09 de julho de 2026
Saúde

Vacina contra malária é fruto de pesquisa de casal brasileiro

Alexandre Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Em fevereiro, cientistas anunciaram resultados de uma promissora vacina contra malária. Milhares de crianças foram imunizadas na África. Quase metade (45,8%) ficou protegida, um recorde nos testes de larga escala. Pouca gente sabe, mas os pais da vacina são brasileiros. "O trabalho de Ruth e Victor Nussenzweig fundamentou a concepção e o desenvolvimento da vacina", afirma Joe Cohen, da farmacêutica GSK Bio, autor do artigo no "The Lancet" que descreve os resultados na África. O casal Ruth e Victor vive nos EUA desde 1964. Eles trabalham na New York University (NYU).

A comunidade científica não acreditava em uma vacina para malária. Todos sabiam que, depois de sucessivas infecções, pessoas que vivem em áreas endêmicas não costumam adquirir imunidade. Daí seguia um raciocínio tão simples quanto incorreto: se a natureza não gera uma resposta imune eficaz, a técnica não pode almejar resultado melhor.

Ruth desafiou o consenso. Utilizou esporozoítos - estágio do plasmódio na glândula salivar dos mosquitos inoculado durante a picada. O primeiro passo foi esterilizá-los com Raios X, estratégia para tornar os esporozoítos inofensivos. Depois, injetou-os em camundongos. Os roedores desenvolveram imunidade, comprovando a viabilidade de uma vacina. Os resultados mereceram publicação na "Nature" em 1967 e foram, depois, confirmados em macacos e humanos.

Mesmo assim, a vacina permanecia distante: não seria viável dissecar mosquitos para produzir, em escala industrial, a forma atenuada do esporozoíto.

Infecção

Na década de 80, a equipe de Victor identificou a proteína na superfície do esporozoíto que, ao ser neutralizada pelo sistema imune, impossibilitava a infecção: a proteína circunsporozoíto (CSP, na sigla em inglês). Era a chave para uma vacina sintética e economicamente viável.

A descoberta rendeu uma honra incomum: a visita de Sir John Maddox, da "Nature". O lendário editor da maior revista científica do mundo viajou de Londres a Nova York para garantir que o brasileiro publicaria a descrição do gene da CSP na sua revista.

As farmacêuticas ficaram eufóricas. No dia 3 de agosto de 1984, o "New York Times" estampou uma foto de Ruth sob o título "Uma vacina iminente contra malária". A NYU estabeleceu uma parceria com a suíça Hoffmann-La Roche e criou uma vacina que recolhia o pedaço mais importante da CSP. Nos testes clínicos, em 1987, 35 indivíduos receberam o composto. Três tiveram ótima reação do sistema imunológico e foram expostos a picadas do mosquito infectado. Um ficou completamente protegido e os outros dois, parcialmente.

Foi um balde de água fria na opinião pública, mas, para Victor, representava um grande avanço: comprovava a viabilidade da vacina. Pouca gente concordou na época e quase todas as farmacêuticas desistiram. Com uma exceção: Joe Cohen, da GSK Bio, sabia que os resultados eram sólidos e bastaria um bom adjuvante - substância que amplifica a resposta imune - para aumentar a eficácia. A aposta foi premiada. A vacina da GSK deve começar a proteger crianças na África em 2015.

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Pesquisadores querem voltar ao Brasil

Ruth Nussenzweig nasceu em Viena, na Áustria. Veio para cá com 8 anos, fugindo do terror nazista. Hoje, com 82 anos, mesma idade do marido, não esconde o desejo de voltar ao País. Victor é paulistano. Conheceu Ruth ao entrar na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Ambos participaram de movimentos ligados à esquerda estudantil. "Mas Ruth me convenceu a trocar a política pela pesquisa", comenta Victor. "Seria uma outra forma de contribuir para o futuro da humanidade."

Tiveram três filhos. O mais velho, Michel, é imunologista e trabalha na Rockefeller University. O caçula, Andre, é pesquisador sênior do NIH, a prestigiosa agência de saúde dos EUA. A filha, Sônia, estudou na USP, é antropóloga e vive no Brasil. Hoje, Ruth e Victor têm seis netos, dois de cada um dos filhos. Mas a motivação de Ruth para voltar ao País não nasce só da saudade de Nina e Marcelo, filhos de Sônia. Ela também gostaria de trabalhar ao lado de Mauricio Rodrigues, pesquisador da Unifesp, no desenvolvimento de uma vacina contra a principal forma de malária encontrada no Brasil, causada pelo Plasmodium vivax. A vacina da GSK funciona apenas para o Plasmodium falciparum, predominante na África.


Desafio

Ruth considera Rodrigues o melhor aluno que acompanhou no pós-doutorado da New York University (NYU). Ele sabe que tem um grande desafio pela frente. A CSP, principal chave para o desenvolvimento da vacina contra P. falciparum, possui três variantes naturais no P. vivax. E a imunização precisa funcionar para as três. Rodrigues já criou um gene capaz de produzir uma proteína que recolhe as particularidades das três versões da CSP do P. vivax. A substância seria o principal composto da futura vacina.

Ele espera que, no próximo ano, seja possível iniciar os testes de fase um em humanos. Rodrigues pretende contar com o apoio do Instituto Butantã na realização dos testes e na produção da vacina. "Os laboratórios privados não têm interesse econômico neste projeto", explica o pesquisador.

Há alguns meses, Rodrigues encomendou amostras de adenovírus com o gene da CSP para utilizá-los em testes. O material, vindo dos EUA, estragou na alfândega. Victor recorda a história para exemplificar o que considera um dos principais problemas da academia brasileira: a burocracia.

Ele também vê com preocupação os recentes cortes no orçamento de ciência do governo federal e a excessiva estabilidade dos pesquisadores na academia. "Se o sujeito não quiser render, ele pode ficar parado", aponta. "Não há instrumentos para estimular produtividade."

"Com certeza, vamos voltar (ao Brasil)", afirma Victor. Mas, antes, ele pretende trabalhar no projeto de um fármaco contra malária nos EUA. Até lá, vai contribuir com sugestões para a política científica nacional na Comissão do Futuro, grupo de 21 pesquisadores criado e presidido pelo neurocientista Miguel Nicolelis, a pedido do Ministério da Ciência e Tecnologia.


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Participação de empresa

é fundamental para testes

Joe Cohen, da GSK Bio, visitou Victor e Ruth Nussenzweig em Nova York para convidá-los a se associar às pesquisas da empresa. O casal não aceitou. A experiência anterior com a indústria farmacêutica não fora especialmente gratificante.

"Os objetivos na academia e no mercado são muito diferentes", explica Victor. Mesmo assim, Ruth considera essencial a cooperação com a indústria farmacêutica. "Sem eles, as descobertas não chegariam às pessoas", afirma a pesquisadora. "É preciso muito dinheiro para realizar testes clínicos."

Cohen afirma que a vacina contra malária vai exigir, até 2015, um investimento de US$ 450 milhões (cerca de R$ 750 milhões) da GSK. Sem contar os US$ 200 milhões (cerca de R$ 320 milhões) que vieram da Fundação Bill e Melinda Gates.

Quando a NYU patenteou o gene da CSP, houve gritaria na comunidade científica. "Eles diziam: não é correto misturar capitalismo com a busca de uma vacina contra malária", recorda Victor.

O pesquisador prevê que os principais compradores serão governos, especialmente na África. A produção da vacina exige tecnologias sofisticadas e caras. A venda em larga escala diminui o custo, tornando-o acessível.

Victor ainda não está satisfeito com os resultados. Por isso, o grupo da NYU continua pesquisando. Uma das promessas que surgiram na universidade é o sistema conhecido como "prime boost heterólogo": as pessoas são imunizadas primeiro com um adenovírus que carrega um pedaço da CSP. Depois de algumas semanas, recebem a vacina tradicional. A resposta imune é mais vigorosa e duradoura. A GSK vai testar o novo modelo. "E confiamos em uma eficácia maior", afirma Cohen.