08 de julho de 2026
Articulistas

Difícil tarefa

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 2 min

O combate à inflação é tarefa complicada, pois exige uma eficiente coordenação entre a política fiscal exercida pelo ministério da Fazenda e a política monetária do Banco Central (operacionalmente autônomo). O sucesso dessa cooperação determinará a taxa de crescimento econômico, a taxa de juros real e a taxa de câmbio real e, no final, a taxa de aumento do salário real. A experiência mostra que um dos fatores mais importantes na formação da taxa de inflação é a "expectativa" com que a sociedade a antecipa. Isso depende, basicamente, da "credibilidade" da politica monetária exercida por um banco central com plena autonomia operacional. A consequência decisiva dessa "ancoragem" da expectativa inflacionária é que ela elimina boa parte da discussão de como se distribuirão os ganhos de produtividade da economia.

Por exemplo, se graças à crença na firmeza de ação do Banco Central, os agentes reconhecerem que a taxa de inflação vai ser de 4,5% no ano, as disputas quanto a repartição dos ganhos de produtividade entre o capital e o trabalho podem fazer-se num clima de maior harmonia e racionalidade, porque se eliminou a incerteza sobre a inflação futura. Trabalhadores e empresários têm consciência de que existe uma troca entre o presente e o futuro. Se todo o ganho de produtividade for distribuído como "salário", não sobrará nada para o "investimento" e a produtividade declinará. Em breve nada haverá para distribuir e o desemprego aumentará. Se todo o ganho de produtividade for apropriado pelo capital, em pouco tempo não haverá demanda para o produzido. Em breve, o lucro desaparecerá. Trabalhadores e empresários sabem que mais consumo no presente reduz o nível de investimento e a taxa de crescimento econômico per capita possível no futuro, porque este depende da relação Capital/Trabalho.

Enquanto existirem fatores de produção abundantes em proporção adequada, eles poderão ser mobilizados pelo crédito e produzirão um rápido crescimento que se auto-estimula sem gerar importantes pressões inflacionárias. Mas, mesmo assim, não há como superar a troca entre o "presente" e o "futuro". O problema se complica quando já não existem fatores de produção disponíveis na proporção adequada. A falta de controle do crédito leva ou à inflação ou ao déficit em conta-corrente ou, mais frequentemente, aos dois. Nessa circunstância, a "ancoragem" da expectativa inflacionária construída pelo Banco Central é decisiva. É preciso dizer, finalmente, que "coordenar" as políticas fiscal e monetária não é subordinar uma à outra. É reforçarem-se mutuamente com vistas aos objetivos comuns.  


O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento