Mais de 30 milhões de brasileiros venceram a linha de pobreza na última década, segundo dados oficiais. A mudança socioeconômica alterou padrões de consumo, aquecendo a indústria e permitindo que mais e mais pessoas adquirissem bens há muito almejados, como casa própria, carro novo e computador com acesso à internet. Lamentavelmente, um traço característico da cultura nacional não mudou: apesar dos avanços, a compra de livros não se tornou prioridade das famílias.
Isso é o que mostra um estudo do Movimento Todos Pela Educação, com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2010, ao revelar que apenas 39% dos estudantes brasileiros declararam possuir, no máximo, dez obras literárias. Se o tamanho da coleção é aumentado, o índice cai ainda mais: nossos jovens ficam em penúltimo lugar na lista de 65 nações analisadas pelo Pisa, quando se apura quantos possuem mais de 200 livros - o percentual brasileiro é de 1,9%, à frente apenas da Tunísia com 1,7%. Se os jovens não ocupam seu tempo com leitura, o que dirá o brasileiro médio?
Ora, por tempo demais o preço das publicações foi usado como justificativa para a falta de hábito de leitura. Porém, o poder de compra aumentou e o mercado editorial está repleto de opções econômicas, como edições de bolso ou sebos, muitos dos quais já fazem negócio até mesmo pela internet. A única explicação plausível é que se trata de manifestação de um antigo e grave problema educacional. Por séculos, o País sofre com elevados índices de analfabetismo, puro ou funcional - ainda hoje, estima-se que mais da metade da população não consiga interpretar textos. Em casas onde os pais não leem com frequência, é alta a probabilidade de os jovens seguirem o mesmo comportamento, privilegiando veículos eletrônicos de comunicação audiovisual, como a televisão e a internet ? embora esta última já disponibilize um acervo gigantesco, mas muito pouco explorado, de obras literárias digitalizadas. No portal www.ciee.org.br, por exemplo, é possível ler on-line ou baixar gratuitamente números recentes da revista Agitação - publicação com matérias sobre programas de estágio e aprendizagem ? e livros com a transcrição das principais palestras promovidas pelo CIEE.
Na ponta do lápis, o abandono da leitura acaba por agravar o desempenho dos estudantes e futuros profissionais. Segundo as constatações, os jovens que convivem com mais livros em casa apresentam um resultado melhor nas provas do Pisa. Pelo jeito, é mais um dos casos em que a sociedade precisa se mobilizar para corrigir distorções. Por exemplo, por que não se criar um grupo de compras pela internet com cupons de descontos para obras literárias, na linha das promoções em restaurantes, para elevar o índice de leitura do jovem brasileiro? A ideia está lançada.
O autor, Luiz Gonzaga Bertelli, é presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola - CIEE, da Academia Paulista de História - APH e diretor da Fiesp