10 de julho de 2026
Economia & Negócios

MPF investiga boicote de laboratórios em vendas de

Por Tisa Moraes | Com Folha de S. Paulo
| Tempo de leitura: 5 min

O Ministério Público Federal (MPF) em Bauru instaurou inquérito para investigar a suspeita de boicote por parte de laboratórios farmacêuticos que estariam se recusando a vender medicamentos com desconto ao Estado. A prática estaria prejudicando o tratamento de pacientes que ganharam na Justiça o direito de receber esses remédios gratuitamente do governo paulista.

Segundo o Departamento Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), a maioria das empresas fabricantes não estaria participando dos pregões eletrônicos realizados pelo órgão para a aquisição dos itens. O principal motivo do desinteresse seria o fato de elas serem obrigadas a conceder desconto de 25% sobre estes produtos destinados ao cumprimento de liminares, conforme norma de 2006 da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão federal vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

"Os laboratórios eram convidados e não apareciam, constantemente o pregão fechava deserto. Em uma ocasião, de 37 itens de que eu precisava, consegui comprar só dois ou três. Agora, a situação está um pouco melhor, mas ainda não foi resolvida", afirma a diretora Regional de Saúde de Bauru, Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira. De acordo com ela, a pressão para que a DRS-6 garantisse o fornecimento dos medicamentos aos pacientes motivou o envio de um ofício à Justiça, em abril do ano passado, para comunicar a situação vivida pelo órgão naquele momento.

"Eu estava sendo acusada de crime de desobediência por vários juízes e poderia inclusive ser presa e ter bens pessoais bloqueados, uma situação bastante complicada", observa. O ofício chegou às mãos do MPF, que iniciou o levantamento de informações sobre o caso. O estudo culminou na instauração de um inquérito em fevereiro deste ano.

Conforme o documento elaborado pelo procurador da República Pedro Antonio de Oliveira Machado, 66 laboratórios deixaram de vender 430 itens, que correspondem a 351 medicamentos, nos pregões abertos pela DRS em 2010. Nessa lista, há remédios para o tratamento câncer, Parkinson, hepatite, hipertensão, entre outros fabricados por grandes laboratórios como Abbot, AstraZeneca, Bayer, Merck, Medley e Roche.

Prática recorrente


Em depoimento prestado ao MPF no final do ano passado, a DRS confirmou a suposta irregularidade em Bauru e acrescentou ainda que a prática também seria recorrente em outras regiões do Estado. O ministério, entretanto, investiga a irregularidade apenas nos 41 municípios abrangidos pelo órgão, que também podem estar enfrentando a mesma dificuldade.

Segundo legislação federal, os laboratórios que descumprem as regras estão sujeitos a multa de até R$ 3 milhões ou até interdição do estabelecimento. A regra chegou a ser questionada judicialmente pela indústria, que foi derrotada. Mas, mesmo assim, as empresas estariam deixando de participar dos pregões ou mesmo de vender os medicamentos diretamente à Secretaria de Saúde, quando procuradas.

"Os medicamentos têm preços tabelados para o poder público. Nos casos de pacientes com liminares, os laboratórios são forçados a aplicar um desconto de 25%. As empresas não são obrigadas a participar dos pregões, mas também não se manifestavam quando solicitadas por ofício a vender para a DRS", afirma o procurador.

Após instaurar o inquérito, o MPF pediu explicações ao próprio governo paulista quanto ao encaminhamento de soluções para os problemas apresentados na denúncia, assim como a aplicação das penalidades previstas às empresas fabricantes, distribuidoras e fornecedoras de medicamentos.

"Agora, estamos esperando um posicionamento da secretaria, que não pode adotar uma postura passiva e deixar de cobrar uma providência da CMED. Dependendo das respostas, poderemos, inclusive, ingressar com uma ação judicial para pedir uma sanção às empresas", aponta Machado.

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Órgão regulatório diz não ter competência de punir


A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) afirma não ter competência legal para punir os laboratórios farmacêuticos que não se apresentam nos pregões eletrônicos. O órgão seria autorizado apenas a aplicar multas a quem vender medicamentos ao Estado sem o desconto e, neste caso, 36 empresas já teriam sido autuadas.

Segundo o governo, o boicote a licitações teria se disseminado no território paulista. Mas o Ministério Público e a Controladoria-Geral da União (CGU) já apontaram que o mesmo desinteresse coletivo entre os fabricantes foi registrado no Amazonas e Distrito Federal.

Segundo o Ministério da Saúde estimativa, União, Estados e municípios economizariam cerca de R$ 120 milhões por ano com os descontos previstos em lei. Mas, com a recusa das empresas em participar dos pregões, estaria pagando até 20% mais caro pelos medicamentos, já que parte das compras se daria em negociações diretas com as farmácias. Para adquirir todos os remédios exigidos por força decisão judicial, o montante desembolsado seria da ordem de R$ 300 milhões ao ano.

"São medicamentos de todo tipo, para tratamento de toda sorte de doenças, desde que o paciente tenha liminar para recebê-los gratuitamente. Só não estão incluídos itens importados nesta lista", aponta a diretora Regional de Saúde de Bauru, Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira.

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Empresas afirmam desconhecer
restrição a licitações e seguir normas


Por meio de nota, a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) informou que desconhece qualquer boicote a licitações e que 20% do mercado de medicamentos tem órgãos públicos como compradores. A entidade recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2007 contra a lei que exige o desconto em vendas governamentais por entender que ela é "arbitrária e ilegal".

Para o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos de São Paulo (Sindusfarma), cabe a cada empresa se pronunciar, pois se trata de "decisão comercial baseada em interesses específicos e/ou estratégias de mercado". Além disso, diz que laboratórios vendem anualmente, com desconto, "centenas de milhões de reais em remédios para os governos federal, estaduais e municipais".

O Aché informou que participa de licitações por meio de distribuidores e oferece a eles "condições comerciais" que permitem o desconto. Já o AstraZeneca disse desconhecer qualquer boicote a licitações e que participa das concorrências sempre que atende aos requisitos do edital. Sobre o remédio Arimifrx, usado no tratamento, de câncer de mama, diz que há outras versões genéricas no mercado, mais baratas.

A Medley disse que não recebeu intimação ou notificação da Promotoria, desconhece o inquérito e que já participou de licitações dando o desconto obrigatório. A Novartis diz que não faz boicote e participou de todas as licitações para as quais foi convidada, 67 abertas em 2010 pelo Departamento de Saúde de Bauru.

A Roche nega, em comunicado, "qualquer inconformidade sobre vendas públicas". A Pfizer afirma que não se recusa a participar de licitação. A Abbott Brasil diz desconhecer o inquérito, participar "com constância" de licitações e seguir a legislação.