A vida é algo organizado e para entender este aspecto da vida imagine que com batidas ao acaso no teclado Você componha a palavra "ser" e poderia se lembrar da famosa passagem "ser ou não ser: eis a questão". Acreditaria, então, que o restante de Hamlet surgiria a partir de batidas aleatórias numa máquina? Qualquer cálculo ajuizado revela que produzir uma peça como esta desta maneira é algo irrealizável, mesmo se todos os átomos de matéria da Terra fossem uma máquina produzindo textos ininterruptamente nos últimos 4,5 bilhões de anos. Certa ocasião, em sala de aula, conversando sobre as implicações filosóficas da Segunda Lei da Termodinâmica, afirmei que ela proíbe a formação de matéria organizada a partir de matéria desorganizada. Um de meus alunos contra-argumentou: mas a Segunda Lei se aplica apenas aos sis-temas isolados ou fechados, portanto, não proíbe que as substâncias não vivas da Terra absorvam energia de uma fonte externa como o Sol e se tornarem organizadas. Acontece, entretanto, que a energia absorvida por sistemas químicos é, normalmente, usada para aquecê-los ou formar novas ligações, sem levar a um ganho de organização.
Você está agora lendo este artigo porque trilhões de átomos agitados se reuniram de uma forma intrigantemente providencial a fim de criá-lo. Trata-se de uma organização tão especializada e particular que só existirá desta vez e, nos próximos anos de sua vida, essas partículas minúsculas vão fazer todo esforço necessário para mantê-lo intacto e deixá-lo experimentar a existência: por sinal, um estado agradabilíssimo ao qual não damos o devido valor! Por que os átomos se dão a este trabalho é um enigma. Apesar de toda atenção, seus átomos na verdade nem ligam para Você ? eles nem sequer sabem que Você existe... não sabem nem que eles existem! São partículas insensíveis. Se Você pudesse, com uma pinça, arrancar um átomo de cada vez de seu corpo, produziria um montículo de poeira atômica fina, sem nenhum sinal de vida, mas, no entanto, durante sua existência, estes átomos responderão a um só impulso dominante: fazer com que Você seja Você.
A vida na Terra, além de breve, é desanimadoramente frágil. O curioso da nossa existência é estarmos num planeta exímio em promover a vida, mas ainda mais exímio em extingui-la. A análise de massas de gelo, feitas na Groenlândia, mostrou que os últimos dez mil anos foram uma época de pouca mudança climática na Terra. Antes desse longo período de estabilidade, a Terra sofreu mudanças rápidas e súbitas: aconteceram glaciações bruscas; elevações na temperatura de até dez ou quinze graus podem ter ocorrido em intervalos de décadas e não de milênios, como se acreditava antes. Mas a má notícia para nós, hoje, é que os átomos são volúveis e seu tempo de dedicação é limitado, passageiro. Quando esse modesto marco é atingido, por motivos também desconhecidos os seus átomos vão "desligar" Você e, silenciosamente, vão se separar... passarão a ser outras coisas.
Por mais complexa que seja, no nível químico, a vida é curiosamente trivial: carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, um pouco de cálcio, algumas pitadas de enxofre e de outros elementos bem comuns ? nada que não se encontre na farmácia da esquina. A única coisa especial nos átomos que constituem Você é o milagre da vida. Por isto, este conjunto de átomos deveria ser um veículo dirigido pelo que temos interiormente e a sua existência justificada apenas como um leal servente. Somente quando o recipiente for humilde ele não depreciará ou prejudicará aquilo que ele contém: a centelha divina.
Se há algo que temos que aprender sobre nós mesmos, a partir de nossa nebulosa pré-história, será encontrado nos passos que daremos em direção ao futuro e não no ponto de partida de nossa caminhada neste planeta.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor e engenheiro