Estamos vivendo uma fase delicada do processo de controle das pressões inflacionárias, com a cristalização de expectativas de alta nos preços dos serviços e a elevação de alguns preços agrícolas e do petróleo, influenciados pelas tensões externas. No Brasil, a componente mais constante se forma no setor de serviços, com uma grande distorção entre as demandas que estão se abrindo e a estrutura da oferta de mão-de-obra. Não é apenas o aumento real do salário-mínimo que está alimentando a inflação dos serviços. Ele foi importante para produzir isso, mas existem outros fatores que explicam uma nova realidade que nem sempre é lembrada: essa inflação nos serviços é fruto de um processo natural quando há distribuição de renda. E a redução dos níveis da desigualdade entre os brasileiros é com certeza o fato mais importante que acontece no país desde que deslancharam os programas sociais e as políticas de aceleração do desenvolvimento econômico e de crescimento da oferta de emprego no governo Lula.
Vivemos uma fase de progresso interno bastante robusto que promove uma mudança de qualidade das pessoas que estão realizando os serviços. A ex-empregada doméstica encontra hoje espaço para trabalhar no salão de beleza como manicure e sua antecessora arranjou trabalho num "call center", enquanto a moça que estava no telefone foi ser gerente de vendas numa loja de roupas. Na economia, os fatos sempre produzem mais de um efeito: de um lado, altera-se a perspectiva futura da meta da inflação, com o risco de se ampliarem as pressões de aumento dos salários, mas com a compensação da continuidade dos avanços na oferta de oportunidades de trabalho, da expansão e fortalecimento do mercado interno etc.
Nos últimos cinco ou seis anos, foi no setor de serviços que se verificou a componente mais constante do aumento do custo de vida, com uma "ajuda" apenas em 2010: a alta no preço da alimentação resultante de crises na produção agrícola em inúmeros países, inflando as cotações externas. O problema fundamental, no entanto, continua sendo a dificuldade de encontrar mecanismos para reequilibrar oferta e procura no setor de serviços.
Não vai se reduzir a inflação nos serviços aumentando os juros, como "aconselham" candidamente os sábios analistas a serviço do mercado financeiro. A simples elevação da taxa de juros não vai fazer a gerente de loja voltar a prestar serviços domésticos. Isso só se resolve alterando a estrutura da oferta dos serviços e com mais preparação de mão-de-obra para atender as mudanças na estrutura da demanda.
O que acontece agora, de lamentável, é que a expectativa da inflação se deteriorou um pouco mais. Embora os efeitos positivos para a economia sejam maiores do que os negativos, não se pode ignorar que aumentaram os riscos: o governo vai ter que lidar com essa nova situação, sem abrir mão do crescimento da economia, entendendo que o processo de desenvolvimento é assim mesmo: resolve-se um problema, surgem mais dois, exigindo soluções que geram mais quatro problemas... e assim por diante.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento