Todos se perguntam "como foi possível?" e procuram uma resposta para o massacre na escola municipal do Realengo. O que caracteriza a tragédia é justamente a sua falta de sentido. Esse fator "inacreditável" é que abala as estruturas sociais. Porque não há justificativas ou verdades possíveis que conseguirão mapear uma tragédia, a não ser a ideia da própria tragédia. Muitos adjetivos ainda serão gastos para explicar o que levou o jovem Wellington Menezes a invadir a sua ex-escola e matar a tiros dez meninas e dois meninos. Seria uma compulsão freudiana? Haverá uma indústria de enquadramentos de indivíduos perigosos. Serão criadas fórmulas para detectar mentes criminosas antes que elas ameacem as nossas crianças. Quem sabe as escolas brasileiras, muitas delas sem teto, sem giz, sem carteiras ganhem detectores de metais adquiridos em licitações fraudulentas. Serão levantadas falhas na educação familiar. A moda é falar em bullying e dizer para as crianças tratarem bem os seus coleguinhas como se não fossem treinadas a viver numa sociedade competitiva, desde que aprendem a falar. Discursos vazios e lombrosianos são pronunciados: monstro, criatura nascida para o mal, psicopata. Profissionais publicam livros com receitas prontas e sem fundamento. Depois do Massacre de Columbine, da Tragédia do Texas, da Alemanha, da Finlândia, da China, a psicologia forense começa a desconfiar que esses assassinos, capazes de crimes horríveis são pessoas iguais a quaisquer outras. Apenas não souberam resistir às pressões sociais e decidiram obter a atenção pela via midiática. Tornar-se notório é melhor que ser um fracasso. Primeiro tentam extravasar o seu ódio de alguma forma que preserve a intimidade. Preferem o computador a praticar esportes com os colegas. Mandam recados pela internet com seus pontos de vista sobre um mundo impuro e, por isso, condenado ao extermínio.
A sociologia, ao longo dos últimos anos vem construindo toda uma teoria em torno das consequências do uso da internet. O meio de comunicação caracteriza-se pelo seu dinamismo e, no entanto, demonstra-se fugaz na sua capacidade de promover intercâmbios humanos, a não ser com o mesmo ponto de vista. Fracassa na diversidade. A dependência crescente do ciberespaço poderia supor o surgimento da verdadeira solidariedade entre os povos, contra todos os males e tiranias quando, na verdade, essa energia espiritual acaba se esgarçando na própria Rede. Vivemos numa Sociedade do Espetáculo (Guy Debord, 1967). Tudo é construído em função da liberdade ditatorial do mercado. As desilusões diante do que se vê e não se pode alcançar leva à "negação da vida que se tornou visível". "Decresce a verdade e aumenta a ilusão". Feurbach inspirou Debord que, com o seu livrinho (no tamanho) sublevou a juventude francesa em 1968 ao maior quebra-quebra da história.
O filme Diário de um Adolescente (1995), com LeonardoDiCaprio, foi lembrado a propósito do ataque de Columbine. Na película, DiCaprio interpreta um jovem drogado que jogava basquete num colégio e que num dos seus delírios imaginava-se na sala de aula de sua escola vestido com capa preta e matando tudo e todos ao seu redor. Em Columbine três jovens trajados de preto mataram 12 estudantes e um professor. Segundo as notícias, Wellington Menezes também estava vestido de preto. Tiros em Columbine (2002), do cineasta Michael Moore, ganhou o Oscar de melhor documentário. A tragédia também inspirou o filme Elefante, de Gus van Sant. Outro filme que teve Columbine no enredo foi a da professora e mãe solteira Dawn Anna, que perde a filha na matança. Várias músicas foram lançadas para cantar Columbine e suas vítimas. Cassei, da banda Flyleaf esteve nas paradas de sucesso. This is your time foi outra. Até uma sinfonia foi composta baseada no massacre. Um dos sobreviventes da escola norte-americana suicidou-se ouvindo a música. É a ilusão do espetacular criada pela mídia. Quantas vezes ainda teremos que viver as cenas capturadas na escola do Realengo? Aquelas crianças ainda terão que morrer mil vezes na televisão, porque o mercado assim exige. Filmes serão feitos para concorrer a prêmios e inspiradas composições irão para as paradas de sucesso. E o mundo continuará igual. Hemingway foi acusado de "frio" quando escreveu que O Sol Sempre se Levanta, indiferente às tragédias humanas. Apenas repetiu Eclesiastes, 1:5: "O sol também se levanta e o sol se põe, e se apressa para o local onde nasceu".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC