiona o delegado Dinair José da Silva.

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Único caso do ano


A Secretaria Municipal de Saúde informou em nota que este foi o único caso de leishmaniose constatado em humanos neste ano. Recentemente, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) divulgou ao JC que no ano passado foram registrados 28 casos da doença em humanos, no entanto, não houve óbito. Já em 2009 Bauru contabilizou 49 infectados e uma morte.

Nenhum responsável pelo CCZ concedeu entrevista ao JC ontem por não terem sido citados sobre o inquérito. No entanto, na mesma nota, a Saúde divulgou que Letícia dos Santos Lima, 7 anos, apresentava um quadro de desnutrição, o que pode ter potencializado a gravidade da doença.

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Sintomas da doença


Os principais sintomas da leishmaniose em seres humanos são febre contínua por mais de uma semana, tosse, emagrecimento sem explicações e fraqueza. Em estágios avançados da doença pode haver sangramentos no nariz, em mucosas, gengiva e no intestino, além do crescimento do fígado e do baço, que pode ser notado com o aumento da região abdominal. O diagnóstico da doença é feito a partir de exame de sangue.

Nos cães, principais hospedeiros do protozoário da leishmaniose, a doença pode ser notada quando os animais deixam de praticar suas atividades normalmente, apresentando desânimo e fraqueza. Emagrecimento, vômitos, queda de pêlos, febre, crescimento das unhas e feridas no focinha, nas orelhas e nas patas são outros sintomas. Nesses casos, é fundamental buscar a orientação de um veterinário.

O tratamento em animais doentes não é indicado por não apresentar resultados efetivos com comprovação científica. Além disso, com a aplicação de medicamentos em cães, a doença pode se tornar mais resistente e dificultar a cura de seres humanos.

Só em Bauru, 4.208 animais foram sacrificados em 2010. Desse total, 85% tinham sintomas clássicos de leishmaniose. A doença é transmitida aos seres humanos através da picada do mosquito-palha.

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Cruzando informações


A ficha clínica de Letícia dos Santos Lima, 7 anos, que morreu de leishmaniose no início deste mês, será anexada ao inquérito. Além disso, o delegado titular do 1º DP, Dinair José da Silva, solicitará um laudo indireto do Instituto Médico Legal (IML) que cruzará informações sobre o período em que a menina esteve internada e a medicação que recebeu. Não será necessário exame necroscópico, portanto, o corpo não será exumado. "É necessário investigar também de qual tipo de leishmaniose ela morreu", destacou o delegado.