Não há cura para o alcoolismo. Assim como o diabetes ou a hipertensão arterial, é uma doença que pode ser controlada, mas não tem como se livrar dela. É uma companhia com a qual a pessoa terá de se acostumar para o resto da vida.
Atualmente, o alcoolismo é um dos principais problemas de saúde pública, pois atinge cerca de 11% dos brasileiros, em sua maioria jovens do sexo masculino que têm entre 18 e 29 anos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Embora um grupo de cientistas americanos tenha afirmado recentemente que identificaram o gene responsável pelo desejo de beber excessivamente, o médico gastroenterologista Fernando Romeiro acredita que o meio em que a pessoa vive interfere mais no hábito do que os genes.
Segundo ele, a educação é uma das formas eficazes de prevenção da doença. "Embora lícita, a bebida alcoólica é uma droga e, como tal, se não for feito um trabalho educativo adequado pode se transformar em problema", adverte.
Na opinião dele, o quadro atual é ainda mais preocupante, especialmente entre os jovens, porque o alto consumo de cerveja, por exemplo, virou sinônimo de status. Quanto mais a pessoa consegue beber, mais popular fica. Daí para a dependência é apenas "um pulo".
De acordo com o psiquiatra Sérgio Sato, o álcool atua como um sedativo no cérebro humano. Quando ele detecta a falta da substância, desencadeia uma série de reações que forçam a pessoa a ingerir mais bebida para acalmar o organismo.
Além disso, o álcool atua também na região responsável pela sensação de prazer e bem-estar, fazendo com que o dependente sinta-se satisfeito com a bebida, perdendo assim interesse em outros prazeres, como a alimentação, o sono, as atividades físicas e o sexo, entre outros.
Segundo ele, uma das formas de tratar a doença é usando uma medicação que tem a capacidade de substituir a bebida, provocando as mesmas reações no cérebro, e ao mesmo tempo trata as consequências físicas e psíquicas provocadas pela bebida.
Consumo aumenta no Brasil, segundo OMS
Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre álcool, divulgado no mês passado, mostra o Brasil entre os países com aumento do uso excessivo de bebida alcoólica, que pode levar à consequências graves, como lesões e risco de acidentes. A OMS considera consumo abusivo quem bebe 60 gramas ou mais de álcool puro, pelo menos uma vez por semana.
De acordo com levantamento da OMS, em 2003, dos brasileiros que bebiam, 32,4% dos homens e 10,1% das mulheres abusaram da bebida alcoólica. Nos dois sexos, a faixa etária analisada é a partir de 15 anos.
No mundo, 11,5% dos consumidores de álcool bebem em excesso em situações semanais. A proporção é de quatro homens para uma mulher. "Homens praticam constantemente um consumo de risco em níveis muito mais elevados do que as mulheres em todas as regiões (do mundo)", diz o relatório.
De acordo com o documento, o consumo de álcool puro no Brasil foi de 6,2 litros por pessoa, em 2005. A média mundial, no mesmo ano, foi de 6,13 litros de álcool per capita. A cerveja é a bebida mais consumida pelos brasileiros, seguida por destilados e vinhos.
O relatório da OMS cita a Lei Seca, que tornou mais rigorosa a punição para quem dirige embriagado, como exemplo de política pública para reduzir o uso abusivo de álcool. Para o motorista que consumir uma lata de cerveja ou uma taça de vinho antes de pegar a direção de um veículo a lei prevê multa, perda da carteira de habilitação e apreensão do carro.
Se a pessoa ingerir quantidade superior, como duas ou três doses, responde a crime de trânsito, com pena de prisão de seis meses a três anos.
Pelo menos 2,5 milhões de pessoas morrem por ano, em todo o mundo, por causa do consumo inadequado de álcool, segundo o estudo da OMS, que avaliou a ingestão de álcool em 100 países.
No ano passado, uma pesquisa do Ministério da Saúde revelou que aumentou de 16,2% para 18,9% o percentual de brasileiros que declararam ter abusado do álcool, entre 2006 e 2009.