09 de julho de 2026
Bairros

Árvores: tombar para deixá-las em pé

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Elas estão espalhadas por diversos bairros da cidade, são belas, raras, imponentes e podem te colocar na cadeia.

Ficou preocupado? Pois saiba que elas são protegidas por lei e não podem ser reconhecidas facilmente, já que não possuem identificação.

Mas não se assuste.A descrição acima não se refere à algo ruim ou perigoso, mas sim às 197 árvores tombadas pelo patrimônio histórico municipal de Bauru.

E é justamente por serem belos, raros e terem grande valor histórico para a cidade que estes exemplares de diferentes espécies foram declarados imunes ao corte. Desta forma, quem for pego arrancando ou danificando qualquer uma destas árvores responde por crime ambiental e pode ficar "no xilindró" por até um ano.

Transformar uma árvore em parte do patrimônio de uma cidade tornou-se possível em 1965, com a lei federal que criou o código florestal. Porém, durante os 28 anos seguintes as árvores de importância histórica para Bauru ainda tinham de contar com a própria sorte e com o bom senso dos munícipes e das empreiteiras para ficarem em pé. Nas terras daBauru Coração de São Paulo o tombamento como forma de proteção ambiental começou efetivamente a ser praticado apenas em 1993.

Para o secretário municipal do Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves, ainda há tempo hábil para tirar o atraso. Ele aponta que o tombamento é uma ferramenta essencial para a preservação de espécies raras e históricas, além de contribuir com a educação ambiental.

"Muitas árvores contam a história do município, são parte da vida de Bauru. Outras são raras. Ao preservá-las, podemos estudá-las melhor, descobrir suas características, como perpetuá-las e porque foram extintas. Desta forma, a triste história de derrubadas de árvores não vai se repetir", explica Valcirlei.

Os resultados dos tombamentos aplicados no município são exuberantes e estão visíveis para quem quiser conferir. Um caso clássico é o da bela copaíba localizada na avenida Getúlio Vargas e que se tornou um dos cartões postais da cidade.

Em 2001, por muito pouco a árvore não foi tombada, no mal sentido, pela obra que realizou o prolongamento da via. A derrubada só não aconteceu porque a sociedade se organizou pedindo a proteção legal da árvore.

A mangueira localizada na quadra 11 da avenida Comendador José da Silva Martha é outro exemplo de sobrevivência. Ela foi tombada patrimônio histórico municipal em 21 de junho de 2007 e é símbolo de resistência para o município, já que muitas árvores da espécie localizadas na mesma via foram impiedosamente assassinadas em nome do progresso.


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Influência no clima

Uma região bem arborizada, como a que fica próxima do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), pode apresentar até três graus de diferença na temperatura se comparada a uma região sem árvores, como o Centro da cidade, por exemplo.

A constatação é parte de um experimento realizado pelo meteorologista e pesquisador do IPMet José Carlos Figueiredo. Na época, a construção de um residencial próximo da Universidade Estadual Paulista provocou a derrubada de muitas árvores e ocasionou o aumento na temperatura, que pode ser sentido na pele.

"A diferença na temperatura foi de 0,4 graus. Não fiz uma pesquisa aprofundada sobre o assunto, mas é fato que as árvores absorvem parte da energia solar e tornam o ambiente mais agradável. Quando mais verde, menor o aquecimento global", afirma.

Neste sentido, Bauru está em déficit. De acordo com a Organização das Nações Unidas, o ideal é que os municípios tenham, no mínimo, 12 metros quadrados de área verde por habitante. Em Bauru, segundo uma pesquisa realizada no último ano pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) indica que cada habitante tem em torno de nove metros quadrados de área verde, três metros quadrados a menos que o ideal.


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Sem lenço e sem documento

A possibilidade de tombar uma árvore como patrimônio histórico e ambiental de uma cidade é uma grande evolução para a causa verde. A proteção legal impede, sob pena de detenção, que árvores raras e que fazem parte da história do município sejam arrancadas ou danificadas.

Em Bauru, 197 árvores estão sob esta proteção e recebem anualmente a visita de funcionários da Secretária Municipal do Meio Ambiente (Semma) para verificar se está tudo nos conformes.

Isso tudo na teoria. É que nenhuma destas árvores possui qualquer informação a respeito de sua relevância para o município, falha que não permite que elas sejam identificadas pelos moradores do bairro onde estão localizadas.

A maioria dos entrevistados pela reportagem, por exemplo, convive diariamente com árvores tombadas - um deles, inclusive, tem um pé de jatobá na parte interna de seu negócio -, mas não sabia da condição especial dos exemplares. Sob esta perspectiva, fica impossível proteger as árvores da forma como deveria ser feito.

"Moro aqui há nove anos e não sabia que este pequizeiro é tombado, não tem placa nenhuma. Se a Semma visita o lugar a cada um ano e ninguém sabe que a árvore é protegida por lei, existe o risco deles (a Semma) chegarem e encontrarem pó de serra no lugar", critica Nevismar Aparecido Machado, morador do Núcleo Presidente Geisel, vizinho de um pé de pequi protegido por lei.