08 de julho de 2026
Geral

Massacre no Rio: o que dizer aos filhos?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 6 min

O Brasil se recupera - ou tenta - do maior massacre ocorrido dentro de uma escola no País. Pela proporção da tragédia que teve como palco o bairro de Realengo, no Rio de Janeiro, onde Wellington de Oliveira invadiu uma escola anteontem e matou 13 estudantes antes de se suicidar, o assunto estampou e estampará os meios de comunicação por vários dias. Essa exposição intensa, entretanto, causa um efeito que deve ser, no mínimo, debatido: como lidar com as crianças diante de tamanha nuvem informacional sobre casos com temáticas tão fortes e violentas?

De acordo com a doutora em Educação Maria do Carmo Kobayashi, que é especialista na área infantil, a informação está em toda parte e, assim, não é possível mais esconder os fatos. "O melhor é preparar a criança para o que está sendo passado. Tanto os pais como os professores têm essa função. Eles não devem tentar esconder a realidade das crianças".

A educadora explica que aquele conceito da criança que precisa ser protegida e cuidada ao extremo já não existe mais. "Os fatos estão em todos os lugares. Existe a internet, a televisão, os amigos da escola, entre outros. Nós temos que saber como trabalhar isso. É preciso fazer as crianças ficarem menos assustadas e abaladas, porém, sem esconder a realidade", alerta.

A psicóloga Maria José Barbosa mantém o mesmo ponto de vista. Segundo ela, é preciso realmente preparar os "brasileirinhos", porém, a única ressalva é em relação ao grau de exposição. "Acho que o ideal é evitar que as crianças vejam cenas muito violentas. Entretanto, quando questionados, os pais devem explicar o que está acontecendo de forma com que a criança não fique chocada".

A idade ideal para que esse contato mais direto com a realidade seja feito é a partir dos 7 anos, informa a psicóloga. "Os pais têm essa função. Mas acho que as escolas e o sistema educacional deveriam se concentrar na realização de uma série de palestras para minimizar a ansiedade e medo que essas crianças podem estar sentindo".

A educadora Maria do Carmo Kobayashi vai além. Segundo ela, saber ou não lidar com essa questão tem uma importância tão grande que pode até mesmo definir a personalidade futura dessas crianças. "Quando a criança entra em contato com essa realidade, a vida dela nunca mais será a mesma. Existe algo chamado resiliência, que é o reflexo diferente desses fatos em cada tipo de pessoa. Se for bem trabalhado, elas podem entender o caso e até mesmo tirar lições positivas do ocorrido".

Desse modo, uma criança pode verificar na tragédia uma saída fácil para problemas futuros, enquanto outra, melhor orientada, enxerga a solidariedade e comoção, tornando-se alguém melhor.


Como dizer


Entendido que o melhor a fazer é contar para os filhos, surge outro problema: como fazer isso de modo adequado? Maria do Carmo Kobayashi aponta que o essencial é entender o que a criança quer saber e o quanto ela já sabe do assunto em questão.

"Temos que ter a noção do tanto que essa criança já ouviu. O primeiro passo é acolher e saber o que ela quer entender realmente. Muitas vezes os pais acabam tentando contornar o problema e contam coisas que as crianças nem mesmo queriam saber", alerta.

Para exemplificar o fato, ela faz analogia com a comum situação em que os pais são questionados sobre o que seria "sexo".

"Quando o filho pergunta isso, geralmente, o pai faz todo aquele discurso sobre o papai ama a mamãe e aí nasce um bebê lindo igual a você. Faz vários contornos para explicar uma relação sexual de forma constrangida e, muitas vezes, ao terminar, o filho vira e fala: ?Ah, é isso? É que eu ouvi que tinha o sexo masculino e o sexo feminino?".

São situações semelhantes que, de acordo com a educadora, acontecem com essas grandes coberturas. Muitas vezes, o pai, questionado, acaba tentando uma didática muito intensa e revela demais sobre o caso.

A psicóloga Maria José Barbosa também explica que não é positivo tentar livrar o filho da possibilidade de fatos parecidos. "Não se deve amedrontar a criança. Mas, ela deve ser preparada. Se ela perguntar se pode acontecer aqui, o pai não pode esconder isso. É um modo de orientação. A realidade nos leva a isso. As crianças têm que participar dos rituais da vida (leia mais no texto ao lado)", completa a psicóloga.

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Cuidados cotidianos


Apesar de ressaltar os cuidados dos pais em relação a esse tipo de informação e cobertura midiática, a doutora em Educação Maria do Carmo Kobayashi explica que é necessário se atentar sobre as ações diárias.

"Um grito ou um tapa pode marcar muito mais uma criança. A educação é um processo. Situações mais simples como essas podem influenciar toda a formação. Os pais precisam se atentar para essas ações cotidianas. Necessitam ter cuidados também no que fazem como se fossem coisas normais", aponta.

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Morte não deve ser escondida das crianças


Dificuldade semelhante à de revelar os detalhes da tragédia fluminense, os pais encontram quando algum familiar ou até mesmo um animal de estimação morre. Nessas ocasiões, é comum ver mentiras e eufemismos para poupar as crianças.

Entretanto, a psicóloga Maria José Barbosa afirma que os filhos precisam lidar com todos os "rituais da vida", inclusive a morte. "Os filhos precisam participar de tudo que envolve a vida. E, mesmo que pareça contraditório, a morte faz parte da vida. Do mesmo modo em que as crianças vão a batismos e casamentos, elas precisam ir aos velórios", aconselha.

Segundo Maria José Barbosa, nunca se deve mentir aos filhos. "Já vi casos em que o cachorro morreu e a mãe comprou outro cão igualzinho. Porém, ele tinha uma mancha na pata diferente e a criança descobriu. Isso piora tudo, porque ela tem que lidar com a mentira e também com a morte".

Questionada sobre o fato de impressionar os filhos com tais revelações, a psicóloga completa que "a criança que lida com a temática da morte desde cedo passa a achar isso natural. Geralmente, os pais não cresceram assim. Os próprios pais não foram preparados para isso e, desse modo, criam errado os filhos".

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Pais devem observar mais os filhos, afirma psicóloga


Enquanto todos tentam conseguir justificativas - que, com certeza, não serão encontradas - para a tragédia ocorrida no Rio de Janeiro, alguns especialistas analisam o fato pensando justamente no que deve ser feito para evitar casos semelhantes.

Para a psicóloga Maria José Barbosa, os pais precisam observar melhor os filhos. "É preciso olhar diretamente nos olhos da criança e saber o que ela está passando. Observado isso, os pais precisam fazer os filhos terem compaixão. É necessário um processo de humanização. A realidade está seguindo rumos totalmente contrários: está desumanizada".

Para essa observação que, de acordo com ela, é exercida em graus insuficientes nos dias de hoje, a psicóloga aponta mais convívio entre pais e filhos. "Os pais têm que ensinar a ser. Atualmente, eles estão muito centrados no dar. Eles acham que podem suprir a ausência dando algum presente. Isso não pode acontecer. Precisam ficar mais juntos".

A educadora Maria do Carmo Kobayashi aponta que a educação pode ser vista como a base para determinar atitudes extremas como a que culminou na tragédia em Realengo.

"Muitos criticam a escola. Mas a educação não é só a escola. Ela é formada por outras duas instituições: a família e a sociedade. A escola traz para ela problemas nessas instituições. Ela somente reflete. Por isso, é preciso analisar todo esse contexto para melhorar o quadro que estamos vivendo", completa.