09 de julho de 2026
Articulistas

Ascensão social

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A política fiscal no governo da presidente Dilma Roussef está bem ajustada à realidade. Não exige, de fato, um ajuste dramático como se dizia. Temos uma situação fiscal bastante razoável comparada ao resto do mundo, com um pequeno déficit, uma Dívida Líquida de 45% do PIB e Bruta de 65%.  O ajuste feito neste início de governo não se destina a fazer um corte na despesa pública, mas sim no ritmo de aumento da despesa de custeio: uma redução no crescimento da despesa de uns 3% ao ano, com o PIB crescendo 4% ou 4,5%. Inicia-se, assim, uma caminhada em que o PIB vai crescer mais do que as despesas do governo, portanto sem descontrole fiscal, ampliando a margem para os investimentos públicos que são fundamentais para impulsionar o desenvolvimento econômico.

No meu entendimento o ministro Guido Mantega está fazendo uma política ajustada às necessidades de nosso crescimento, enquanto na execução do Orçamento a ministra Myriam Belchior está cumprindo a promessa de "fazer mais com menos", uma tarefa difícil e muito interessante.

No Banco Central, a política monetária do presidente Alexandre Tombini é bem conduzida, recorrendo aos velhos instrumentos que hoje são chamados de macroprudenciais. O que isso diz à sociedade ? É que não basta sentar lá e mexer nos juros em sintonia com as manifestações do "mercado": sobe os juros porque o "mercado" quer; baixa os juros porque o "mercado" está esperando... Para fazer justiça, desde a última reunião da gestão Meirelles, no governo passado, já se sentia uma mudança que, parece, vai prosseguir. Isso mostra que a equipe econômica está sintonizada com a nova realidade da economia mundial.

Nos últimos cinco anos o Brasil não cresceu mais do que 5% ao ano e a inflação ficou em 4.7% ou 4.8%. Este ano o PIB deve crescer 4.5% ou 4.6% e é muito difícil provar que há um excesso de demanda global. O que se alega? É que o mercado de trabalho está "apertadíssimo", falta mão de obra, a indexação salarial  pressiona a inflação, quando na verdade o que está ocorrendo é uma mudança na estrutura do mercado de trabalho, um processo de civilização que altera os níveis de remuneração e está qualificando mais as pessoas. É importante entender que há todo um processo de ascensão social em marcha e de aperfeiçoamento que acontece na sociedade brasileira em vários níveis profissionais. A discussão que existe é se pressiona a inflação.  Sim, mas o que precisa é atacar esses problemas de formação da oferta. Não vai resolver subindo a taxa de juros ou baixando a taxa de juros.

Existe uma mudança muito mais qualitativa do que quantitativa. Tinha um "cara" que era lavador de automóveis num shopping; começou a construção de um prédio ao lado e ele se candidatou ao emprego de pedreiro, passando a ganhar o piso salarial, uns 1.400 reais, quando antes ganhava uns 600 reais lavando carros. Perto de dois milhões de trabalhadores se prepararam num curto prazo. Esse "momento" de ascensão social modifica a estrutura do mercado de trabalho. É um mecanismo civilizatório e não se deve pensar em combatê-lo com taxa de juros.


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento