Encontrar crianças, adolescentes e até mesmo adultos com menos de 40 anos que prefiram ler um bom livro a passar horas e horas navegando pela Internet, jogando videogame ou vendo TV é algo cada vez mais raro nos dias de hoje. Em razão disso, bibliotecas e livrarias são alguns dos espaços mais vazios da cidade.
Basta perguntar em escolas, para pessoas da sua família e até mesmo nas descontraídas rodas de bar para constatar que a maioria das pessoas raramente vai à biblioteca ou lê um livro. É assim com as amigas de Marieli de Souza, 9 anos.
"Elas não gostam muito de ler, não. Preferem o computador", explica a pequena, que diz não entender a escolha das colegas.
Marieli é uma das crianças que fogem à regra. Apaixonada pelos livros, especialmente os de contos de fadas e lendas, pelo menos uma vez por mês ela sai do Parque Santa Edwirges, bairro onde mora, e vai à Biblioteca Municipal, no Centro da cidade, para emprestar os livros que lhe farão companhia durante a semana.
O contato com o encantador mundo da literatura foi passado pela mãe, Marta Roseli de Souza, 32 anos, que não se importa em percorrer quase cinco quilômetros para levar a filha até o acervo.
"Acho muito importante para a formação dela e fico feliz quando ela me pede para vir até a biblioteca. Minha infância foi muito marcada pelos livros, em especial por um que se chama A Ilha Perdida, e quero que com ela aconteça o mesmo", explica Marta.
Pelo jeito, Marieli não vai decepcionar a mãe. Entretida com tantas opções, ela corria a estante em busca de seus prediletos e acabou saindo do local com três livros emprestados.
"Quero levar o máximo que eu posso. Vou ler tudo", conta a menina, que tem o Pequeno Polegar e a Cinderela na lista de seus livros prediletos.
Quem também pegou gosto pelos livros por influência de alguém da família é Wesley Cardoso de Oliveira Quessada Santos, 11 anos. Foi o padrasto quem incentivou o garoto a frequentar a biblioteca ramal do Núcleo Presidente Geisel, vizinha do Jardim Redentor, bairro onde a família vive.
Na tarde da última terça-feira, nem a chuva que estava por vir intimidou o falante Wesley, que montou em sua bicicleta e pedalou até a ramal para devolver os exemplares emprestados na tarde anterior.
Logo que ele chegou o silêncio causado pelo vazio da biblioteca foi quebrado e se encheu com a curiosidade do pequeno.
"Já li tudo. Quero mais. Tem Meu Pé de Laranja Lima aí? Estou louco pra ler...", perguntou, empolgado, a Valter Tomaz, responsável pela biblioteca ramal e agora amigo de Wesley.
Entre a escolha de um livro e outro, o menino conta que entre seu grupo de amigos, apenas ele tem o hábito de ir até a biblioteca. Diz que gosta dos livros porque tem começo, meio e fim, diferente dos jogos de videogame, que demoram muito para chegar ao fim, e da internet que, segundo ele, cansa a vista.
Depois de alguns minutos, Wesley já estava novamente em cima da bicicleta, com livros e gibis novos na mochila, a caminho de casa.
De hobby à profissão
Na opinião de Danilo Moura, 28 anos, o melhor emprego do mundo é justamente o local onde ele trabalha: a Gibiteca Municipal, localizada no interior da Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, no Centro de Bauru.
O cenário é um velho conhecido. Ele começou a frequentar o local quando tinha 16 anos com o objetivo de fazer pesquisas para os trabalhos escolares, e não demorou a perceber que as amplas mesas do local podiam ser um agente facilitador de seu principal passatempo quando adolescente: desenhar histórias em quadrinhos.
"Foi aqui que fiz meus primeiros desenhos", recorda, saudoso.
O tempo passou, Danilo cresceu, iniciou o curso de desenho industrial na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e, há dois anos, transformou o cenário que marcou sua infância em seu posto de trabalho. É entre os 7.800 exemplares de gibis da gibiteca que Danilo passa as horas de seu dia e o melhor: ganha para isso.
"Para mim este lugar é mágico. Adoro trabalhar aqui. Na gibiteca tenho contato com gente que gosta das mesmas coisas que eu, troco informações e ainda tenho um vasto material para desenvolver meu trabalho de conclusão de curso, que é sobre quadrinhos", explica.
Alguém se arrisca a adivinhar se Danilo trocaria os quadrinhos pelas modernidades oferecidas pelo universo virtual?
Eu quero é sossego!
Silêncio, tranquilidade e fontes de informação de sobra. Estas são as características que atraem Pedro Henrique Martins Ciano, 18 anos, até as dependências da Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu, no Centro.
Atualmente, ele dedica qualquer tempo que sobra entre o emprego e os outros afazeres do dia para estudar para o vestibular de biomedicina e descobriu na biblioteca o lugar ideal para fazer isso.
"Antes eu vinha até a biblioteca apenas para pegar livros e voltava pra casa. Ainda assim, não era com tanta frequência. Atualmente, por conta do vestibular, criei uma identificação muito legal com este espaço. Venho aqui pelo menos três vezes por semana", conta.
Mas descobrir a biblioteca como um espaço de estudos e sosssego só foi possível porque Pedro trabalha no Centro da cidade. Morador do Núcleo Mary Dota, ele afirma que se precisasse sair do bairro exclusivamente para frequentar o local dificilmente o faria.
"Eu perderia muito tempo no trajeto", justifica.
Atualmente, o Núcleo Mary Dota possui uma biblioteca ramal desativada. No local, para tristeza dos moradores, os livros foram encaixotados e deram lugar a um posto de saúde improvisado, fato que significa que nem a saúde nem a educação andam bem das pernas em um dos maiores conjuntos habitacionais horizontais da América Latina.
"É muito ruim. Cheguei a ir na ramal uma ou duas vezes para estudar. Fica perto de casa. Mas lá, além do acervo é bem menor e também mais antigo, está desativado", lamenta.