08 de julho de 2026
Geral

Você acha possível viver sem mentir?

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Um mentiroso, por conceito, nunca é alguém visto com bons olhos. Mas quem nunca mentiu na vida? Aliás, quem já deixou de contar ao menos uma mentirinha ao longo de breves 24 horas? A diferença entre hoje, Dia da Mentira, e o resto do ano é que em 1º de abril as lorotas contadas entre amigos e no ambiente de trabalho são logo desmascaradas.

Já no cotidiano de qualquer cidadão comum, as falsas afirmações são necessárias para tornar possível a convivência harmônica entre os indivíduos, conforme defendem especialistas consultados pelo JC. Sem elas, as contradições existentes entre as pessoas seriam sempre expostas e tornariam impraticável o relacionamento humano. Mas é preciso estar atento para os limites de seu uso.

Um exemplo do que ocorreria na vida de alguém que decidisse contar apenas a verdade é ilustrado no filme "O Mentiroso", em que o advogado interpretado pelo ator Jim Carrey enfrenta uma série de transtornos depois que seu filho, ao soprar as velas do bolo de aniversário, pede para que seu pai não minta por um dia. O desejo é atendido e o personagem se vê diante de situações bastante delicadas ao relacionar-se com amigos, colegas e ao defender uma cliente no tribunal.

"É uma situação insustentável", aponta o antropólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Cláudio Bertolli Filho, para quem a mentira funciona como estratégia que garante o mínimo de comodidade no convívio interpessoal. "Na maioria dos casos, ela permite que a vida seja mais fluida não apenas para aquele que mente, mas também para quem escuta aquela informação falsa. A mentira acaba sendo aceita para evitar o surgimento de um conflito", avalia.

Estudos diversos realizados ao redor do mundo já tentaram quantificar quantas afirmações falsas uma pessoa diz ao longo de um dia, mas ainda não existe um consenso sobre o assunto. Os números vão de seis a 200 inverdades proferidas por um único indivíduo em apenas 24 horas e esta imprecisão revela o quanto a mentira já está incorporada à prática humana.

Ainda que ninguém seja capaz de afirmar com alguma certeza quantas mentiras costuma dizer, Bertolli Filho destaca que as mais comuns são as chamadas mentiras brancas. São aquelas que, se não são totalmente inofensivas, ao menos não representam maiores consequências quando contadas. Tratam-se de pequenos subterfúgios, como alguém dizer que chegou atrasado por causa do trânsito, ou que está tudo bem quando um colega pergunta, ou ainda deixar de atender o celular e depois dizer que só viu a ligação mais tarde.

"Esse tipo de mentira todo mundo conta. Somos extremamente performáticos porque somos, com frequência, socialmente inibidos a dizer o que pensamos. Mas é uma situação diferente da vivida pelo mentiroso compulsivo, que pode ter sérios problemas para conseguir se relacionar", frisa.

Proteção


A frequência e a gravidade das mentiras dependem da personalidade de cada indivíduo, mas também costumam variar de acordo com o ambiente em que ele vive. A historiadora Nair Leite Ribeiro Nasralla, professora de história e antropologia da Universidade Sagrado Coração (USC), lembra que, em regimes ditatoriais, as condições para que as pessoas digam a verdade não é favorável e, por este motivo, a tendência é que elas escondam mais o que pensam ou sentem.

"A mentira se torna uma forma de proteção, por medo de serem perseguidas. De maneira geral, as pessoas são fruto de sua relação com o meio e não mentem por falta de valores ou de uma conduta ética. Ela mente para corresponder a um comportamento que a sociedade espera dela", aponta.

E exatamente por conta desta pressão social, Bertolli Filho lembra que o ser humano, ao longo de sua história, aprendeu a usar a mentira a seu favor. Tanto que, hoje, consegue contar verdades através de uma obra de ficção ou uma mentira apenas por meio de afirmações verdadeiras.

"Um livro ou uma música podem dizer muitas verdades através de metáforas. Do mesmo modo, uma mentira pode ser construída somente por meio de verdades, desde que, estrategicamente, parte destas verdades seja omitida", pontua.

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Origem


O Dia da Mentira, dedicado a brincadeiras e lorotas, é celebrado em todo mundo, mas em alguns países, em dias diferentes. Por exemplo, o "Dia dos Inocentes", na Espanha, é festejado todo 28 de dezembro.

Na enciclopédia eletrônica Wikipédia existem várias explicações para a origem da data, que pode ter começado na França. Desde o início do século 16, o ano novo era festejado no dia 25 de março, que no hemisfério Norte marcava o início da primavera. As festas duravam uma semana, até o dia 1º de abril. Com a adesão da Europa ao calendário gregoriano, o Ano Novo passou a ser festejado no dia 1º de janeiro. Alguns franceses não gostaram da novidade e continuaram a seguir o calendário antigo. Por fim, viraram alvo de brincalhões, que passaram a enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam.

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Mentira pode extrapolar o bom senso nas conquistas


A mentira está presente no relacionamento familiar, de trabalho ou de negócios, mas é no momento da conquista que ela ganha ingredientes que podem ultrapassar a barreira do bom senso. Contar vantagem para impressionar o parceiro é recurso recorrente entre homens e mulheres, mesmo que a mentira sirva para garantir a companhia por apenas uma noite.

Um grupo de amigos, todos homens entre 25 e 35 anos, aceitou contar suas peripécias à reportagem, desde que permanecessem no anonimato. Um deles, por exemplo, conta que chegou a dizer para uma garota que era dono de uma transportadora, que a mãe era proprietária de uma butique e que o cunhado era fazendeiro. "Mas, infelizmente, a mentira não convenceu", diz.

Outro rapaz confessou que já enganou, em uma viagem ao Guarujá, uma pretendente dizendo que morava em um bairro nobre do município de Campinas. "Estava com um amigo e ele disse que era jogador de futebol e morava no alojamento do (clube) Guarani, o que, claro, também era mentira", revela, em meio a risos.

Em outra situação ainda mais extrema, um jovem disse a uma moça que era filho de um empresário conhecido e eles acabaram ficando juntos na ocasião. Ele não tinha carro e inventou outra mentira para justificar o motivo de estar a pé. "Então a garota ofereceu carona e eu aceitei. O problema é que ela sabia onde era a casa do empresário e me levou até lá. Tive que descer em frente à casa e ficar enrolando no portão até ela ir embora. Depois, acabei indo para a minha casa a pé", relembra.

Ainda que sejam episódios pitorescos, a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, coordenadora do Instituto Bauruense de Psicodrama, avalia que tratam-se de situações em que as pessoas acabam mentindo por insegurança. "Elas não se aceitam como são e acreditam que só serão bem vistas se criarem um outro personagem para si próprias", pontua.

Segundo Maria Regina, a mentira também pode funcionar como um instrumento para escapar ao controle excessivo do parceiro, esconder uma traição e evitar conflitos. "Acho difícil afirmar quem mente mais, se é o homem ou a mulher, até porque as relações de gênero estão mudando muito. Talvez as mentiras de um e de outro ocorram por motivos diferentes", frisa.

Como historicamente o homem foi o detentor do poder econômico, com maior frequência as mulheres escondiam gastos excessivos e compras de bens considerados supérfluos pelos maridos, além de também mentirem para proteger os filhos de castigos. Já os homens possuem a tendência de mentir mais para conquistar uma mulher ou esconder traições, que, na concepção da psicóloga talvez ainda sejam mais frequentes entre eles.

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?Mentira branca? X doença


As chamadas mentiras brancas, contadas cotidianamente por todo indivíduo, são bastante distintas das mentiras proferidas por pessoas cujas personalidades possuam traços psicopáticos e desvios de caráter. De acordo com a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, este tipo de mentiroso é representado por fraudadores, pessoas sem escrúpulos morais, que mentem por conveniência para se safar das consequências dos seus atos, e frequentemente, sem nenhum sentimento de culpa.

Já os psicóticos delirantes apresentam uma alteração da percepção da realidade. "Eles acreditam nessa verdade subjetiva, apresentando delírios e alucinações", aponta a psicóloga. Elas podem sofrer da chamada mitomania, uma tendência patológica para a mentira, considerada uma forma de desiquilíbrio psíquico.