08 de julho de 2026
Articulistas

Quando que foi bom?

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

No ano 2000, Arnaldo Jabor veio a Bauru para uma palestra, na então Cervejaria dos Monges. Paguei R$40,00 Reais para entrar - um preço que pode até ser razoável hoje, mas na época eram os olhos da cara.

Na palestra, Jabor falava sobre a maior desgraça brasileira: a vontade de levar vantagem em tudo. Ele fez um retrospecto da corrupção, desde o descobrimento do Brasil, e mostrou como herdamos o vício da desonestidade de nossos patrícios e feitores portugueses. Ele mesmo se incumbiu de dar um exemplo de displicência para com o próximo, pois tentou empurrar o público para o chopp de graça (cortesia da casa), esquivando-se de responder as perguntas e entrar no debate.

O que mais me marcou naquele dia, porém, foi quando ele disse mais ou menos assim: "-A gente vive reclamando que a situação está péssima hoje, que o governo do Fernando Henrique é isto e aquilo... mas quando que foi bom? Na Primeira Guerra Mundial? Na guerra da Crimeia? Na Idade Média?" É verdade. Quando o mundo foi justo? Quando as pessoas se respeitaram? Quando as promessas saíram do papel para contemplar a todos? Nunca!

No último carnaval, fiquei ilhado em um sítio isolado entre Piratininga e Brasilia Paulista. Quem tentava sair de carro encalhava. Já estava ficando sem paciência, quando me veio a Idade Média na cabeça. Imaginei aquele lugar na Idade Média, sem luz, sem comunicação com os feudos vizinhos, sem poder chegar nem mesmo a Piratininga, pois os vândalos finlandeses, os visigodos, os tártaros poderiam estar lá.

Nós reclamamos do trânsito em Bauru porque não tivemos que enfrentar as invasões bárbaras. Aquilo sim era ruim. Imaginem a sala dos professores do D?Incao a todo vapor e de repente chega alguém gritando: "-Fujam! Salvem-se! Os vickings estão chegando! Já estão subindo pela Getúlio!" O que falar para um cara gigante, loiro, barbudo, cheio de tranças, que carrega um machado e fala uma língua ininteligível? ( Por favor, não me mate!?)

Reclamamos dos buracos no asfalto porque não sabemos das condições das estradas da Idade Média, que eram percorridas a cavalo, contra tudo e contra todos. Os pedágios já existiam. A Idade Média acabou por causa de um pedágio que os turcos-otomanos colocaram em Constantinopla. Aí os portugueses - que na época eram mais poderosos que os americanos de hoje - resolveram dar a volta na África, criando assim o capitalismo mercantil e, pasmem, a globalização.

Em nossos tempos modernos de grandes cidades, anti-depressivos e Ritalinas contra o déficit de atenção, somos constantemente atingidos por uma nostalgia inexplicável de um tempo melhor, menos injusto, mais tranquilo e em harmonia com a natureza. Mas esse idílio com o passado é algo que as novelas e os filmes enfiaram em nossas cabeças. Até 1888 eram os escravos que movimentavam isto aqui, por exemplo. Escravos.

É comum ouvir: "-No meu tempo, a escola pública era a melhor. O ensino era de primeira linha, o aluno tinha que respeitar os professores e tinha que aprender." Mas a imensa maioria da população vivia no campo, analfabeta e sem contato algum com a escola. A escola pública era boa porque servia à elite urbana. Na hora que foi preciso integrar toda a multidão que se mudou para as cidades, a escola pública foi esculhambada - um pouco porque era difícil manter a qualidade para tanta gente e muito porque era imprescindível que a escola mantivesse os filhos dos pobres alienados.

Isso não quer dizer que tenhamos que cruzar os braços e não fazer nada para resolver os problemas do mundo. Morrer de peste bubônica no século XIV, junto a um terço da população da Europa, imaginando que aquilo era obra do demônio ou um castigo de Deus é uma coisa. Morrer de malária em 2011 porque a indústria farmacêutica não se interessa em fabricar um remédio para uma doença que só atinge gente pobre é muito pior.


O autor, Luís Paulo Domingues, é professor e colaborador de Opinião