08 de julho de 2026
Geral

Gagueira atinge 5% da população

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

A disfemia, popularmente conhecida como gagueira, afeta cerca de 5% da população. É um dos mais conhecidos distúrbios da fala. Ainda assim, as causas são pouco conhecidas.

Especialistas apontam causas neurológicas. No entanto, a fonoaudióloga Simone Herrera lembra que ainda não se tem uma comprovação do que provoca a gagueira porque ela é multidimensional e pode envolver vários fatores. "Nós sabemos que têm alguns estudos apontando questões genéticas e também influências do ambiente em que a pessoa vive".

Recentemente, o distúrbio ganhou projeção mundial ao ser abordado no filme "O Discurso do Rei", vencedor de quatro Oscars. Embora o gago do filme seja o rei George VI, esse tipo de disfluência não é exclusividade da nobreza. Ao contrário, é algo que atinge todas as classes sociais e pessoas de diferentes idades.

Mas é na fase do desenvolvimento da linguagem que o problema costuma aparecer. É quando a criança começa a ampliar o vocabulário, por volta dos 3 e 4 anos. É preciso cuidado para não transformar algo normal em um problema permanente.

Simone conta que, nessa fase, o processo que a criança faz para selecionar as palavras e formar frases demora mais porque as opções aumentaram e ela precisa escolher as mais apropriadas para passar a mensagem que deseja.

"Alguns pais acham que a criança está gaguejando e criam um ambiente de muita cobrança, de ansiedade, ficam rotulando e não esperam a criança completar a frase, não têm paciência. Isso acontece também na escola", relata.

Em um ambiente assim, as consequências são quase sempre danosas. "A criança evita conversar. Ela fica ansiosa ao se comunicar e pode se isolar", alerta a fonoaudióloga. Simone comenta que algumas crianças têm tendência a gaguejar, mas pode não desenvolver o distúrbio se tiver em um ambiente adequado, onde não haja tantas cobranças e precipitações.

Uma vez detectada a disfemia, o quanto antes começar o tratamento, melhor. "Não usamos o termo cura, porque é um quadro que tende a permanecer. Mas se a intervenção começa cedo, com adesão correta ao tratamento, com visitas periódicas às sessões de fonoaudiologia, o índice de remissão é grande", afirma Simone.

Na opinião da fonoaudióloga Liliane Campos Stumm, a partir do momento que as pessoas percebem as melhoras, aumenta a autoestima e ela começa a enfrentar situações que, até então, ela temia, como falar ao telefone ou em público.

Mas para chegar a esse ponto, a pessoa precisa acreditar que é possível superar a disfemia e procurar ajuda. Nesse ponto, ela elogia o lançamento do filme. "Ficamos contente com o filme porque ele mostra como uma pessoa com tamanha dificuldade de fala assumiu um cargo de enorme responsabilidade e conseguiu superar com tratamento e acompanhamento", afirma.

O filme conta a história do rei George VI (Colin Firth), que desde os 4 anos é gago. É um problema sério para alguém que faz parte da família real britânica e que, frequentemente, precisa fazer discursos. Com o tempo, exercícios e métodos eficazes fazem com que George adquira autoconfiança para cumprir o maior de seus desafios, que é assumir a coroa e falar com os súditos fluentemente.


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Motivação genética

Um grupo de pesquisadores, que conta com a participação de profissionais de Bauru, descobriu que a gagueira tem motivações genéticas, entre outras. A conclusão teve como base quatro anos de estudos.

De acordo com a professora Luciana Paula Maximino, da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), uma das integrantes do grupo, é a primeira vez que uma pesquisa chega a essa conclusão no Brasil.

Apesar da comprovação, ela diz que esse é apenas o início de um longo caminho a ser percorrido. Segundo a pesquisadora, os estudos vão continuar.

Para Luciana, os resultados alcançados até agora pelos estudos ajudarão em futuros diagnósticos dentro do quadro de gagueira, o que pode facilitar o sucesso do tratamento.

Segundo ela, a equipe de fonogenética, como é denominado o grupo de estudo do qual ela faz parte, trabalha buscando alterações não só de gagueira, mas alterações fonoaudiológicas e de genética.

Além dela, a equipe é formada por profissionais do Centrinho/USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, da Faculdade de Medicina (USP) de Ribeirão Preto e da Universidade de Iowa (EUA).